O homem à sua frente na caixa do supermercado roda um copo de iogurte nas mãos, a semicerrar os olhos.
Verifica a tampa, a lateral, até o código de barras. Nada. A fila cresce, a pessoa da caixa espera, e quase se sente a pressão silenciosa: “Leve lá, não faz mal.”
Mais tarde, em casa, encontra a data de validade minúscula, impressa a cinzento numa dobra da borda de plástico que quase deitou fora. Já tinha esse iogurte há três dias. Tinha expirado na semana passada.
Quando repara, deixa de conseguir não ver. Carne picada com datas esfregadas na aresta vincada. Sacos de salada carimbados por baixo de um autocolante do preço. Pacotes de sumo com códigos do tamanho de uma migalha. Alguém, algures, decidiu que a data que lhe diz quando a comida deixa de ser segura devia ser a coisa mais difícil de encontrar na embalagem.
Não é por acaso.
A data invisível de que era suposto desistir
Fique cinco minutos em qualquer corredor de refrigerados e observe. As pessoas pegam, leem a frente do rótulo, talvez virem o produto uma vez, e atiram-no para o carrinho. Quase ninguém anda à procura na base ou a levantar uma dobra de plástico. Os supermercados são desenhados para o fluxo, não para investigações forenses com as pontas dos dedos.
As marcas sabem isso. Por isso, a data de validade muitas vezes vai parar a sítios onde nunca procuraria naturalmente: em relevo com tinta transparente no vidro, escondida sob uma dobra selada, pressionada ao longo de uma curva onde a luz bate mal. A informação está lá, legalmente. Mas, na prática, é como tentar ouvir um sussurro numa discoteca.
Com pressa e debaixo dessas luzes brancas intensas, a maioria de nós acaba por ceder e confiar no sistema. Aquele instante de “Ah, não consigo ver, deixa lá” é exatamente onde muitas empresas alimentares se sentem mais à vontade.
Uma consumidora do Reino Unido com quem falei, a Hannah, só se apercebeu de como as datas estavam enterradas depois de um episódio desagradável de intoxicação alimentar. Tinha comido fiambre fatiado que “parecia bem” e esteve no frigorífico durante uns dias. Só ao limpar a embalagem reparou que a data limite de consumo estava carimbada por baixo da aba que ela rasgara e deitara fora.
Um estudo da WRAP, a instituição de caridade para a redução do desperdício, concluiu que quase metade das pessoas se sente confusa com a forma como as datas aparecem nas embalagens. Não apenas com o significado de “consumir até” ou “consumir de preferência antes de”, mas com o local onde essas palavras estão. Quando os investigadores pediram aos compradores que encontrassem a data em certos produtos, muitos demoraram mais de dez segundos. Alguns não a conseguiram encontrar de todo.
Esses dez segundos importam. Num sábado cheio, está a gerir uma lista mental de afazeres, um telemóvel quase sem bateria, uma criança a pedir snacks. Se uma marca torna fácil ver uma data longa na frente, e outra esconde uma data mais curta numa esquina rígida e enrolada, já sabe qual é mais provável acabar no seu cesto.
A lei alimentar no Reino Unido exige que a informação de validade esteja presente e seja legível, mas “legível” é elástico. As regras não dizem que tem de estar na frente, ou em letras grandes, ou numa cor de alto contraste. Por isso, algumas empresas andam mesmo em cima dessa linha. Tecnicamente cumprem, mas colocam a data exatamente onde magoa os olhos e a paciência.
A lógica económica é brutal e simples. Obrigar-lhe a trabalhar para ver uma data menos apelativa - ou empurrá-lo para uma confiança vaga - mantém o stock a rodar. Se não consegue comparar facilmente o “consumir até” do produto da frente com o de trás, vai pegar no que está mais perto. Boas notícias para os números de desperdício da loja e, normalmente, boas para as vendas do fabricante.
