A mulher no autocarro tinha o cabelo prateado apanhado num carrapito solto e umas sapatilhas vermelhas berrantes que não combinavam com o casaco. Apanhou o reflexo da câmara do telemóvel de um adolescente apontada na sua direcção e, em vez de se encolher, fez o sinal de paz e puxou uma careta ridícula. A última fila inteira rebentou a rir.
Teria uns 70 anos, talvez mais. O saco das compras vinha cheio de legumes, um romance de bolso e qualquer coisa embrulhada em papel brilhante. Quando saiu, ouvi um dos miúdos sussurrar: “Espero ser assim quando for mais velho.”
Essa frase fica no ar muito depois de as portas se fecharem.
1. Continuar genuinamente curioso em relação a coisas novas
Dá para perceber em cinco minutos se alguém deixou de ser curioso. O mundo encolhe até às queixas sobre os joelhos, o canal de notícias que vê e a sala de espera do médico. As frases acabam em “na minha idade”, como se fosse um ponto final na possibilidade.
As pessoas que chamam a atenção aos 70 são as que continuam a picar a vida, a fazer perguntas, a experimentar o café novo, a tentar perceber como funciona uma aplicação em vez de declarar que nunca a vão usar. A curiosidade vê-se na forma como ouvem, na maneira como os olhos se iluminam quando alguém menciona um sítio onde nunca estiveram.
Não tem a ver com perseguir a juventude. Tem a ver com recusar entrar na reforma mental.
Pense no avô que começa a aprender espanhol aos 72 porque a neta vai mudar-se para Madrid. O sotaque é horrível, enrola os erres como um corta-relva, mas pratica com o barista todas as manhãs e pede o café, orgulhoso, em frases partidas.
Ou na professora reformada que se inscreve numa aula de cerâmica onde toda a gente tem menos de 35. Entra, as mãos ligeiramente trémulas, e volta para casa coberta de barro e histórias sobre o DJ que, nas horas vagas, faz jarras. Falam deles não por serem extraordinários, mas porque não deixaram de ser principiantes em alguma coisa.
Não ficam presos a contar as mesmas três anedotas de 1992. Estão a coleccionar novas.
A curiosidade aos 70 envia um sinal silencioso: “Ainda estou no jogo.” Diz às pessoas mais novas que não está apenas a preservar memórias - está a criar algumas.
A ciência do cérebro confirma isto: aprender competências novas muda mesmo o cérebro, até tarde na vida. Mas, para lá da biologia, a curiosidade é cola social. As pessoas querem estar perto de alguém que pergunta “Conta-me mais”, em vez de “Mas porque é que havias de fazer isso?”
Às vezes, a diferença entre ser “velho” e ser “mais velho” está em as perguntas serem mais do que as queixas.
2. Mexer o corpo como se ele ainda lhe pertencesse
Não precisa de ser aquele septuagenário a correr maratonas no YouTube. A magia está em continuar a mexer o corpo como se isso importasse. Andar com propósito em vez de arrastar os pés. Esticar o braço para pegar na sua própria mala. Alongar de manhã em vez de se render, em silêncio, à rigidez.
As pessoas que inspiram esse “Espero ser assim” costumam ter algum ritual de movimento. Pode ser uma caminhada diária com um vizinho, tai chi no parque, hidroginástica, ou dançar na cozinha enquanto a chaleira ferve. Não estão a apontar para um six-pack. Só querem conseguir sentar-se no chão com um bebé e voltar a levantar-se sem chamar um guincho.
Mexem-se, não para evitar envelhecer, mas para habitar o envelhecimento por inteiro.
Imagine um homem de 74 anos, num fato de treino azul eléctrico, a andar em passo apressado pelo centro comercial mal abre. Conhece todos os seguranças pelo nome. Ou a mulher com uma bengala delicada que insiste em ir pelas escadas porque, como diz, “Eu não treino para os Jogos Olímpicos; treino para ir à casa de banho às 3 da manhã.”
Não são influencers do fitness. São os heróis discretos do parque da sua zona. Estudos mostram que até movimento suave pode reduzir o risco de quedas, demência e depressão. Mas a verdadeira mudança está na maneira como se apresentam. Ombros para trás. Olhar levantado. Um corpo que diz: “Ainda moro aqui.”
Sente-se isso quando entram numa sala. Não estão a pedir desculpa por ocuparem espaço.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Há manhãs frias, ancas doridas e dias em que o sofá ganha. A diferença é que voltam sempre, uma e outra vez, como quem lava os dentes.
Uma pessoa de 71 anos disse-me:
“Eu não faço exercício para viver mais tempo. Faço exercício para continuar a conseguir calçar os meus sapatos e dançar no próximo casamento.”
Eis alguns movimentos de baixa pressão que mudam tudo:
- Caminhe 10–20 minutos na maioria dos dias, mesmo devagar.
- Levante-se e sente-se numa cadeira 10 vezes sem usar as mãos.
- Estique os braços por cima da cabeça três vezes por dia.
- Treine o equilíbrio numa perna enquanto lava os dentes.
- Leve as suas compras leves quando conseguir.
