Os altifalantes do supermercado estão a passar Mariah Carey em loop, o Slack do escritório está cheio de emojis brilhantes e a tua agenda parece ter sido atacada por confettis festivos.
No papel, esta deveria ser a fase mais feliz do ano. Na realidade, muita gente arrasta-se por dezembro como se fosse uma pista de obstáculos emocional. Convites a mais, sono a menos, presentes “rápidos” encomendados à meia-noite, um sorriso que começa a parecer uma máscara. Chegas a janeiro espremido, ressentido e vagamente envergonhado por não teres aproveitado “como deve ser”.
Talvez o problema não sejam as festas em si. Talvez sejam um punhado de pequenas escolhas que repetimos todos os anos sem dar por isso. Movimentos minúsculos que parecem inofensivos no momento, mas que drenam silenciosamente a nossa energia, dinheiro e respeito por nós próprios. Daqueles que não parecem suficientemente dramáticos para serem questionados. É aí que a miséria se esconde.
A miséria de fim de ano não é um mistério. É um padrão.
1. Dizer sim a tudo (e ficar a ressentir-se de toda a gente)
Olha para qualquer agenda de dezembro e vais ver a mesma história a repetir-se. Festa da empresa, “só uma bebida” com colegas, jantar de família, espetáculo da escola, noite do vinho quente do vizinho, ida de compras de última hora que se transforma numa maratona de dia inteiro. Tu acenas, sorris e aceitas, porque dizer não parece mal-educado, egoísta, ou como se estivesses a falhar no “espírito festivo”. Depois cais no sofá à 1 da manhã a fazer scroll no telemóvel, a perguntar-te porque é que te sentes estranhamente sozinho num mês cheio de pessoas.
Numa quinta-feira chuvosa ao fim da tarde, a Emma, 34 anos, rececionista, fixa três convites no telemóvel. Bebidas do trabalho, a festa das camisolas feias do primo e um evento de “diversão obrigatória” de team building na manhã seguinte. Ela escreve “Adorava!” aos três e depois passa o fim de semana a gerir roupa, transportes e conversa de circunstância. No domingo à noite já chorou duas vezes na casa de banho, pegou-se com o companheiro por nada e ignorou uma chamada da melhor amiga porque “já não consegue falar com mais ninguém”. No papel, tinha uma vida social cheia. Por dentro, sentia-se como um manequim passado de sala em sala.
Cada “sim” gasta energia, tempo e capacidade emocional. Quando não escolhes para onde isso vai, outras pessoas escolhem por ti. O estranho é que a maioria dos anfitriões prefere um não genuíno a um sim falso e uma presença vazia. A sobrecarga social raramente explode em público. Escorre em forma de irritabilidade, bebida sem pensar, comer por impulso ou aquele medo sem nome ao domingo à noite. Achas que “odeias o Natal”, quando talvez apenas nunca te tenhas dado permissão para falhar a quarta festa da semana. Uma noite tranquila pode proteger umas festas inteiras.
2. Perseguir o guião “perfeito” das festas
A segunda armadilha invisível é o filme que passa na tua cabeça. O jantar em que toda a gente se dá bem. A árvore digna de Instagram. As crianças que abrem presentes em câmara lenta, a sussurrar “uau” com olhos brilhantes. O parceiro que adivinha magicamente o presente que querias, sem pistas. Tu não estás só a organizar uma celebração: estás a tentar realizar um blockbuster impecável com pessoas reais que não receberam o guião. Não admira que te sintas um realizador falhado pelo Dia de Santo Estêvão.
Na manhã de 24 de dezembro, o Marco acorda às 6 da manhã com uma lista mental a gritar. Assado no forno às 10. Casa de gengibre com as crianças às 11. Fotos perfeitas da mesa às 13h30. Planeou jogos, playlists, roupa. Quando o filho de 6 anos bate na árvore e parte dois enfeites, ele cerra a mandíbula com tanta força que dói. O almoço é servido com 40 minutos de atraso, o irmão aparece com uma namorada vegana surpresa, a sobremesa queima enquanto ele tenta arranjar o Wi‑Fi. Às 17h, o Marco já está a responder torto a toda a gente e escondido na cozinha a fazer scroll em vídeos de festas impecáveis. Sente que é o único a fazer tudo “mal”.