Para si, significa outra coisa. Leva para casa comida que se estraga mais depressa do que esperava. Deita fora mais do que queria. Ou, pior, duvida do seu próprio corpo quando algo cheira um pouco estranho, mas aquele código cinzento minúsculo “pareceu” estar bem quando o tentou ler sob a luz da cozinha.
Como encontrar realmente a data que preferiam que não visse
O truque mais rápido é pensar em “zonas” em vez de palavras. Antes de ler o que quer que seja, toque nos quatro esconderijos habituais: a borda ou vinco, a parte de baixo, a costura selada, a tampa ou a cápsula. Muitas vezes, os dedos apanham a tinta ligeiramente em relevo antes dos olhos. Quando sabe onde esperar essa rugosidade, o tempo de procura cai para metade.
Em frascos e garrafas, incline-os de modo a que a luz raspe o vidro, em vez de incidir de frente. As datas são frequentemente impressas com tinta de baixo contraste que só aparece quando o reflexo as apanha. Em plásticos flexíveis, como queijo ou sacos de salada, procure ao longo das bordas seladas a quente. Se houver um autocolante grande do preço na frente, é provável que a data esteja escondida por baixo dele ou encostada ao lado oposto, o menos visível.
As embalagens tipo cartão têm os seus próprios truques. Em sumos, bebidas vegetais e caldos, verifique primeiro o “telhado” da embalagem, junto ao bico de abertura, e depois a borda inferior. Algumas marcas colocam um código em cada um, mas só um indica o verdadeiro “consumir até”. O outro é um código de fabrico ou de lote. Em caso de dúvida, procure aquele que tem uma data e palavras como “consumir até” ou “consumir de preferência antes de” por perto, mesmo que essas palavras sejam microscópicas.
Muita gente sente-se um pouco ridícula a rodar uma embalagem como se fosse um Cubo de Rubik no meio do Tesco. Há aquela pressão social para ser rápido, para não bloquear o corredor, para parecer que sabe o que está a fazer. Num dia mau, essa sensação vence e desiste da procura. Todos já o fizemos.
Há uma forma suave de contornar isso. Escolha uma ou duas categorias em que as datas mais importam para a segurança - carne crua, peixe, lacticínios - e comprometa-se a fazer a “caça à data” completa sempre, sem negociação. Tudo o resto, como bolachas ou tomate enlatado, pode ser uma verificação extra se tiver energia. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Em casa, arrume a comida de modo a não ter de voltar a brincar aos detetives mais tarde. Tenha uma caneta por perto e reescreva a data na frente da embalagem ou num saco de congelação quando a abrir. Demora dez segundos e poupa-lhe aquele olhar fixo para o frigorífico à noite, a perguntar-se se aquele pacote aberto de natas ainda está na zona segura ou se é uma aposta para o estômago de amanhã.
“Quando comecei a reescrever as datas com um marcador preto grande na frente de tudo, percebi o quanto andava, em silêncio, a adivinhar. Parei de adivinhar e também parei com os testes ansiosos ao cheiro”, explica James, um chef de 42 anos de Manchester.
Nem toda a gente quer entrar em modo folha de cálculo para a despensa - e isso é justo. Ainda assim, dois ou três hábitos pequenos podem virar o jogo a seu favor.
- Compare sempre pelo menos duas embalagens da mesma fila - a da frente e a de trás - para ver como as datas variam.
- Dê prioridade a datas claras e visíveis na frente em vez de produtos ligeiramente mais baratos com códigos escondidos.
- Ensine às crianças ou adolescentes uma regra simples: “encontra a data antes de pôr no carrinho”.
- Tire uma foto da data no telemóvel para produtos frescos que costuma esquecer no frigorífico.
- Se não conseguir encontrar a data, deixe o produto. A falta de clareza já é um sinal de alerta.