3. Manter amizades reais vivas (não apenas conversas de família)
Há uma energia especial à volta de pessoas mais velhas que ainda têm amigos que vêem de facto. Não apenas cartões de Natal por educação ou mensagens rápidas de “tudo bem?”, mas cafés marcados, conversas confusas, piadas partilhadas que as fazem resfolegar de tanto rir em público.
Aos 70, as amizades podem ser complicadas. As pessoas mudam-se, parceiros morrem, a saúde atrapalha. Ainda assim, as pessoas que outros admiram em segredo são as que continuam a reconstruir o seu círculo, peça a peça. Convidam o vizinho novo para chá. Falam com outro habitual no parque dos cães. Telefonam em vez de ficar à espera que lhes telefonem.
Não se agarram apenas à vida dos filhos para se sentirem ligados. Cultivam a sua.
Todos já passámos por aquele momento em que deslizamos pela lista de contactos e percebemos que metade são pessoas com quem não falamos há anos. Aos 70, esse silêncio é mais alto. Um viúvo contou-me que fez uma regra: uma chamada por dia, mesmo que só cinco minutos. Um velho camarada do exército, um antigo colega, a senhora do coro.
Em pouco tempo, o seu pequeno apartamento tornou-se uma porta giratória de visitas que traziam bolo, fotografias e mexericos. Vizinhos mais novos começaram a aparecer também. Não por pena, mas porque a sala dele parecia viva. É isso que faz as pessoas dizerem: “Espero ser assim quando for mais velho” - não apenas ser amado pela família, mas ser escolhido por amigos.
O contacto social não é decoração. É sobrevivência.
A solidão aos 70 nem sempre parece isolamento. Pode parecer estar rodeado de pessoas que só o vêem como “avó” ou “avô”, nunca como uma pessoa com opiniões, defeitos e um sentido de humor brejeiro.
Os mais admirados mantêm pelo menos um espaço onde são apenas eles próprios - um coro, um clube de leitura, uma “oficina” de homens (men’s shed), um grupo de tricô, até um fórum online. Enviam o meme, lembram-se dos aniversários, pedem desculpa quando se exaltam.
Continuam a ser amigos de alguém, não apenas responsabilidade de alguém.
4. Dizer que sim a pequenas aventuras
Há um respeito silencioso por quem, aos 70, ainda diz que sim a coisas que parecem ligeiramente grandes demais. Não um “atrevimento sem seguro, de mochila às costas”, mas o sim pequeno e surpreendente. Um fim-de-semana fora com amigos. Um workshop de cozinha noutra cidade. Ir a um concerto em que não conhece a banda.
Isto não desaparece porque os joelhos rangem. Apenas muda de forma. A aventura pode ser apanhar um avião pela primeira vez em 20 anos, ou entrar num grupo de teatro local e aceitar o papel mais pequeno. Pode ser simplesmente sair à chuva em vez de usar o chuvisco como desculpa para ficar em casa.
Esse sim impede que a vida se torne uma sala de espera.
Conheci um casal no início dos 70 que decidiu visitar todos os cafés da cidade, um a um. Fizeram uma lista e riscavam um sítio novo todas as terças-feiras. Alguns eram péssimos. Um era tão bom que voltaram lá três vezes. Acabaram amigos de três baristas, de um músico e de outro “habitual de terça-feira” que mais tarde se juntou às noites de cartas.
Nada disto pareceria impressionante nas redes sociais. No entanto, os netos gabam-se deles. Os amigos contam a história em jantares. Não por serem viajantes extraordinários, mas porque recusaram o desvanecer lento para “já não saímos muito”.
As pequenas aventuras somam-se até uma vida que ainda parece ligeiramente imprevisível.
Dizer que sim não é negar a idade. É não deixar que o medo do incómodo mande em tudo. Os setentões admiráveis são realistas: levam medicação, marcam quartos no rés-do-chão, descansam depois de dias grandes.
O que não fazem é deixar que “já sou velho para isso” se torne o modo predefinido. Questionam. Testam com cuidado. Escolhem uma coisa por mês que os estica - um caminho novo, um prato novo, uma pessoa nova com quem falar.
Esse padrão de coragem pequena é aquilo que os mais novos notam, em silêncio, e guardam como modelo.
5. Continuar a preocupar-se com a forma como se apresenta ao mundo
Há algo discretamente poderoso numa pessoa de 70 anos que ainda se importa com a forma como se apresenta. Não a perseguir a juventude obsessivamente, mas a mostrar que não abandonou o próprio reflexo. Sapatos limpos. Uma camisa que assenta bem. Um toque de batom ou um relógio de estimação.
Isto não é vaidade. É uma forma de respeito - por si e pelas pessoas que têm de olhar para si ao almoço. Os mais velhos que chamam a atenção não se vestem como adolescentes. Vestem-se como eles próprios, mas melhorados. Um pouco de cor. Roupa que diz “Ainda aqui estou”, em vez de “Desisti algures em 2004.”
Repara neles na rua porque parecem despertos.
