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O microcimento chega ao fim: este é o novo material que vai substituí-lo nas nossas casas.

Mulher ajoelhada limpa líquido derramado no chão de cimento, com plantas e gaveteiro ao fundo.

A tendência morreu a meio de uma tarde de domingo, sob o zumbido suave do exaustor da cozinha. Clara estava a limpar molho de tomate da sua bancada lisa de microcimento cinzento quando surgiu uma auréola escura sob a esponja. A mancha não saía. Suspirou, pegou num produto mais agressivo, esfregou com mais força. A superfície perdeu o brilho, riscou-se ligeiramente, deixou de ter aquele ar perfeito de revista com que tinha sonhado.

Olhou em volta para o apartamento, outrora ultra-minimalista e de estética industrial. O chão, as paredes, a bancada: tudo o mesmo cinzento contínuo, tudo a exigir um cuidado precioso e delicado que a vida com crianças, chaves e copos de café de take-away simplesmente não oferece.

Nesse dia, decidiu: nunca mais.

E não é a única.

O caso de amor com o microcimento está a estalar

O microcimento entrou nas nossas casas como uma fantasia do Pinterest: elegante, contínuo, com vibes de casa de banho de hotel, fotografado na luz dourada do fim de tarde. Queríamos essas superfícies infinitas, sem juntas, sem rejunte, apenas uma pele pura de betão macio sob os pés.

Depois, a vida real voltou a entrar. Cadeiras a arrastar. Brinquedos a cair. Azeite a salpicar. Pequenas fissuras a aparecer nas passagens de porta, manchas a fixarem-se junto ao fogão, o piso do duche a ficar ligeiramente baço onde a água bate todos os dias. Aquele “ar de casa de arquiteto” começou a parecer cansado, até um pouco frio.

Hoje sente-se a mudança nos jantares em casa. As pessoas ainda dizem “uau” quando entram, mas a conversa passa rapidamente para outra coisa.

Pergunte a qualquer aplicador e ele dir-lhe-á: há cinco anos, as listas de espera para microcimento eram absurdas. Era preciso marcar com meses de antecedência, como um corte de cabelo com um cabeleireiro de estrelas. As redes sociais estavam cheias de casas de banho em microcimento, escadas em microcimento, ilhas de cozinha em microcimento grandes o suficiente para aterrar um drone.

Agora esses mesmos profissionais são chamados de volta… para corrigir, remendar, ou simplesmente arrancar tudo. Um proprietário em Lyon partilhou recentemente a conta de refazer o duche em microcimento após infiltração: a bonita caixa cinzenta revelou-se uma diva de alta manutenção. Outro casal, num pequeno apartamento em Londres, confessou que agora põe tapetes em todo o lado porque o chão parece “frio e escorregadio, como uma loja”.

A fotografia de sonho fica online. A realidade do dia a dia, menos partilhada, é feita de riscos, selantes e produtos de limpeza suaves que nunca se chegam a comprar.

Por trás da história estética há algo mais básico: as nossas casas têm de trabalhar mais do que os nossos feeds de Instagram. A pandemia empurrou-nos para viver, trabalhar, fazer exercício, criar filhos e, ocasionalmente, chorar nas mesmas divisões. Começámos a exigir que as superfícies façam tudo: que fiquem bem, resistam a tudo, sejam confortáveis ao pé, fáceis de limpar e não custem uma fortuna a reparar.

O microcimento nasceu em showrooms e hotéis de design. Prosperam em ambientes controlados, com utilizadores bem-comportados e equipas de limpeza que seguem a folha de manutenção. Vida de família, animais e a falta de jeito do quotidiano são outro mundo. Um revestimento aplicado em milímetros simplesmente não perdoa como um material que é maciço de ponta a ponta.

Por isso, um novo favorito está a entrar em cena. O mesmo aspeto contínuo, mas muito mais tolerante por dentro.

A alternativa quente e maciça que está, discretamente, a conquistar

O nome que vai ouvir muito mais é terrazzo mineral e os seus “primos” atualizados: pavimentos de terrazzo sem juntas, vazados no local, e superfícies minerais talochadas com agregado real no interior. Pense nisto como o irmão mais crescido e mais gentil do microcimento. Continua a dar aquele aspeto limpo, sem juntas, mas com pequenos fragmentos visíveis de pedra, vidro ou mármore que trazem calor, profundidade e textura.