O mito das festas perfeitas não aparece como um pensamento claro. Entra de mansinho, em comparações pequenas e expectativas invisíveis. Não estás só a fazer uma refeição: estás a competir com uma fantasia construída por filmes, anúncios e nostalgia da tua infância. Essa fantasia tem orçamento ilimitado, zero crianças doentes, sem engarrafamentos e muita luz de estúdio. A vida real tem nódoas, discussões e mudanças de última hora. Quando aceitas isto, algo relaxa. Deixas de perseguir o perfeito e começas a reparar em momentos pequenos, desarrumados e reais. A sobremesa queimada vira uma história. A fotografia imperfeita vira a tua favorita. As festas deixam de ser um exame que estás condenado a reprovar.
3. Pôr o corpo em “modo de emergência” durante três semanas
A miséria das festas não está só na tua cabeça. Está no teu sistema nervoso. Dias longos, noites curtas, comida pesada, picos de açúcar seguidos de quebras, scroll na cama sob luz azul. O teu corpo entra silenciosamente em modo de sobrevivência enquanto tu lhe chamas “celebrar”. O entusiasmo de curto prazo é real, mas também são a neblina mental, a irritabilidade, as dores e os despertares às 3 da manhã com o coração acelerado sem motivo óbvio. É difícil sentir alegria quando o corpo sente que está sob ataque.
Na véspera de Natal, o Jamal diz a si próprio que “recupera o sono em janeiro”. Vive a café e restos, petisca caixas de chocolates na secretária, bebe mais do que o normal em cada evento porque “é a época”. No Dia de Ano Novo, não deu um passeio decente nem comeu um vegetal há uma semana. As costas doem de cadeiras más e stress, a pele rebentou e ele começa a implicar com os pais ao almoço porque respiram alto demais. Quando o companheiro sugere uma caminhada curta, ele revira os olhos e volta ao doomscrolling. Não liga nada disto ao corpo. Só acha que está a falhar na gratidão.
O teu cérebro lê falta de sono, refeições irregulares e estimulação constante como perigo. As hormonas do stress sobem. A paciência desce. Ficas mais sensível a comentários pequenos, mais propenso a “atalhos” rápidos, menos capaz de te sentires centrado. Chamamos-lhe “mudanças de humor das festas” e fazemos piadas, mas não é ao acaso. Cada copo de água que saltas, cada hora extra de scroll noite dentro, cada terceiro copo acumula. Pequenas escolhas físicas reescrevem silenciosamente o teu guião emocional das festas. Não precisas de uma rotina perfeita para evitar isto. Só precisas de alguns “não negociáveis” que mantenham o teu corpo fora do modo de emergência total enquanto o resto do mundo atira lantejoulas.
4. Micro-escolhas silenciosas que transformam dezembro numa panela de pressão
Há uma maneira de atravessar o fim do ano que não acaba contigo estendido no sofá a 2 de janeiro, a resmungar “nunca mais” pela quinta vez. Não parece espetacular. Parece dizer não a um convite, pôr um grupo de WhatsApp em silêncio, comprar o presente ligeiramente menos “impressionante” que não rebenta o teu orçamento. É mais sobre o que subtrais do que sobre o que adicionas. As festas ficam mais gentis quando deixas de tentar ganhá-las.
Um gesto simples que ajuda muita gente é escolher um “mínimo viável de festas”. Um evento social que tu queiras mesmo. Um ritual pequeno que tenha significado para ti. Um limite financeiro que respeites de verdade. Só isso. Tudo o resto é opcional. Podes dizer à família: “Vou ao almoço, mas este ano vou embora antes dos jogos noite dentro.” Podes decidir que presentes abaixo de um certo valor são suficientes, sem culpa. Podes escolher uma noite por semana em que estás incontactável e chamar-lhe a tua “noite de reset”. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas um ou dois bolsos protegidos de sanidade podem mudar todo o clima emocional de dezembro.
“As festas não curam magicamente o que dói; amplificam o que já lá está. O teu trabalho não é fingir alegria - é baixar o volume de tudo o que a esmaga.”
- Diz um não honesto: Recusa um plano que te drena e não te justifiques demais.
