Ele acena com as mãos por cima dos diapositivos que mal leu, despacha as perguntas com uma risada e termina com um arrogante: “Não é assim tão complicado.” À volta da mesa, pessoas que realmente dominam o tema trocam olhares discretos. Vêem todas as falhas no argumento dele. Sabem como a realidade é confusa, quantas coisas podem correr mal.
Mesmo assim, ele sai convencido de que foi brilhante. Alguns dos especialistas mais reservados saem a pensar se não foram eles que deixaram escapar algo.
Este estranho desfasamento entre confiança e competência tem um nome que soa quase a piada, mas, quando o vemos, já não dá para o deixar de ver.
O conforto perigoso de não saber o que não se sabe
Os psicólogos David Dunning e Justin Kruger não descobriram apenas uma curiosidade de laboratório. Puseram palavras numa cena que vemos em todo o lado: os menos competentes são muitas vezes os que se sentem mais seguros de si. O efeito Dunning–Kruger descreve como pessoas com pouca habilidade numa área tendem a sobrestimar muito as suas capacidades, precisamente porque lhes falta o conhecimento necessário para reconhecer os próprios erros.
Isto não é sobre “pessoas estúpidas”. É sobre pontos cegos. Quando sabemos apenas o suficiente para ser perigoso, tudo parece simples. A complexidade desaparece. A nuance desvanece-se. Sentimo-nos estranhamente relaxados… e muito certos.
Entretanto, as pessoas que compreendem o assunto vêem riscos, exceções, incógnitas. A confiança diminui à medida que o conhecimento cresce.
Num campus universitário, investigadores pediram a estudantes que avaliassem as suas competências em humor, gramática e lógica. Os que ficaram no quartil inferior (os 25% piores resultados) tendiam a achar que estavam acima da média. Alguns colocaram-se no terço superior, apesar de os testes mostrarem o contrário. Os piores desempenhos não estavam a mentir; acreditavam mesmo que eram bastante bons.
O mesmo padrão aparece na vida real. Inquéritos mostram que a maioria dos condutores se considera “melhor do que a média”. Empreendedores sem experiência no setor lançam startups com uma certeza impressionante. As redes sociais estão cheias de “especialistas” caseiros em nutrição, política, finanças e saúde mental, que descobriram um tema na semana passada e agora falam como se tivessem passado vinte anos na área.
Não sobrestimamos apenas as nossas capacidades. Subestimamos também a dificuldade da tarefa. Um guitarrista iniciante acredita que vai “aprender uns acordes e fica feito”. Um novo gestor pensa que “é sobretudo bom senso”. Os primeiros passos são suficientemente fáceis para dar uma falsa sensação de mestria. Esse impulso inicial sabe bem, e o ego adora uma boa narrativa.
Os investigadores chamam-lhe um “duplo fardo”. A falta de competência leva a erros, e a mesma falta de competência impede as pessoas de verem esses erros. Não têm as ferramentas mentais para avaliar o próprio desempenho. É como tentar rever um texto numa língua que mal se fala. Consegue-se detetar os erros óbvios, mas os problemas gramaticais mais profundos passam despercebidos.
Entretanto, os verdadeiros especialistas tendem a escorregar para o lado oposto. Quanto mais aprendem, mais se apercebem de quanto há por saber. Caem no que alguns chamam “síndrome do impostor”: sentir que não se merece o lugar, ou que não se é suficientemente bom, mesmo com provas sólidas de competência. Esta mistura cria um mundo ruidoso em que as vozes mais altas não são necessariamente as mais fiáveis, e a hesitação silenciosa é muitas vezes interpretada como fraqueza.
Como se proteger da falsa certeza - incluindo a sua
Há um hábito simples que corta a névoa do Dunning–Kruger: perguntar “O que é que provaria que estou errado?” antes de agir com demasiada certeza. Quando se sentir muito seguro, pare dez segundos e liste um ou dois cenários em que a sua ideia falha. Não cem. Só um ou dois.
Esta pequena pergunta obriga o cérebro a sair da própria história. Empurra-nos a procurar informação em falta, e não apenas confirmação. Pode ser tão prático como testar o seu plano com uma pessoa que discorda de si, ou experimentar a sua visão numa escala pequena antes de apostar alto.
Se a sua confiança sobreviver a esse tipo de atrito, normalmente torna-se mais saudável e mais sólida.
No dia a dia, a armadilha aparece em coisas pequenas. Passa por uma manchete e sente imediatamente que “percebeu” a história toda. Dá conselhos sobre a relação de um amigo depois de ouvir apenas um lado. Explica o trabalho de outra pessoa com um encolher de ombros: “Quão difícil pode ser?” Em maior escala, aparece quando promovemos o colega mais carismático e falador, em vez daquele que, em silêncio, está a fazer o trabalho difícil.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Raramente paramos para verificar se a nossa confiança corresponde ao nosso nível real de competência. Assumimos que sentir certeza é o mesmo que estar certo. É assim que amadores excessivamente confiantes acabam a liderar projetos, equipas - até países - para confusões que nunca viram a chegar.
