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Nove hábitos intemporais de pessoas nos 60 e 70 anos que as tornam mais felizes do que os jovens ligados à tecnologia.

Casal idoso a caminhar numa rua arborizada, com flores e um caderno em mãos, conversando serenamente.

Three teenagers sat hunched over their phones, scrolling in silence, blue light splashing over their faces. At the corner table, a woman in her early seventies stirred her coffee slowly, watching the street like it was a movie she’d already seen and still loved. No headphones. No screen. Just the steam, the traffic, the blur of people going to places that felt urgent only to them.

A cada poucos minutos, cumprimentava alguém que conhecia pelo nome. Um carteiro reformado. Uma jovem enfermeira. O rapaz da padaria que lhe trazia um croissant extra “por engano”. Ria com o corpo inteiro, não apenas com emojis. Quando se foi embora, caminhou sem pressa, o casaco ligeiramente aberto ao ar de janeiro, como se o tempo fosse um cão amigável a segui-la, e não um lobo a persegui-la.

E foi aí que me atingiu a pergunta silenciosa: o que é que pessoas como ela sabem que o resto de nós se esqueceu?

Nove hábitos silenciosos que vencem o scroll infinito

Pessoas nos seus 60 e 70 anos já viram tecnologias subir e descer como canções pop. Máquinas de fax, cassetes VHS, disquetes, MySpace, TikTok - apanharam a onda sem deixar que ela lhes engolisse os dias. Muitas mantêm um pequeno conjunto de hábitos que, vistos de fora, parecem quase aborrecidos: almoços sentados, telefonemas, passeios sem apps de tracking, calendários de papel colados no frigorífico.

Esses hábitos não se tornam virais. Não vibram nem apitam. E, no entanto, quando nos sentamos com eles tempo suficiente, algo muda. As conversas duram um pouco mais. As refeições sabem mais intensamente. Os dias voltam a ter contornos. A juventude movida a tecnologia costuma perseguir estímulos; os mais velhos que conheci protegem uma moeda diferente: a atenção.

Essa atenção não significa rejeitar a tecnologia. Muitos fazem scroll, enviam mensagens e fazem videochamadas com os netos. O que recusam é a rendição total. Enterraram pais, perderam empregos, viram amigos partir e parceiros mudar. Por isso, os seus rituais diários são moldados por um saber discreto: o tempo é a única coisa que nunca recuperamos. Estes nove hábitos têm menos a ver com nostalgia e mais com sobrevivência - com um sorriso.

Hábito 1: Caminhar o mesmo percurso - de propósito

Pergunte a pessoas nos seus 60 e 70 anos sobre movimento e raramente ouvirá falar em “rebentar com o treino”. Ouve-se falar de caminhar. Não como uma fase, mas como uma espinha dorsal. O mesmo parque. As mesmas ruas. Às vezes, o mesmo banco. Parece repetitivo, quase monótono - até reparar no quão rico se torna o olhar delas.

Não estão a contar passos. Estão a contar pequenas mudanças. As rosas do vizinho a voltarem. O novo gato na travessa. A padaria que mudou o letreiro. Caminhar o mesmo percurso torna-se uma espécie de âncora em movimento, um encontro diário com a própria vida. O corpo mexe-se, a mente descontrai, e os problemas encolhem até ao tamanho do passeio debaixo dos pés.

Um homem no final dos sessenta contou-me que faz o mesmo circuito à beira-rio na sua terra há 35 anos. Começou quando o médico o avisou da tensão arterial. Ao início, odiou. Demasiado lento, demasiado silencioso. Depois os filhos cresceram, e o circuito passou a ser o lugar onde processava a ausência deles. Lembra-se do ano em que a vila plantou árvores novas, do inverno em que a mulher adoeceu, dos meses de confinamento em que aquele caminho foi a sua única liberdade. Não há registo numa app, nem backup na cloud. As memórias estão guardadas nas pernas.

Porque é que isto os faz mais felizes do que o doom-scroller médio? As caminhadas rotineiras criam um ritmo que amacia a ansiedade. O cérebro deixa de perseguir novidade a cada cinco segundos e começa a reparar em profundidade. Quando repetimos o mesmo percurso, aprendemos a ler o mundo em camadas: sons, cheiros, rostos, estações. Essa sobreposição lenta de significado acalma o sistema nervoso de uma forma que nenhum vídeo curto consegue.

Hábito 2: Telefonar em vez de enviar mensagens

Os mais velhos ainda pegam no telefone como se fosse uma ponte, não um incómodo. Ligam à irmã, ao amigo da escola, ao vizinho que acabou de perder a mulher. As vozes falham, partilham, discutem, riem. Dez minutos, às vezes quarenta. É confuso. As pessoas interrompem-se. Há silêncio. Ninguém edita as frases.

Numa quarta-feira chuvosa, vi uma avó de 74 anos sentada à mesa da cozinha com um pequeno caderno de números escritos à mão. Liga a três pessoas por dia, quase todos os dias. Não para “fazer networking”, nem para cumprir uma tarefa numa app de produtividade. Apenas: “Como estás, a sério?” Naquela cozinha apertada, rodeada de ímanes e postais antigos, o ar parecia mais carregado de significado do que em qualquer grupo de chat onde já estive.