Porque é que esta letra minúscula diz tanto sobre a forma como comemos
Aqueles poucos milímetros de tinta são mais do que uma regra aborrecida. Mostram de que lado o sistema tende a ficar nos momentos silenciosos. Quando uma marca escolhe uma data forte e clara no rótulo frontal, está a fazer uma pequena promessa do dia a dia: a sua capacidade de decidir importa. Quando esconde a mesma data no verso de uma dobra, faz um tipo diferente de promessa - a si própria.
O desperdício alimentar no Reino Unido é enorme, e uma parte vem dessas datas escondidas ou confusas. As pessoas compram sem saber produtos com prazos “curtos” e depois deitam fora comida perfeitamente boa cedo demais por precaução, ou tarde demais por confusão. Essa dança custa-lhe dinheiro, enche caixotes do lixo e deixa toda a gente vagamente culpada sem ter bem a certeza porquê. A um nível mais pessoal, corrói a confiança no seu próprio julgamento.
Há também uma questão de classe silenciosa aqui. Quem pode pagar talvez compre a mais e encolha os ombros quando algo se estraga cedo. Quem conta cada libra não pode. Para essas pessoas, uma data escondida não é um pequeno incómodo - é um golpe direto no orçamento. A informação menos visível é muitas vezes a que mais prejudica quem tem menos margem para errar.
Quando começa a reparar onde estas datas são colocadas, a sua relação com as compras muda um pouco. Começa a notar marcas que parecem orgulhosas de serem lidas com clareza e outras que parecem estranhamente tímidas em relação à única informação que realmente diz a verdade sobre a frescura. Pode continuar a comprar ambas. A vida é confusa e os hábitos pegam. Mas a escolha passa a ser consciente, não cega.
E aí está o poder discreto disto. Sem cruzada, sem sermão no corredor. Só você, naquele brilho frio entre os frangos refrigerados e o queijo ralado, a gastar mais três segundos a rodar uma embalagem e a encontrar a coisa que algumas empresas esperavam que deixasse de procurar. Um pequeno ato quotidiano de não ser a parte passiva do cálculo de outra pessoa.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Zonas típicas de “esconderijo” | Bordas seladas, parte de baixo da embalagem, “telhado” do cartão, vidro com tinta transparente | Poupar tempo na loja e evitar comprar produtos com prazos demasiado curtos |
| Truque de procura | Usar os dedos para sentir a tinta, inclinar as embalagens para a luz, comparar duas unidades | Tornar a verificação das datas rápida e natural, mesmo com a loja cheia |
| Organização em casa | Reescrever datas com marcador, tirar fotos, colocar produtos “curtos” mais à frente | Reduzir desperdício, proteger a saúde e aliviar a carga mental do frigorífico |
FAQ:
- Onde é que as empresas alimentares mais frequentemente escondem as datas de validade? Nas bordas vincadas, por baixo de abas dobradas, na parte inferior de tabuleiros, junto a tampas/cápsulas, ou impressas com tinta de baixo contraste em vidro ou plástico curvos.
- É legal as marcas tornarem as datas de validade tão difíceis de ver? A lei no Reino Unido diz que as datas têm de estar presentes e ser legíveis, mas não define de forma rigorosa tamanho de letra, contraste ou localização exata, por isso muitas empresas esticam esse limite.
- Qual é a forma mais rápida de identificar uma data na loja? Passe os dedos ao longo de bordas e costuras, incline a embalagem para apanhar a luz e compare sempre pelo menos dois itens da mesma prateleira.
- Qual é a diferença entre “consumir até” e “consumir de preferência antes de”? “Consumir até” está ligado à segurança e deve ser respeitado; “consumir de preferência antes de” refere-se à qualidade, ou seja, o alimento pode ainda estar bom, apenas não no seu melhor.
- Como posso desperdiçar menos comida sem obsessão com datas? Foque-se em datas claras para alimentos de maior risco (carne, peixe, lacticínios), reescreva ou fotografe as datas em casa e combine os rótulos com os sentidos: observe, cheire e depois decida.
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