A rapariga na cadeira do salão continuava a fitar a janela.
Lá fora, o céu estava baço e seco, sem sinal de chuva, mal um indício de humidade no ar. Cá dentro, o cabelo dela estava a aumentar de volume a cada minuto. Sempre que o/a cabeleireiro/a tocava numa madeixa, ela armava um pouco mais, como algodão-doce a perder a forma.
- Deve ser a humidade - suspirou ela, puxando por um fio que parecia ter vida própria. O/a cabeleireiro/a olhou para o termóstato e depois para a forma como a água escorria do cabelo dela. Inclinou a cabeça, quase divertido/a. - Ficaria surpreendida - disse em voz baixa - com onde o frizz realmente começa.
Ela desvalorizou com uma gargalhada. Mas quando ele/a a acompanhou até ao lavatório e mudou apenas uma coisa muito pequena na forma como enxaguou o amaciador, tudo mudou. O cabelo caiu de outra maneira - mais pesado, mais calmo - como se alguém tivesse baixado o volume.
O ar não tinha mudado nada.
E se o verdadeiro culpado do frizz for a sua água da torneira, e não o tempo?
A maioria de nós culpa o céu quando o cabelo “explode”. Praguejamos contra a previsão, apontamos o dedo ao “80% de humidade” e metemos mais um frasco de sérum anti-frizz no armário da casa de banho. Mas o verdadeiro drama, muitas vezes, acontece nos dois minutos em que fica debaixo do jato do chuveiro, meio a dormir, a despachar a rotina de lavagem.
Esse enxaguamento rápido e distraído pode deixar o cabelo ou com sede ou sobrecarregado. Ambos levam ao mesmo sítio: frizz que parece surgir do nada. A forma como a água percorre os comprimentos, quanto tempo deixa os produtos atuar e quão bem os remove muda o comportamento de cada fio nas 24 horas seguintes.
No momento, não parece grande coisa. Apenas um pequeno hábito, repetido centenas de vezes por ano. Mas é precisamente aí que o frizz cria raízes em silêncio.
Pense na última vez que saiu de casa com um cabelo quase perfeito. À hora de almoço, as pontas já estavam arrepiadas, a raiz levantada e as ondas bem definidas tinham virado uma auréola sem forma.
Provavelmente foi ver a app do tempo. Talvez tenha culpado o ar condicionado do escritório ou o cachecol que usou no metro. No entanto, se recuasse o dia até ao duche da manhã, podia notar outra coisa: amaciador que mal tocou nos meios-comprimentos, um creme de styling que se acumulou nas pontas, ou espuma de champô enxaguada à pressa em cinco segundos.
Os/as cabeleireiros/as veem este padrão constantemente. Os clientes juram que “fazem tudo bem” contra a humidade, armados com óleos, séruns e sprays. Depois sentam-se na lavagem e o/a profissional passa água pelo cabelo - só para encontrar zonas ainda escorregadias de produto ou, pelo contrário, estranhamente ásperas. Esse primeiro toque costuma contar a história verdadeira.
Visto ao microscópio, o frizz deixa de parecer mágico ou misterioso. Cada cabelo é coberto por uma cutícula, uma camada de pequenas escamas sobrepostas. Quando essas escamas assentam planas, o cabelo parece liso e brilhante. Quando estão levantadas, lascadas ou inchadas por uma humidade desequilibrada, o cabelo fica indomável. É a água que abre e fecha essas pequenas portas.
Se enxaguar com demasiada agressividade, remove a película protetora que os seus produtos pretendiam deixar. Se enxaguar pouco, ficam resíduos à superfície, a pesar algumas zonas enquanto outras permanecem secas. A cutícula reage a esse desequilíbrio: levanta-se, fissura, agarra a água do ar e torce o fio fora do seu caminho original.
A humidade não cria essa vulnerabilidade. Apenas entra pela porta que deixou aberta no lavatório.
Os rituais de enxaguamento que decidem em segredo se o seu cabelo vai ficar com frizz
O gesto anti-frizz mais subestimado começa antes mesmo de pegar na toalha: enxaguar o amaciador de forma mais lenta e deliberada. Não é água mais quente. Nem uma máscara mais cara. É simplesmente a forma como deixa a água deslizar pelo cabelo, do couro cabeludo às pontas.
Experimente uma vez: aplique o amaciador, desembarace suavemente com os dedos e deixe atuar enquanto lava o corpo ou o rosto. Quando for enxaguar, incline a cabeça para trás e deixe a água correr numa única direção, usando os dedos como um pente. Não arranhe. Não esfregue. Apenas guie a água até o cabelo se sentir limpo, mas ainda com um ligeiro toque sedoso.
Pare antes de o cabelo chiar entre os dedos. Esse chiar é muitas vezes o som de uma cutícula deixada nua.
Todos já ficámos no duche numa manhã de semana, a correr como se fosse uma corrida contra o relógio. É nesse momento que muita gente ou quase não enxagua os produtos, ou compensa em excesso e lava tudo por completo.