Estas chamadas fazem algo que as mensagens instantâneas raramente conseguem: regulam a solidão em tempo real. O seu sistema nervoso ouve a outra pessoa a respirar, a tropeçar, a hesitar. Não dá para fazer skim de uma voz. Tem de ficar com ela. Essa lentidão constrói músculo emocional. E é contagiosa. Depois de falar com alguém que fala assim, os seus próprios pensamentos abrandam. Cresce a sensação de pertencer a uma pequena rede viva. Menos polida, mais real.

Hábito 3: Usar papel para o que importa

Entre em muitas casas de pessoas nos seus 60 e 70 anos e vai encontrar quase sempre os mesmos objetos: um calendário de parede, um bloco perto do telefone, receitas em cartões amarrotados. Vivem num mundo digital, mas mantêm um esqueleto de papel para aquilo que se recusam a perder: compromissos, aniversários, palavras-passe escritas num código extravagante que só elas entendem.

Uma enfermeira reformada que conheci mantém um “livro da vida” em cima da mesa de jantar. Nele, escreve todas as noites três coisas: quem viu, o que comeu e uma frase sobre como se sentiu. Nada poético. “Cansada. Boa lasanha.” “Vi a Maria no mercado. Sinto falta do João.” O livro é grosso de anos. Páginas manchadas de café, cantos dobrados, a lombada a aguentar-se por um fio.

Escrever à mão abranda os pensamentos até à velocidade da tinta. Esse atrito é mais do que nostalgia. Obriga a um pequeno ato de escolha: o que vale a pena escrever? Não dá para registar cada micro-humor como num ecrã. Então a mente filtra. E esse filtro traz clareza. Para muitos adultos mais velhos, o papel não é anti-tecnologia; é um filtro. Ajuda-os a lembrar do que, de facto, os dias foram feitos - em vez do fluxo interminável de conteúdo empurrado para cima deles.

Hábito 4: Manter rituais à volta da comida

Pergunte a quase qualquer avô ou avó sobre comida e raramente ouvirá “peguei em qualquer coisa em frente ao portátil”. Normalmente há uma cadeira, uma mesa, um prato. Muitas vezes alguém do outro lado. Mesmo quando comem sozinhos, muitos ainda se sentam como deve ser: televisão desligada, telemóvel virado para baixo, a ouvir a sopa ou a salada no pequeno teatro da cozinha.

Num domingo, numa vila pequena, vi três gerações a encherem um apartamento modesto para almoçar. A massa era simples: tomate, alho, manjericão de um vaso na varanda. A anfitriã de 72 anos movia-se devagar, mas com firmeza. A mesma toalha. Os mesmos pratos desde os vinte e poucos. Quando todos pegaram nos telemóveis para fotografar a comida, ela afastou-os com um meio sorriso: “Comam primeiro. Depois podem provar à internet que estiveram aqui.”

Estes pequenos rituais fazem mais do que encher o estômago. Criam ilhas previsíveis de ligação numa vida onde tanta coisa é rápida, incerta e mediada por ecrãs. O cérebro aprende: este é um momento seguro. Aqui, eu pertenço. Esse sinal repetido reduz hormonas do stress, melhora a digestão e, com o tempo, constrói uma confiança tranquila no mundo. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas as pessoas mais velhas que insistem em refeições a sério, mesmo que só algumas vezes por semana, protegem um tipo de alegria que a juventude ultra-conectada muitas vezes terceiriza para apps de entregas.

Hábito 5: Dizer não à disponibilidade constante

Muitas pessoas nos seus 60 e 70 anos cresceram num mundo em que simplesmente não se estava contactável o tempo todo. Se estava fora, estava fora. Essa memória molda a forma como usam os dispositivos hoje. Desligam o telefone à noite. Esquecem-no em casa de propósito. Não se sentem culpadas por responder um dia depois se estiveram no jardim ou a ler.

Conheci um antigo engenheiro de 69 anos que deixa o smartphone numa gaveta das 20h até depois do pequeno-almoço. Não por princípio. Apenas porque gosta das noites “silenciosas dentro da cabeça”, como ele diz. Os filhos acham excêntrico. Os amigos sabem que não se liga para ele por dramas urgentes; liga-se para conversa a sério.

Este hábito talvez seja uma das maiores diferenças entre a juventude movida a tecnologia e os adultos mais velhos. Muitos mais novos carregam uma tensão constante, de baixo nível: a sensação de que, a qualquer momento, alguém pode precisar deles, julgá-los, marcá-los. Os mais velhos, que se lembram de uma infância sem telemóvel, vivem num estado padrão diferente. O sistema nervoso deles não está em alerta permanente. Esse botão de “off” torna os momentos “on” mais suaves, mais quentes, mais enraizados.

Hábito 6: Cuidar de algo que cresce devagar

Jardins. Plantas de interior. Um cão rabugento. A criança do vizinho que levam à escola duas vezes por semana. Pessoas nos seus 60 e 70 anos muitas vezes prendem os dias a algo que não respeita notificações: seres vivos. Crescimento que não pode ser apressado, gostos que não podem ser contados.