Uma vez entrevistei um homem de 79 anos cuja marca registada eram meias berrantes. O neto ofereceu-lhe o primeiro par a brincar: verde néon. Ele levou-as a um churrasco de família e a reacção foi tão divertida que começou a coleccionar mais. Estranhos comentavam. Enfermeiros no hospital lembravam-se dele pelas meias.
Ou a mulher de 72 que marcou um ajuste de soutien “pela primeira vez na vida” e saiu de lá literalmente mais direita. Ninguém está a pedir looks de passerelle. Mas quando ainda investe um pouco de esforço, as pessoas lêem isso como sinal de que ainda não saiu de cena.
Ainda está a desempenhar o seu papel no teatro quotidiano da vida.
Há aqui uma verdade simples: comporta-se de forma diferente quando sente que tem o seu ar. Tem mais vontade de sair, aceita mais estar em fotografias, diz mais vezes que sim àquele jantar em cima da hora.
Uma mulher nos seus 70 disse-me:
“Eu não me visto jovem. Visto-me como a mulher que o meu eu mais novo esperava vir a ser.”
Alguns hábitos de baixo esforço podem mudar tudo:
- Tenha um conjunto que o faça sentir impecável - não mais novo, apenas mais você.
- Faça um corte de cabelo decente duas vezes por ano, mesmo que pense “agora já ninguém me vê”.
- Use uma cor de que gosta em segredo pelo menos uma vez por semana.
- Troque de sapatos quando doem, não quando se desfazem.
- Diga que sim a fotografias, em vez de se desviar sempre.
A receita silenciosa para ser aquela pessoa mais velha que toda a gente admira
A verdade é que ninguém acorda aos 70 e, de repente, se torna essa pessoa magnética e discretamente inspiradora. Não tem a ver com saúde perfeita ou sorte perfeita. É a acumulação de escolhas comuns: manter-se curioso quando seria fácil queixar-se, mexer-se mesmo quando o sofá é sedutor, telefonar a um amigo em vez de esperar que o telefone toque.
Os mais velhos que despertam esse “Espero ser assim” sussurrado raramente se acham especiais. São apenas teimosos em continuar na conversa com a vida. Mantêm algumas arestas. Não têm medo de ter opiniões, de aprender com pessoas mais novas, de usar meias ridículas, de recomeçar com algo novo.
Talvez a verdadeira pergunta não seja o que vai estar a fazer aos 70. É que pequenos hábitos está a construir agora que o seu eu futuro lhe vai agradecer em silêncio - e que um miúdo num autocarro pode um dia ver e pensar, com meio sorriso: “Objectivos.”
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Manter a curiosidade | Continuar a aprender, fazer perguntas, experimentar pequenas coisas novas | Faz sentir-se mentalmente vivo e interessante para os outros |
| Continuar a mexer-se | Movimento suave e regular, ajustado às suas capacidades | Protege a independência e a confiança no dia a dia |
| Cuidar das amizades | Esforço activo para telefonar, encontrar-se e reconstruir laços sociais | Reduz a solidão e cria uma velhice mais rica e partilhada |
FAQ:
Pergunta 1: E se a minha saúde aos 70 não me deixar fazer grande parte disto?
Resposta 1: Concentre-se no espírito de cada hábito, não na versão “Instagram”. A curiosidade pode ser ler ou ouvir podcasts. O movimento pode ser exercícios na cadeira ou alongamentos suaves. A amizade pode ser chamadas telefónicas ou videochamadas. Pequenos esforços honestos continuam a criar essa energia de “ainda não acabei”.Pergunta 2: Não é tarde demais para começar estes hábitos se já estou no fim dos 60?
Resposta 2: A mudança nesta idade não precisa de ser dramática para ser poderosa. Uma aula nova, uma caminhada semanal, uma chamada deliberada podem mudar os seus dias. As pessoas notam esforço, não perfeição, e o corpo e a mente respondem mesmo a ajustes tardios.Pergunta 3: E se eu já não tiver muitos amigos aos 70?
Resposta 3: É mais comum do que se admite. Comece pequeno e local: um grupo na biblioteca, um centro comunitário, uma igreja ou encontro secular, voluntariado uma vez por mês. Grupos online sobre os seus hobbies também contam. Apareça com regularidade, mesmo que ao início seja estranho. As relações crescem com a repetição.Pergunta 4: Como é que me mantenho “eu” sem tentar parecer jovem?
Resposta 4: Baseie as escolhas no que lhe dá energia, não no que parece juvenil. Use as cores de que gosta, aprenda coisas que o intrigam, mexa-se de formas que lhe saibam bem. Não está a fazer uma audição para a juventude; está a aprofundar o seu próprio carácter.Pergunta 5: O que posso fazer hoje, seja qual for a minha idade, para ser esse tipo de pessoa mais velha mais tarde?
Resposta 5: Escolha uma área - curiosidade, movimento, amizades, aventura ou a forma como se apresenta - e faça uma mudança pequena e repetível. Leia um artigo sobre algo novo, dê uma volta ao quarteirão, mande mensagem a um amigo antigo, diga que sim a um convite pequeno, ou melhore uma peça de roupa. Depois repita na próxima semana. É assim que se constrói o seu eu futuro.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário