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Nove coisas que deve continuar a fazer aos 70 anos se quiser que, um dia, digam: “Espero ser assim quando for mais velho.”

Mulher idosa numa mesa com ténis, bloco de notas e chávenas; jovens ao fundo na porta aberta.

A pessoa de 72 anos, com o casaco vermelho-vivo, entra no café como se fosse dona da luz. Não de forma barulhenta, mas naquela maneira tranquila e assente que faz as pessoas levantarem os olhos dos telemóveis. Pergunta ao barista como correu o exame, lembra-se do nome do cão dele, deixa uma gorjeta a mais, ri-se da própria piada sem graça. Um adolescente na mesa ao lado dá um toque ao namorado e sussurra: “Ela é tão fixe, quero ser assim quando for velha.”

Já todos passámos por isso: aquele momento em que vemos alguém mais velho que parece… plenamente vivo. Sem fingir que tem 30, sem se agarrar a nada, apenas intensamente ele próprio. E damos por nós a pensar: “Espero vir a ser assim.”

Há um padrão nessas pessoas.

1. Continuam a dizer “sim” aos convites (mesmo quando dá vontade de ficar em casa)

Aos 70, o sofá pode tornar-se um amigo muito persuasivo. Os joelhos doem um pouco, o tempo não está perfeito, o trânsito parece irritante. Um “não” transforma-se em dez e, de repente, as semanas desfocam-se num longo ciclo da mesma cadeira, da mesma televisão, da mesma caneca. As pessoas que fazem os outros sussurrar “espero ser assim” quase sempre fazem uma coisa simples: continuam a dizer “sim”. Não a tudo. Não a todas as obrigações. À vida.

Continuam a aparecer nos copos de aniversário, nas inaugurações de exposições, nas apresentações da escola dos netos. Vão ao churrasco do vizinho onde só conhecem duas pessoas e o cão. Dizem “vou só uma hora” e acabam por ficar três, porque têm curiosidade sobre quem vão conhecer, o que vão sentir, que história vão recolher para contar depois.

Veja-se o Robert, 71, que quase faltou à festa de reforma de um amigo porque “vai estar toda a gente a falar de trabalho que eu deixei há dez anos”. Mesmo assim, foi. Ao balcão, começou a conversar com uma mulher sobre a playlist horrível. Afinal, ela dirigia um coro comunitário a três ruas dali. Seis meses depois, ele canta todas as quintas à noite e tem um grupo de WhatsApp que não se cansa de gozar com o sentido de moda dele.

Não há ali um grande momento de Hollywood. Apenas um pequeno “sim” que abriu vinte portas novas. Estudos continuam a mostrar que pessoas com interações sociais diversas envelhecem melhor, sentem-se menos sós, recuperam mais depressa de doenças. Mas nem precisa de um estudo para ver isso. Vê-se no brilho de alguém que ainda tem sítios onde estar - e pessoas que dão pela falta quando não aparece.

Quando deixa de dizer “sim”, o mundo encolhe sem avisar. Primeiro evita eventos à noite, depois saídas no inverno, depois tudo o que pareça “trabalho a mais”. Os amigos deixam de ligar tantas vezes porque, normalmente, recusa. O mito é que a energia traz convites. A realidade: muitas vezes, são os convites que geram energia. Sai cansado e volta a trautear.

A frase nua e crua é esta: as pessoas lembram-se da pessoa mais velha que continua a aparecer. Não da que tem sempre uma razão para não poder. As pessoas que admiramos em segredo nos seus setenta raramente são as mais talentosas ou as mais afortunadas. São as que continuaram a aparecer muito depois de já ser socialmente aceitável desaparecer em rotinas confortáveis.

2. Mexem o corpo como se fosse uma parte inegociável do dia

Os setentões que as pessoas admiram em segredo não estão necessariamente a correr maratonas. Muitos apenas… caminham. Todos os dias. Alongam na cozinha enquanto a chaleira ferve. Dançam mal ao som de músicas antigas enquanto lavam os dentes. Tratam o movimento como escovar o cabelo: algo normal, não heroico.

Uma mulher que conheci, 74, chama-lhe o “contrato com o amanhã”. Caminha 25 minutos, faça chuva ou faça sol, à volta do mesmo quarteirão. Os vizinhos acenam. As crianças em trotinetes fazem corridas até à esquina. Ela não está a contar passos - está a contar continuidade. O corpo nota esse tipo de lealdade.