Há também um custo social. Pessoas que conhecem os seus limites podem começar a duvidar de si mesmas quando estão rodeadas de certezas ruidosas. Jovens profissionais, mulheres ou minorias em áreas dominadas por homens contam muitas vezes a mesma história: sabiam a resposta, mas alguém mais confiante falou primeiro, e todos o seguiram. Com o tempo, esse fosso entre a dúvida interior e o ruído exterior pode desgastar as pessoas.
“O problema do mundo é que os estúpidos estão cheios de certezas e os inteligentes estão cheios de dúvidas.” – frequentemente atribuído a Bertrand Russell
Em vez de glorificarmos a certeza, podemos aprender a valorizar uma confiança calibrada. Isso significa falar quando sabemos do que estamos a falar e acrescentar um honesto “ainda não tenho a certeza” quando não sabemos. Significa perguntar aos outros: “Quanta confiança tens nisso?” e ouvir com atenção a resposta.
- Repare quando alguém está 100% certo sobre um tema complexo.
- Pergunte em que evidência se está a apoiar, não apenas como se sente.
- Preste atenção a pessoas que mudam de opinião em público.
- Dê mais peso ao histórico de resultados do que ao carisma.
Viver com a dúvida num mundo que adora respostas confiantes
Vivemos numa cultura que recompensa posições fortes, reações rápidas e frases de impacto. Os feeds das redes sociais empurram as opiniões mais assertivas para o topo. Os debates políticos castigam a nuance. No trabalho, “ainda não sei” pode continuar a soar a fraqueza. Não admira que o efeito Dunning–Kruger prospere: está perfeitamente adaptado a um ambiente que confunde volume com valor.
Isso deixa a cada um de nós uma decisão silenciosa. Queremos ser a pessoa que parece ter razão, ou a pessoa que está disposta a vir a ter razão com o tempo? A primeira depende de bravata. A segunda apoia-se na curiosidade, no feedback e no desconforto ocasional de perceber que estávamos errados. Uma opção é mais suave no momento. A outra constrói uma vida menos frágil.
Num plano muito humano, isto tem a ver com a forma como nos tratamos. Quando alguém está alegremente errado, podemos gozar com essa pessoa, ou lembrar-nos de que todos temos pontos cegos. Quando uma voz hesitante na sala diz “não tenho a certeza, mas…”, podemos passar por cima, ou pedir que continue a falar. Num horizonte temporal suficientemente longo, estas escolhas moldam quem é ouvido, quem cresce e quem desiste em silêncio.
O efeito Dunning–Kruger explica por que motivo pessoas incompetentes são muitas vezes as mais confiantes nas suas capacidades limitadas, mas também nos coloca um espelho desconfortável: em que áreas da nossa vida somos nós os amadores excessivamente confiantes? Essa pergunta não é confortável. É estranhamente libertadora. Significa que podemos passar de “eu domino isto” para “estou a aprender isto”, e ver essa mudança como força, não como falhanço.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Excesso de confiança dos iniciantes | Os menos competentes sobrestimam as suas capacidades e subestimam a dificuldade das tarefas. | Ajuda a reconhecer falsos especialistas e a desconfiar de certezas rápidas. |
| Dúvida dos especialistas | Pessoas competentes percebem melhor a complexidade e sentem-se menos seguras de si. | Tranquiliza quem se sente impostor apesar de ter experiência real. |
| Higiene mental simples | Perguntar “O que é que me provaria que estou errado?” antes de ter demasiada certeza. | Ferramenta concreta para ajustar a confiança e tomar melhores decisões. |
FAQ:
- O que é exatamente o efeito Dunning–Kruger? É um viés cognitivo em que pessoas com pouca competência numa área específica sobrestimam a própria capacidade, em parte porque lhes falta o conhecimento necessário para reconhecer os seus próprios erros.
- O efeito Dunning–Kruger tem a ver com ser estúpido? Não. Pode afetar qualquer pessoa. Trata-se de uma autoavaliação desalinhada, não de inteligência global. Mesmo pessoas muito inteligentes podem ser excessivamente confiantes em áreas que não compreendem.
- Como posso perceber se estou a cair na armadilha do Dunning–Kruger? Repare quando sente total certeza sobre algo que só descobriu recentemente, ou quando desvaloriza especialistas dizendo que estão “a complicar demais”. É um sinal de alerta.
- Isto significa que nunca devo ter confiança? De modo nenhum. Significa procurar uma confiança calibrada: ter clareza sobre o que sabe, o que não sabe e quão sólida é, de facto, a sua evidência.
- Qual é uma forma prática de reduzir este viés no dia a dia? Procure regularmente feedback de pessoas que discordam de si ou sabem mais e trate esse atrito como dados, não como um ataque.
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