Numa varanda do tamanho de um tapete pequeno, um viúvo de 76 anos mostrou-me todo o seu “reino”: quatro tomateiros, um manjericão, dois gerânios cansados. Vai lá ao nascer e ao pôr do sol. Rega, fala, tira folhas mortas. “Dão-me uma razão para me levantar e uma razão para voltar a subir as escadas”, disse, a bater no peito.

Este cuidado lento vira a mente para fora do eu, sem precisar de plateia. Sem performance, sem métricas. Só a satisfação silenciosa de ver algo prosperar porque apareceu - uma e outra vez. Essa repetição cria uma felicidade profunda, quase teimosa, que aguenta quando outras coisas - carreiras, aparência, tendências - seguem em frente.

Como roubar um pouco da felicidade deles (sem largar o telemóvel)

Não precisa de atirar o smartphone a um lago para viver assim. O que os mais velhos modelam tão bem é a intensidade seletiva. Entregam-se a fundo a poucos rituais pequenos e deixam o resto ficar imperfeito. Comece sem glamour: uma caminhada de 15 minutos, sempre o mesmo percurso. Um telefonema por semana em vez de uma mensagem apressada. Uma lista em papel no frigorífico com as três coisas que realmente importam nesse dia.

Num dia de semana cheio, o seu cérebro vai resistir. Vai querer fazer scroll ao almoço ou registar a caminhada em vez de a sentir. É normal. Todos já vivemos aquele momento em que o ecrã parece mais simples do que a vida real. Troque um hábito tecnológico minúsculo por um hábito intemporal - não troque a sua personalidade inteira por outra era. Vá devagar, como quem aprende uma língua nova, não como quem entra numa seita.

Há armadilhas. Tentar copiar as rotinas da sua avó minuto a minuto pode correr mal. A sua vida é diferente. Trabalho, filhos, cidades, dinheiro - nada encaixa na perfeição. O objetivo não é tornar-se um santo analógico. É emprestar a postura deles: tecnologia como ferramenta, não como temperatura. Seja gentil consigo nos dias em que come em frente à Netflix ou responde a mensagens à meia-noite. Repare, ajuste um pouco no dia seguinte. Só isso.

O que os mais velhos estão realmente a ensinar: o tempo como amigo, não como inimigo

Por baixo de todos estes hábitos, há uma verdade a brilhar: pessoas nos seus 60 e 70 anos fizeram as pazes, mais ou menos, com o facto de a vida ser finita. Pode soar sombrio. Estranhamente, liberta. Quando sabe, lá no fundo, que o tempo não é infinito, deixa de o entregar com tanta facilidade a máquinas desenhadas para nunca ficarem satisfeitas.

Não andam a perseguir uma vida perfeita. Estão a espremer a que têm para lhe tirar sabor. A caminhada diária. A chamada imperfeita. O café barato que ainda sabe a alguma coisa. O álbum de fotografias em vez do feed interminável. Sabem que momentos vão lembrar daqui a dez anos, porque já viveram o suficiente para ver o que realmente fica.

Ao vê-los, é impossível não pensar que tipo de pessoa velha está a ensaiar ser, todos os dias. A forma como come agora, fala agora, faz scroll agora - tudo se acumula. Os hábitos deles são como convites silenciosos: volte para a sua própria vida, uma pequena decisão de cada vez. Não para viver como se fosse 1975. Para viver como se 2025 não mandasse em si.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Repetir pequenos rituais Caminhadas, refeições, chamadas recorrentes Cria uma estrutura tranquilizadora em dias sobre-estimulados
Limitar a disponibilidade permanente Momentos sem ecrã, telemóvel desligado ou afastado Reduz a ansiedade e restaura um verdadeiro descanso mental
Voltar ao tangível Papel, jardinagem, objetos concretos Dá mais peso às memórias e às relações

FAQ:

  • Quais são os nove hábitos intemporais que as pessoas mais velhas mantêm? Coisas como caminhadas diárias, telefonemas a sério, notas em papel, rituais de refeição, horas com o telemóvel desligado, cuidar de plantas ou animais, visitar vizinhos, rever fotografias antigas e ajudar discretamente quem está à volta.
  • Tenho de deixar as redes sociais para sentir este tipo de felicidade? Não. O objetivo não é largar toda a tecnologia, é deixar de permitir que ela marque o ritmo de cada momento.
  • Como posso começar se a minha agenda já está cheia? Escolha um hábito que consiga fazer em menos de 15 minutos e repita-o à mesma hora todos os dias durante uma semana. Trate-o como um compromisso, não como um extra.
  • E se os meus amigos não quiserem telefonemas ou rituais lentos? Comece com as pessoas que estão abertas a isso. Por vezes, quando uma pessoa muda para um contacto mais profundo, outras seguem, em silêncio.
  • Isto não é apenas nostalgia por um mundo que já não existe? As ferramentas mudaram, mas as necessidades humanas por baixo delas não. Estes hábitos funcionam não por serem antigos, mas porque respeitam a forma como o nosso cérebro e o nosso coração realmente funcionam.

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