A maior armadilha aos 70 é acreditar que abrandar tem de significar parar. Um médico diz para “ir com calma” e você traduz isso por “sentar mais”. Surge uma dor pequena e o medo trata do resto. Em breve, evita escadas, foge de saídas que impliquem andar, pega no carro para distâncias que antes até gostava de fazer a pé.

É assim que a confiança no corpo se desgasta: não com uma lesão, mas com cem pequenas evitações. Compare com alguém que diz: “Ok, talvez já não faça trilhos, mas posso fazer o circuito dos bancos do parque”, e continua. Adaptam-se; não se rendem. Os netos crescem a pensar “a avó anda para todo o lado” e não “a avó está sempre sentada a ver”.

Aos 70, o movimento deixa de ser sobre peso ou aparência e passa a ser sobre dignidade. A capacidade de se levantar de uma cadeira sem ajuda. De carregar as próprias compras. De entrar num comboio sem entrar em pânico com o vão. Estas pequenas liberdades são o que mantém as pessoas a sentirem-se protagonistas da sua vida - e não figurantes na logística de alguém.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhas. Há semanas em baixo, meses em baixo, cirurgias, invernos que engolem a motivação. A chave não é a perfeição. A chave é recusar chamar-lhe “acabou” depois de cada contrariedade. O setentão que os outros admiram é o que diz: “Pronto. Recomeçar. Só dez minutos”, e ata os atacadores na mesma.

3. Mantêm uma curiosidade genuína por pessoas mais novas do que eles

Há um certo tipo de pessoa mais velha que faz toda a gente relaxar. Não começa frases com “no meu tempo” ou “a vossa geração…”. Pergunta “então e tu, do que é que gostas?” e ouve mesmo. Aos 70, continuar a importar-se com a vida, os memes, a música e as preocupações de pessoas décadas mais novas é quase um superpoder.

Isso não significa fingir que gosta de tudo. Significa não fechar a porta. Significa deixar o sobrinho mostrar-lhe o youtuber favorito dele e perguntar por que é que gosta. Significa ouvir a neta a desabafar sobre ansiedade climática sem interromper para dizer “nós também tivemos problemas, sabias”.

Pense em alguém como a Fátima, 70, que faz voluntariado uma vez por semana num centro juvenil só para ajudar com os trabalhos de casa. Não está lá para “lhes ensinar disciplina”. Está lá porque gosta do caos deles, da gíria, dos planos malucos. Em troca, eles mostram-lhe novas apps, nova música, novas piadas. Ela nem sempre percebe. Às vezes ri-se na altura errada.

Mesmo assim, quando entra, ouve-se um coro de “Fatiiiima!”. Ela faz parte da sala - não é uma observadora no canto a julgar. Daqui a anos, aquelas crianças hão de contar aos próprios filhos sobre “uma senhora mais velha que era mais fixe do que metade da equipa”.

A curiosidade aos 70 envia uma mensagem silenciosa, mas muito alta: “Ainda não me reformei da vida.” Diz: “O teu mundo importa-me, mesmo que não seja o meu.” As pessoas sentem isso. Sentem a diferença entre uma pessoa mais velha que interroga e uma que explora.

As pessoas que admiramos nunca deixam de recolher histórias dos outros. Perguntam aos empregados de mesa de onde são, perguntam aos adolescentes que jogo estão a jogar, perguntam aos enfermeiros em que turno estão. Não estão a tentar ser “modernas”. Estão apenas a recusar encolher o seu mundo emocional até ao passado. Essa atitude é contagiosa. Vai-se embora a pensar: “Quero ser assim tão aberto quando for mais velho - não amargo e aborrecido.”

4. Permitem-se ainda mudar de ideias

Há algo de magnético numa pessoa de 70 anos que consegue dizer: “Sabes que mais? Eu estava errado.” Ou: “Eu pensava assim; já não penso.” Muita gente trata opiniões como cimento nessa idade. As pessoas que admiramos em silêncio tratam-nas mais como barro. Ainda firmes, ainda moldadas, mas não intocáveis.

Talvez tenha crescido com uma certa visão sobre relações, dinheiro, carreiras. Depois os netos começam a viver vidas muito diferentes. Aos 70, insistir é fácil. Amolecer exige coragem. Dizer “não percebo totalmente, mas estou a tentar” é uma ponte. E são as pontes que fazem as pessoas dizer: “Espero ser assim.”