O método também é diferente. Em vez de uma pele decorativa ultra-fina, estes sistemas são mais espessos e densos, muitas vezes à base de cal ou cimento com agregados naturais misturados em toda a massa. Se a camada superior se desgastar um pouco, o padrão e a cor continuam lá. Sente-se mais como um material verdadeiro do que como um filtro cosmético.

Pode andar descalço e não sentir que está numa concept store.

Conheci um casal em Bordéus. Fizeram uma cozinha inteira em microcimento em 2019: chão, ilha, backsplash, o pacote completo do Instagram. Dois filhos, um cão e um confinamento depois, o chão tinha microfissuras e a aresta da ilha estava lascada. Adoravam a ideia de continuidade, mas estavam cansados de tratar a superfície com demasiados cuidados.

No ano passado, arrancaram o chão e substituíram-no por um terrazzo mineral claro, bege quente, vazado de uma só vez. Pequenos fragmentos creme e brancos captam a luz, dando um movimento suave que o antigo cinzento liso nunca teve. O aplicador mostrou-lhes como vinho tinto derramado pode ser limpo sem drama, e como um ligeiro polimento e uma nova selagem daqui a 10 anos refrescam tudo.

Perderam o “look de galeria” e ganharam algo muito mais próximo de um pátio mediterrânico ao sol. Os miúdos agora fazem patins no corredor.

Há uma razão técnica para este material estar a ganhar corações. O microcimento é como verniz de unhas: lindo, fino, vulnerável ao que está por baixo. Qualquer movimento na base, qualquer pequeno impacto, e a camada superior paga a fatura. Sistemas tipo terrazzo mineral comportam-se mais como pedra verdadeira: a espessura, a estrutura interna e uma ligeira elasticidade permitem absorver melhor as pequenas violências da vida.

Do ponto de vista do design, esta mudança também diz muito sobre onde estamos. Estamos a afastar-nos do minimalismo frio e a aproximar-nos de um minimalismo suave: arestas arredondadas, paredes com textura, neutros mais quentes. Superfícies minerais contínuas com agregado visível encaixam na perfeição nesta nova vaga. Parecem trabalhadas, não clínicas. Combinam com madeira, linho, plantas, desarrumação do dia a dia.

Queremos casas que envelheçam connosco, não casas onde temos de andar em bicos de pés.

Como trocar o microcimento pela nova geração de pavimentos minerais

Se já tem microcimento em casa e, em segredo, sonha com uma mudança, o primeiro passo não é demolição. É conversa. Ligue a um especialista em terrazzo mineral ou pavimentos minerais sem juntas e peça uma visita de diagnóstico. Vão bater, medir e inspecionar a superfície atual para ver se pode servir de base ou se tem de sair.

Por vezes, um piso em microcimento bem aderente mas visualmente cansado pode ser lixado, aplicado um primário e usado como suporte estável para um novo sistema. Noutros casos, sobretudo com problemas de humidade, será preciso ir até à betonilha. Parece assustador, mas é também a oportunidade de repensar pendentes, piso radiante e isolamento.

É possível fazer uma divisão de cada vez. Comece pela entrada ou pela cozinha e viva com o novo material antes de avançar para o resto.

A maior armadilha é tratar isto como escolher uma cor de tinta. Escolhe-se a partir de uma amostra minúscula num dia de sol, esquece-se que o chão vai ser visto às 7h da manhã com luz de inverno, e que tudo - do pelo do cão aos lápis de cera dos miúdos - vai parar lá em cima. Todos já passámos por isso: o momento em que o “bege perfeito” fica esverdeado à noite e se pergunta o que aconteceu.

Passe tempo a observar amostras maiores em casa, a diferentes horas. Peça para ver obras reais em casas reais, não apenas a perfeição de showroom. Faça perguntas diretas sobre manchas, fissuras e reparações - e espere respostas honestas.

Sejamos honestos: ninguém segue um protocolo de manutenção de 10 passos todos os dias. A sua nova superfície deve aguentar a forma como vive agora, não como sonha viver um dia.