- Escolhe uma âncora pequena: Uma caminhada diária, uma chávena de chá sozinho, uma linha curta no diário antes de dormir.
- Define uma linha de dinheiro: Decide o teu orçamento para presentes ou festas e escreve-o num sítio visível.
- Limita janelas de comparação: 10 minutos de redes sociais e depois de volta à tua vida.
- Protege o sono como um compromisso: Escolhe duas noites por semana em que te deitas mais cedo, sem negociação.
5. Deixar que a “ressaca” das festas te ensine alguma coisa
Há um momento no início de janeiro em que as luzes da rua parecem cansadas, a árvore no passeio perde agulhas e a tua caixa de entrada volta a acordar. É aí que a ressaca emocional bate mais forte. Repassas conversas, olhas para a app do banco, fazes scroll por fotos que não combinam com o que sentiste. Em vez de fugires desse desconforto, podes tratá-lo como um debrief anual. Um check-in calmo e honesto. O que doeu secretamente? O que ajudou secretamente?
Todos já vivemos aquele momento em que pensas: “Para o ano faço diferente”, e depois esqueces em maio. Desta vez, podes escrever três listas curtas nas notas: “Manter”, “Largar”, “Experimentar”. Em “Manter”, uma ou duas coisas que te aqueceram de verdade, por pequenas que sejam. Em “Largar”, as tradições, visitas ou compras que te deixaram pesado. Em “Experimentar”, uma experiência para o próximo ano: um encontro mais pequeno, um convívio sem presentes, uma caminhada antes da refeição grande. Não estás a redesenhar a época inteira. Estás a ajustá-la.
As festas serão sempre confusas, barulhentas, por vezes dolorosas. As pessoas trazem a vida inteira para a mesa: luto, rancores, amor, cansaço, esperança. Não controlas isso. O que podes fazer é reparar nas oito ou assim escolhas do dia a dia que inclinam silenciosamente o mês para a miséria: dizer sim a tudo, perseguir a perfeição, ignorar o corpo, gastar para lá do teu conforto, forçar a convivência, doomscrolling de comparações, anestesiar qualquer sentimento, não estabelecer qualquer limite. Cada uma é pequena. Juntas, constroem uma tempestade. A boa notícia é que as pequenas escolhas funcionam nos dois sentidos. Uma conversa honesta, uma noite cedo, uma tradição imperfeita mas real podem ser suficientes para começares a reescrever como dezembro se sente. Não mágico. Apenas mais teu.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Dizer não a alguns convites | Escolher conscientemente 1 ou 2 eventos importantes e deixar cair o resto | Reduz a sobrecarga social e a fadiga emocional |
| Abandonar o mito das festas perfeitas | Aceitar a desordem, os imprevistos e emoções misturadas | Diminui a pressão e permite aproveitar os verdadeiros bons momentos |
| Proteger algumas rotinas básicas | Sono, caminhadas, orçamento definido, tempo sem ecrãs | Estabiliza o humor e evita a sensação de “burnout” em janeiro |
FAQ:
- Porque é que me sinto triste quando toda a gente parece feliz nas festas? O teu cérebro está a comparar a tua realidade interior com um “best of” exterior. Dinâmicas familiares antigas, luto e exaustão também vêm ao de cima quando as rotinas quebram - por isso a tristeza é mais comum do que pensas.
- Como posso pôr limites sem começar uma guerra familiar? Usa frases curtas e calmas focadas nas tuas necessidades: “Vou ao almoço, mas vou embora antes dos jogos”, e repete sem longas justificações nem culpas.
- E se o meu parceiro quiser uma grande celebração e eu não? Faz uma troca concreta: um grande evento partilhado para ele/ela, um ritual tranquilo para ti - assim os dois estilos existem em vez de competirem pelo controlo.
- É normal gastar demais no fim do ano? Muito. Pressão social e marketing levam as pessoas a “provar” amor com dinheiro; um limite simples por escrito e experiências partilhadas mais baratas podem quebrar esse ciclo.
- Como me lembro destas mudanças no próximo dezembro? Escreve uma nota curta com o título “Para o ano, por favor lê isto” e define um lembrete no calendário para meados de novembro com o link ou um screenshot dessa nota.
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