Veja-se a tecnologia. Há setentões que ainda se gabam de não saber enviar uma mensagem. E há os que dizem: “Mostra-me outra vez, desta vez apanho”, mesmo que demore dez tentativas. O segundo grupo tende a receber mais áudios dos netos, mais fotografias partilhadas, mais mensagens espontâneas de “lembrei-me de ti”.

A questão não é a rapidez nem a habilidade. É a humildade de admitir: “Estou a aprender.” Essa frase desarma quando vem de alguém com décadas de vida às costas. Diz aos mais novos: “Vocês também não têm de estar ‘feitos’.” Há algo profundamente tranquilizador nisso.

“O dia em que deixas de mudar de ideias é o dia em que começas a ensaiar estar morto.”

  • Repare nos temas em que diz sempre a mesma coisa. Pergunte a si próprio: “Quando foi a última vez que atualizei esta opinião?”
  • Deixe uma pessoa mais nova por semana explicar-lhe algo sem interromper com a sua versão.
  • Pratique uma pequena inversão: prove o alimento que sempre diz que odeia, mude o percurso das caminhadas, troque de jornal.
  • Quando se sentir defensivo, diga em voz alta (nem que seja só para si): “Interessante. Conta-me mais sobre como tu vês isso.”
  • Escreva uma frase em que acreditava aos 30 e em que já não acredita agora. Isso é prova de que ainda consegue evoluir.

5. Mantêm um projeto privado que pertence só a eles

Os setentões que irradiam algo especial quase sempre têm um mundo secreto. Uma horta na varanda onde experimentam tomates impossíveis. Um romance inacabado numa gaveta. Uma oficina cuidadosamente caótica cheia de aparas de madeira e ideias meio nascidas. Uma língua que estão a aprender devagar, mal, teimosamente.

Não são só “a avó” ou “o engenheiro reformado” ou “a viúva do número 12”. Também são a pessoa que está a tentar tocar jazz num teclado barato, ou a indexar fotografias de família, ou a treinar para uma caminhada solidária. Esse projeto interior dá forma aos dias de um modo que não depende do horário de mais ninguém.

O que os mais novos notam não é o projeto em si. É a luz por trás dele. A forma como a cara muda quando falam das mudas que finalmente germinaram, ou da passagem difícil da música que quase conseguiram, ou da história local que andam a desenterrar. Há orgulho, frustração e alegria em medidas iguais. Está vivo.

Um projeto privado lembra-lhe que ainda tem futuro, mesmo que seja apenas “na próxima terça tento outra vez”. Mantém o cérebro a esticar, as mãos ocupadas, o coração ligeiramente nervoso. Esse nervoso é subestimado. É prova de que ainda se importa com o resultado.

O que mata isto aos 70 é a voz que diz: “Qual é o sentido agora?” Como se os únicos projetos válidos fossem os que trazem dinheiro ou aplauso público. O sentido é o processo. O sentido é que, quando alguém pergunta “o que tens feito?”, você tem uma resposta que não seja sobre a última consulta médica.

A pessoa mais velha que os outros querem imitar raramente é a que teve a vida mais lisa. É a que ainda tem coisas na sua própria lista de afazeres que mais ninguém lá pôs. Os dias parecem escritos por ela - não apenas agendados à volta das necessidades dos outros. É isso que o faz olhar e pensar, com uma mistura de admiração e alívio: “Então não tem de estar acabado. Não assim.”

6. Distribuem calor humano de propósito

Passe dez minutos a observar, em público, um setentão verdadeiramente vibrante. Vai ver: os pequenos elogios, as saudações fáceis, a forma como alisa a tensão à sua volta. Fala com a pessoa da caixa do supermercado como um igual. Diz “giro casaco” ao rapaz tímido na sala de espera. Envia mensagens a dizer “lembrei-me de ti, não precisas de responder”.

Isto não é sobre ser falsamente alegre. É sobre escolher ser um contribuinte líquido de calor humano, em vez de esperar recebê-lo. Aos 70, essa escolha muda todas as salas onde entra - incluindo a própria cozinha. As pessoas começam, lentamente, a pensar em si como uma fonte, não como um peso. Aproximam-se, não se afastam.