Um erro comum é esfregar os comprimentos com as unhas durante o enxaguamento. Parece que está a fazer uma “limpeza a fundo”, mas está a levantar a cutícula e a tornar a superfície mais áspera. Outro é focar-se apenas no topo da cabeça. O couro cabeludo fica impecável, as raízes a chiar, enquanto os meios-comprimentos e pontas ficam com uma mistura aleatória de produto antigo e minerais da água.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, essa rotina perfeita que se vê no TikTok, com tempos cronometrados e toalhas de microfibra impecáveis. A vida real é desorganizada. O objetivo não é a perfeição - é apenas um ou dois gestos mais calmos onde realmente importa.
Um/uma colorista resumiu isto num sábado movimentado no salão, a ver cliente após cliente a culpar o tempo.
“Nove vezes em dez, o frizz senta-se na minha cadeira muito antes da humidade. Nasce no enxaguamento, é criado pela toalha e só é ‘finalizado’ pela previsão do tempo.”
Essa frase fica consigo quando vê como o cabelo se comporta quando o enxaguamento é feito com um pouco mais de cuidado. É como baixar a interferência de um rádio antigo.
- Enxague numa só direção, com os dedos a “pentear” suavemente, sem esfregar.
- Deixe um ligeiro “deslizamento” do amaciador, em vez de enxaguar até chiar.
- Termine com água mais fresca para ajudar a cutícula a assentar mais plana.
- Esprema a água lentamente; não torça nem retorça os comprimentos.
- Aplique leave-in no cabelo bem húmido, não a pingar, para “selar” a calma.
Uma forma diferente de pensar sobre o frizz… e sobre o seu próximo duche
Quando vê o frizz como o eco do último enxaguamento, a história muda por completo. A humidade deixa de ser a vilã e passa a ser apenas um fator entre muitos - como a dureza da água ou a forma como seca com a toalha. Começa a prestar atenção à sensação do cabelo entre os dedos em vez de apenas à forma no espelho.
Esta mudança pode ser estranhamente libertadora. Não tem de esperar pelo dia de tempo perfeito para ter um bom dia de cabelo. Ganha pequenas alavancas concretas que pode acionar mesmo numa casa de banho apertada, com um chuveiro básico e produtos acessíveis. O ritual deixa de ser lutar contra o cabelo e passa a ser ouvir como ele reage à água.
Numa noite tranquila, pode até reparar noutra coisa: como o seu humor muda quando o cabelo não arma assim que sai de casa. Aquela confiança subtil quando os caracóis mantêm o padrão, as ondas não se separam, e o cabelo liso não ganha uma auréola aleatória às 16h. No fundo, é disto que se trata. Não de cabelo “perfeito”. Apenas de um cabelo que não discute consigo o dia todo.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| O enxaguamento influencia a cutícula | Um enxaguamento demasiado agressivo ou demasiado leve abre ou fragiliza as escamas do cabelo | Perceber porque o mesmo produto pode alisar ou fazer o cabelo inchar |
| Um ligeiro filme é útil | Deixar um pouco de “deslizamento” do amaciador protege os comprimentos | Reduzir o frizz sem multiplicar produtos de styling |
| Os gestos contam mais do que a meteorologia | Direção do jato, temperatura e pressão dos dedos têm tanto peso quanto a humidade | Recuperar controlo sobre os dias de “bad hair” sem mudar todo o arsenal |
FAQ:
- Enxaguar com água fria reduz mesmo o frizz?
Água fresca ou morna ajuda a cutícula a assentar mais plana do que água muito quente, que pode inchar e tornar o cabelo mais áspero. Não precisa de choques gelados; basta terminar o enxaguamento com a água alguns graus mais fria do que o habitual.- Quanto tempo devo enxaguar o amaciador para evitar frizz?
Normalmente, 30 a 60 segundos de enxaguamento suave e direcionado chegam para a maioria dos tipos de cabelo. Procure um cabelo que se sinta macio e “escorregadio”, não a chiar nem pegajoso em zonas aleatórias.- Deixar um pouco de amaciador no cabelo pode deixá-lo oleoso?
Pode na raiz, menos nos comprimentos. Concentre esse “resto de deslizamento” do meio para as pontas e enxague melhor a zona do couro cabeludo para evitar que o topo fique achatado.- O frizz é sempre sinal de dano?
Nem sempre. O frizz pode vir de dano, mas também pode ser sinal de humidade desigual, acumulação de produto ou manuseamento agressivo ao enxaguar e secar.- Preciso de produtos anti-frizz especiais, ou basta corrigir a rotina de enxaguamento?
Pode notar uma grande diferença só ao mudar os hábitos de enxaguamento e a técnica com a toalha. Os produtos específicos ajudam, mas funcionam muito melhor em cabelo tratado com suavidade no lavatório.
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