Saturday de manhã, café de uma vila, a chuva a bater de mansinho nas janelas. Numa mesa, três mulheres na casa dos sessenta e muitos riem-se enquanto partilham uma fatia de bolo, com jornais de papel abertos entre as chávenas de café. Na mesa ao lado, dois jovens de vinte e poucos anos estão em silêncio absoluto, ambos a deslizar freneticamente no ecrã, o brilho azul no rosto, polegares a mexer mais depressa do que os olhos.
Um telemóvel apita, depois outro, depois outro. As mulheres mais velhas nem levantam a cabeça. Uma delas tira da carteira uma fotografia dobrada e passa-a como se fosse um tesouro. Inclinam-se, tocam no papel, conversam.
Do meu lugar, o contraste é quase inquietante.
E dá vontade de perguntar quem é que, afinal, parece mais tranquilo aqui.
Nove hábitos de “gente velha” que não morrem - e porque é que funcionam em silêncio
Passe algum tempo com pessoas nos seus 60 e 70 anos e repara numa coisa estranha. Fazem as coisas pelo caminho mais longo, mais devagar, daquela forma que nos faz pensar: “Mas porque é que ainda faz isso assim?”
Escrevem à mão. Telefonam em vez de enviar mensagens. Mantêm calendários de papel, livros de papel, papel para tudo. Sentam-se em bancos e limitam-se a ver as pessoas passar - o que, para um viciado em smartphone, pode parecer suspeitamente parecido com não fazer nada.
E, no entanto, quando fala com elas, muitas vezes há ali uma calma assente. Não estão a correr para apanhar a última thread de truques de vida no X. Não estão a tentar “otimizar o fluxo de trabalho”. Estão só… a viver. E, para incómodo dos mais novos que juram saber melhor, muitos garantem que se sentem mais felizes agora do que aos 25.
Veja-se a escrita à mão, por exemplo. Uma professora recentemente reformada contou-me que ainda escreve todas as listas de tarefas num bloco amarelo. A neta goza com ela constantemente: “Sabes que podes usar o Notion, não sabes?” A avó encolhe os ombros e continua a rabiscar. Diz que riscar coisas com uma caneta é como “fechar pequenos circuitos no meu cérebro”.
Um homem nos seus setenta descreveu como lê o jornal em papel todas as manhãs, do princípio ao fim. Sem notificações push, sem vídeos a reproduzir automaticamente, sem isco para indignação. Se uma notícia o perturba, pousa o jornal, faz chá e volta depois. Brincou que as notícias são tão más como as que aparecem no telemóvel, “mas pelo menos o meu polegar não fica exausto antes do pequeno-almoço”.
Estes rituais parecem ultrapassados vistos de fora. De perto, são filtros cuidadosamente escolhidos contra o ruído digital constante. Não são uma fuga à realidade. São apenas uma forma mais silenciosa de a atravessar.
Os psicólogos repetem que o nosso cérebro não foi desenhado para alertas intermináveis - mas uma geração mais velha não precisou de uma TED Talk para o perceber. Cresceram com tédio, com espera, com espaços no dia que não podiam ser preenchidos a deslizar num ecrã. Tinham de aguentar viagens longas de comboio, salas de espera, tardes em que nada acontecia.
Por isso desenvolveram hábitos que aceitam a lentidão em vez de a combater. Caminhadas longas sem auscultadores. Telefonemas que duram uma hora num domingo à tarde. Sentar-se na mesma cadeira todas as noites com um livro que se pode mesmo tocar.
Os mais novos muitas vezes veem estas escolhas como resistência ao progresso. Muitos seniores veem-nas como escudos. Proteção contra uma espécie de pânico de baixa intensidade que vem de estar contactável, reagível e avaliado 24/7. E já não pedem desculpa por isso, em silêncio.
Ao que se agarram - e o que isso lhes dá, discretamente
Pergunte a pessoas nos seus 60 e 70 que hábitos se recusam a abandonar e surgem, uma e outra vez, nove temas. Continuam a telefonar em vez de mandar mensagens quando a conversa é séria. Guardam dinheiro na carteira. Imprimem fotografias e põem-nas em molduras.
Insistem em refeições a sério à mesa, não de pé junto ao lava-loiça nem curvados sobre um portátil. Mantêm-se fiéis a pequenas rotinas: caminhadas de manhã, a mesma mercearia, conversa com o mesmo caixa. Ainda enviam cartões de aniversário pelo correio, assinam o nome com tinta, relêem cartas antigas.