“As pessoas chegam até mim a dizer ‘quero microcimento’”, explica a arquiteta de interiores Sofia Mendes. “Depois de lhes mostrar duas casas de banho com cinco anos de uso e um terrazzo mineral com a mesma idade, nove em cada dez mudam de ideias. Continuam a querer linhas minimalistas, mas com calor e tolerância.”

  • Escolha bem o tom
    Os tons médios (nem muito claros nem muito escuros) escondem melhor o pó e as migalhas do dia a dia do que brancos extremos ou antracites.
  • Pense nos seus pés
    Se anda muito descalço, peça um acabamento ligeiramente acetinado ou aveludado, em vez de alto brilho, que pode parecer frio e escorregadio.
  • Planeie arestas e pormenores
    Pergunte como serão tratadas escadas, soleiras de duche e aros de portas para que a continuidade pareça intencional, não improvisada.
  • Faça orçamento para manutenção, não para pânico
    Uma re-selagem ou polimento leve a cada poucos anos é manutenção normal, não sinal de falha do material.

De caixas cinzentas e frias para espaços vivos e texturados

Algo mais profundo do que a moda está a acontecer nas nossas casas. Estamos, discretamente, a baixar o volume desses interiores duros, tipo galeria, e a convidar materiais com mais alma. O microcimento liso pertence a uma era de vidas perfeitas e filtradas. O terrazzo mineral e os seus primos falam de algo mais confuso, mais quente e muito mais interessante: uma superfície que aguenta o caos do quotidiano e ainda assim fica bonita.

Vê-se por todo o lado, assim que começamos a reparar. Cozinhas onde o tampo da ilha parece uma fatia de pedra antiga, não uma bancada de laboratório. Casas de banho onde o chão tem pequenas pintas que apanham o sol e desviam o olhar das inevitáveis marcas de salpicos. Salas onde os miúdos podem construir cabanas sem os adultos se encolherem a cada risco de arrasto no chão.

Talvez a verdadeira tendência não seja um produto específico, mas o direito de deixar as nossas casas parecerem tão vivas quanto nós. E esse tipo de mudança costuma durar mais do que uma hashtag.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O microcimento está a perder força Desgaste visível, fissuras, manchas e uma sensação mais fria, de showroom Ajuda a perceber porque é que as superfícies outrora “na moda” agora parecem datadas
Sistemas tipo terrazzo mineral em ascensão Mais espessos, mais maciços, com agregados naturais e texturas mais quentes Oferece uma alternativa durável e tolerante, com um aspeto contínuo semelhante
A escolha e o método importam Diagnóstico no local, amostras realistas, manutenção planeada Dá um caminho claro para transformar a casa sem erros dispendiosos

FAQ:

  • O microcimento está mesmo “acabado” ou ainda vale a pena considerar?
    Não desapareceu, mas tornou-se uma opção de nicho, mais indicada para zonas de pouco tráfego e utilizadores muito cuidadosos. A grande vaga mainstream passou claramente em favor de superfícies minerais mais quentes e robustas.
  • O que substitui exatamente o microcimento na maioria dos projetos hoje?
    Arquitetos estão a optar por pavimentos tipo terrazzo mineral vazados no local, revestimentos minerais talochados com agregado e sistemas à base de cal ou cimento que são mais espessos e mais estruturais do que o microcimento clássico.
  • Posso aplicar estas novas superfícies minerais por cima do microcimento existente?
    Por vezes, sim, se o microcimento estiver são, bem aderente e seco. Um profissional tem de avaliar; se houver fissuras profundas ou problemas de humidade, é provável que recomende voltar à betonilha.
  • Estas alternativas são mais caras do que o microcimento?
    Por metro quadrado, um terrazzo mineral de alta qualidade costuma custar um pouco mais à partida, mas tende a durar mais e a tolerar melhor reparações, o que pode torná-lo mais económico ao longo de 10–15 anos.
  • Como faço a manutenção diária de um terrazzo mineral ou piso semelhante?
    A maioria dos sistemas só precisa de um detergente neutro suave, re-selagem ocasional e feltros nas pernas do mobiliário. Sem produtos agressivos, sem rotinas obsessivas - apenas cuidado regular e consistente, ajustado à vida real.

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