Claro que há dias em que não apetece. A dor aparece, chegam más notícias, dormiu pessimamente. Não tem de representar alegria. Um “estou a ter um dia difícil” dito com suavidade ainda pode ser caloroso. O que afasta as pessoas é a aspereza constante: o queixume permanente, a crítica a tudo o que é novo, a suposição automática do pior.

Os setentões admirados ainda se zangam, ainda choram, ainda praguejam com as notícias. Só não deixam que a amargura seja o sabor principal. Os mais novos, sobretudo, são alérgicos a isso. Aproximam-se de idosos que oferecem algum tipo de bondade, mesmo que embrulhada em sarcasmo. Afastam-se dos que mordem sempre.

Quando se tem 70, a cara já conta muitas histórias. As linhas à volta dos olhos mostram quanto sorriu, quanto semicerrrou os olhos, quanto se preocupou. Isso não dá para editar. Mas pode escolher que histórias continua a acrescentar. Uma palavra gentil não custa nada e tem mais impacto do que imagina.

Esses pequenos e constantes gestos de calor humano são a razão pela qual um dia alguém vai olhar para si do outro lado de um autocarro cheio, ver a forma como ajuda um desconhecido com um saco ou ri com uma criança, e pensar sem saber muito bem porquê: “Espero ser assim quando for mais velho.”

Deixar-se ficar inacabado

Há um segredo silencioso a atravessar estas nove coisas: todas resistem à ideia de que 70 é uma versão final e polida de si. As pessoas que nos impressionam nos seus setenta não “resolveram tudo”. Ainda são um pouco desarrumadas. Ainda se perdem a caminho de sítios novos. Ainda há dias em que torradas ao jantar ganham. Ainda perguntam a um adolescente que botão carregar na máquina de bilhetes.

Não estão a tentar ser intemporais. Não fingem que nada dói. Apenas recusam ser apenas a sua idade. Dizem “sim” aos convites mais vezes do que dizem “não”. Mexem o corpo mais do que o mundo espera. Mantêm-se curiosas, continuam a mudar de ideias, seguram um projeto que é só delas, oferecem calor quando o têm. Nada disso exige saúde perfeita, dinheiro perfeito, ou perfeição de espécie alguma.

O que isso pede é um tipo de ternura teimosa consigo próprio. Uma promessa de que, enquanto acordar, ainda pode acrescentar uma linha à história, em vez de apenas reler os capítulos antigos. É essa versão dos 70 que faz os mais novos expirarem e pensarem, com uma esperança súbita e inesperada: talvez envelhecer pudesse saber a isto.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Continuar a dizer “sim” Aceitar convites sociais, manter-se visível na vida dos outros Preserva relações, reduz a solidão, mantém a vida com mais amplitude
Mexer-se todos os dias Caminhar, alongar, adaptar o movimento ao corpo em vez de parar Protege a independência, a confiança e a liberdade do quotidiano
Manter curiosidade e calor humano Fazer perguntas, mudar de ideias, oferecer pequenas gentilezas diárias Faz de si alguém com quem os outros gostam de passar tempo em qualquer idade

FAQ:

  • 70 não é tarde demais para mudar hábitos? “Tarde” é muitas vezes apenas outra palavra para “desconfortável”. A mudança parece estranha ao início em qualquer idade, mas o cérebro e o corpo continuam a responder bem a novas rotinas até aos oitenta e tal.
  • E se a minha saúde for limitada? Então as “nove coisas” encolhem para caber na sua realidade: caminhadas mais pequenas, saídas mais curtas, projetos mais silenciosos, um calor humano mais suave. O espírito conta mais do que a escala.
  • Já não tenho muitos amigos. Como é que ainda posso “dizer sim”? Diga sim a espaços comunitários: bibliotecas, aulas locais, grupos religiosos, voluntariado, até grupos online. Um novo conhecido basta para voltar a ganhar balanço.
  • Como é que me mantenho curioso quando me sinto desligado da vida moderna? Escolha uma pessoa mais nova e peça-lhe para explicar uma coisa por semana: uma música, uma app, uma notícia. Trate isso como um curso de línguas em “hoje”.
  • E se eu estiver simplesmente cansado de tentar? Então comece o mais pequeno possível: uma caminhada curta, uma mensagem simpática, uma receita nova, uma pergunta fresca. O balanço muitas vezes volta em silêncio depois do primeiro gesto minúsculo.

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