Estes gestos parecem pequenos. Para eles, são pontos de contacto. Âncoras sensoriais e fiáveis num mundo que muda a interface de seis em seis meses. Há conforto num ritual que nunca precisa de atualização.
Claro que é fácil romantizar isto. Há muita gente com mais de 60 colada ao telemóvel, e há muitos jovens de 20 que leem livros a sério. A tensão aparece, muitas vezes, em momentos familiares banais: um neto a filmar cada segundo de um jantar de festa “para ficar de memória”, enquanto a avó quer que ele guarde o telemóvel e simplesmente prove a comida enquanto está quente.
Uma mulher no início dos setenta contou-me uma viagem de carro que fez com a sobrinha de 19 anos. Conduziram pela costa com o rádio ligado e as janelas abertas. Sempre que passavam por um miradouro, a sobrinha pedia para parar. Não para olhar, mas para montar a fotografia perfeita para o Instagram. A tia acabou por encostar e dizer: “Ok, uma foto. Depois, só vemos.” A sobrinha resistiu e, mais tarde, admitiu em voz baixa que tinha sido a melhor parte da viagem.
Todos já lá estivemos: aquele momento em que a vontade de documentar esmaga o prazer de simplesmente estar. As pessoas mais velhas também sentem essa pressão. Só que estão mais dispostas a dizer que não.
Há ainda outra camada: controlo. A cultura tecnológica vende liberdade e velocidade, mas muita gente sente-se mais vigiada do que nunca. Confirmações de leitura, “visto pela última vez”, bolinhas a indicar que alguém está a escrever, estados de entrega. Para uma geração que se lembra de ser verdadeiramente inacessível durante horas - até dias - isto soa profundamente intrusivo.
Então respondem com movimentos analógicos. Mantêm um caderno de endereços em vez de confiar numa cloud. Usam uma agenda em papel para que ninguém possa “partilhar o calendário” sem consentimento. Encontram amigos cara a cara em vez de acumularem novos seguidores.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Também usam WhatsApp, também pesquisam receitas no Google, também se perdem em buracos de YouTube. Mas, no essencial, estes hábitos são uma recusa tranquila. Uma decisão de permanecer parcialmente offline, mesmo quando o mundo insiste em arrastá-los.
Como aproveitar o que é bom sem rejeitar o novo
Não tem de viver como se fosse 1974 para roubar um pouco desta paz. Um hábito simples em que muitos adultos mais velhos juram acreditar é o “tempo sagrado” sem ecrãs. Para alguns, é a primeira hora depois de acordar. Para outros, é a hora antes de dormir. Sem telemóvel, sem portátil, sem televisão a fazer ruído de fundo.
Fazem coisas pequenas e concretas nesse tempo: preparar um pequeno-almoço a sério, alongar, regar plantas, sair e ver como está o tempo com a própria cara em vez de uma app. Alguns escrevem num caderno, só umas linhas. Outros ficam apenas à janela com café e deixam os pensamentos divagar.
Se isso lhe parece impossível, comece com dez minutos. Esses minutos não são “produtividade perdida”. São o intervalo em que o seu cérebro apanha boleia da sua vida.
Um erro comum quando pessoas mais novas tentam “ir para o analógico” é transformar isso noutra performance. Comprar o caderno perfeito, a caneta de aparo vintage, a agenda de papel cara. Depois publicar uma fotografia flat-lay de tudo nas redes sociais e… nunca mais usar.
As pessoas mais velhas com quem falei quase se divertiam com isso. As ferramentas delas são muitas vezes baratas, gastas, práticas. Um calendário do banco gratuito com notas à mão em todas as margens. Uma caneca com uma racha usada todas as manhãs há vinte anos. O ponto não é a estética. O ponto é a continuidade.
Se estiver a experimentar, seja gentil consigo. Não tem de apagar todas as apps nem atirar fora o smartwatch. Experimente um hábito durante uma semana: telefonar aos seus pais em vez de enviar mensagens, deixar o telemóvel noutra divisão ao jantar, imprimir três fotografias e colá-las no frigorífico. Pequenas fricções, não grandes revoluções.
“Os jovens acham que nós odiamos tecnologia”, disse-me um engenheiro reformado de 72 anos. “Não odiamos. Só nos lembramos de que a vida funcionava antes dela, e isso dá-nos opções.”
- Hábito 1: Manhãs lentas
Acordar sem deslizar logo no ecrã. Fazer a cama, abrir uma janela, alongar, beber água, e só depois ver o telemóvel. - Hábito 2: Refeições sem telemóvel
Mesmo uma refeição por dia com o telemóvel noutra divisão muda o tom. A conversa aprofunda quando ninguém pode fugir para um ecrã. - Hábito 3: Telefonar para conversas a sério
Se algo importa ou está tenso, telefone ou encontre-se. Deixe as mensagens para logística, não para emoções. - Hábito 4: Memórias impressas
Escolha um punhado de fotografias de poucos em poucos meses e imprima-as. Segure a sua vida nas mãos, não apenas numa cloud. - Hábito 5: Tempo semanal sem planos
Uma noite sem nada marcado, nada em streaming, nada otimizado. Pode surpreender-se com aquilo a que a sua mente recorre quando nenhum algoritmo escolhe por si.
A rebelião silenciosa que pode durar mais do que as apps
Fale tempo suficiente com pessoas nos seus 60 e 70 e surge um padrão. Não são hostis à vida moderna. Encomendam coisas online. Adoram videochamadas com netos que estão longe. Muitos fazem maratonas de séries e usam apps de tradução quando viajam.
O que resistem é à ideia de que cada parte da vida tem de ser mediada por um ecrã. Que uma caminhada só conta se for registada. Que o amor só conta se for publicado. Que aprender só conta se houver um certificado no fim. Sabem que há outra maneira porque já a viveram.
Os hábitos deles podem ser desconfortáveis porque expõem uma pergunta crua: se toda esta tecnologia é tão libertadora como dizemos, porque é que tanta gente se sente mais cansada, mais distraída, mais vagamente solitária do que nunca? A geração mais velha não tem uma resposta perfeita. O que tem é prova de que ainda é possível ter espaço para respirar - mesmo agora.
Talvez a coisa mais radical que podemos fazer não seja desligar tudo, mas admitir que, às vezes, a escolha lenta, teimosa e analógica sabe melhor no corpo do que a rápida e luminosa. E depois continuar a fazê-la, mesmo quando o mundo passa a deslizar.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Hábitos analógicos funcionam como âncoras | Rotinas como listas em papel, telefonemas e fotografias impressas criam pontos de contacto sensoriais e estáveis | Oferece uma forma simples de se sentir menos disperso sem abandonar a tecnologia |
| A lentidão é uma forma de proteção | Adultos mais velhos usam rituais lentos para filtrar ruído e pressão digital constantes | Ajuda-o a desenhar os seus próprios limites em vez de deixar que as apps os definam |
| Pequenas mudanças vencem o abandono total | Dez minutos de silêncio, uma refeição sem telemóvel, ou tempo semanal sem planos já alteram o estado mental | Torna a ideia de “fugir à armadilha tecnológica” realista e sustentável |
FAQ:
- Pergunta 1 As pessoas mais velhas são mesmo mais felizes, ou estão só a dizer isso?
Resposta 1
A investigação sobre satisfação com a vida mostra uma curva em U: muitas pessoas dizem sentir-se mais contentes nos seus 60 e 70 do que na meia-idade. Também tendem a importar-se menos com validação externa, o que pode reduzir a pressão que alimenta grande parte da ansiedade online.Pergunta 2 Tenho de deixar as redes sociais para sentir estes benefícios?
Resposta 2
Não. A ideia não é viver numa cabana sem Wi‑Fi. É decidir em que partes da vida quer tecnologia e que partes prefere manter offline. Mesmo limitar as redes sociais a certas horas pode aliviar o zumbido constante.Pergunta 3 Qual é um hábito que posso começar esta semana sem me sentir sobrecarregado?
Resposta 3
Escolha uma refeição por dia e deixe o telemóvel noutra divisão. Só isso. Repare como a conversa, a mastigação, até a perceção do tempo mudam quando a atenção não está dividida.Pergunta 4 E se os meus amigos e família esperam mensagens constantes?
Resposta 4
Pode definir expectativas suaves: diga que nem sempre vai responder de imediato e que prefere telefonemas para temas mais profundos. A maioria das pessoas ajusta-se quando conhece a regra; muitas até apreciam a permissão para abrandar também.Pergunta 5 Isto não é apenas nostalgia por um mundo que já não existe?
Resposta 5
A nostalgia tem o seu papel, mas estes hábitos não são sobre voltar atrás. São sobre trazer para a frente o que ainda funciona: lentidão, presença, memórias tácteis, vozes reais. Essas coisas coexistem muito bem com Wi‑Fi e smartphones - se as escolhermos de propósito.
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