Anglers, piscicultores e defensores das aves estão em confronto por causa de uma silhueta negra: o corvo‑marinho (muitas vezes associado às populações que invernam em águas interiores). No Jura, em França, a ave concentra‑se em dormitórios de inverno ao longo de rios e lagos. Uma ordem da prefeitura permitiu abates limitados em unidades de piscicultura, mas não em águas abertas - e associações locais de pesca dizem que isso deixa os peixes selvagens (incluindo espécies sensíveis) demasiado expostos.
O tiro de aviso da federação de pesca
A federação departamental de pescadores do Jura fez um cálculo simples, a partir de um número divulgado pela Ligue de protection des oiseaux (LPO): pouco mais de 600 corvos‑marinhos a passar o inverno no departamento.
A estimativa usada pelos pescadores é de cerca de 0,5 kg de peixe por ave/dia. Em 6–7 meses (aprox. 180–210 dias), isso dá uma ordem de grandeza de 54–63 toneladas no total - um valor que, por si só, explica o tom do debate. (Na prática, o consumo diário varia com temperatura, esforço de caça e disponibilidade de presas, por isso o número é um “topo de lápis”, não uma medição.)
Os responsáveis locais da pesca estimam que os corvos-marinhos que invernam consomem mais de 50 toneladas de peixe nas águas do Jura em cada temporada.
Para Roland Brunet, que lidera a federação, a pergunta é direta: para que serve investir na recuperação de rios, zonas de desova e passagens para peixes se, na perceção deles, uma parte relevante do stock reconstituído acaba predada durante o inverno? O receio é maior quando há repovoamentos recentes, porque peixes libertados tendem a ficar mais concentrados e previsíveis.
Uma ave protegida perante uma brecha legal
O corvo‑marinho é protegido ao abrigo do direito europeu e francês e não pode ser caçado livremente. As próprias leis, porém, admitem derrogações: abates seletivos podem ser autorizados quando há prova de danos significativos e quando medidas não letais são insuficientes (em geral com quotas, períodos e relatórios obrigatórios).
No Jura, o prefeito (autoridade do Estado no departamento) assinou uma ordem em novembro de 2025. Autoriza o abate de até 300 corvos‑marinhos nesta temporada de inverno, mas apenas em águas fechadas usadas para piscicultura. A lógica é a de prejuízo económico direto e mensurável para produtores.
O problema, dizem os pescadores, é que essa abordagem deixa uma “zona cinzenta” nos rios e lagos naturais (“eaux libres”, águas abertas). Ecologicamente, a distinção é pouco útil: a ave move‑se entre locais, e o efeito no peixe selvagem não respeita limites administrativos.
O mesmo corvo-marinho que saqueia uma piscicultura ao amanhecer pode caçar trutas selvagens num rio público ao meio-dia.
Pescadores dizem que os peixes selvagens ficam com proteção de segunda linha
Entre pescadores, cresce a frustração com a ideia de que peixe de criação (para venda) tem uma proteção prática que os peixes selvagens não têm - mesmo quando estes últimos incluem populações vulneráveis.
Apontam sobretudo para espécies emblemáticas dos rios do Jura:
- Truta‑comum (truite fario), valorizada na pesca de mosca e sensível à qualidade da água
- Lúcio‑do‑norte, predador de topo importante para o equilíbrio do ecossistema
- Tímalo (ombre commun), associado a correntes rápidas e bem oxigenadas, e considerado mais frágil
Estas espécies dependem de água fresca e limpa, leitos de gravilha e margens/planícies aluviais em bom estado. A federação e autoridades públicas têm financiado recuperação de habitats, escadas para peixes e repovoamentos - intervenções caras, pagas em grande parte por licenças e fundos públicos. Os pescadores temem que a predação, concentrada em certos troços rasos e em períodos de caudal baixo, “anule” parte do investimento.
Defensores das aves pedem perspetiva
Do outro lado, a LPO e outros grupos de conservação pedem prudência. Reconhecem que os corvos‑marinhos comem muito peixe, mas contestam a leitura baseada apenas em “tonelagem”.
Nem todas as presas são de interesse desportivo ou de conservação: muitas são pequenos ciprinídeos, espécies oportunistas, invasoras em alguns contextos, ou peixes já debilitados por poluição, stress térmico ou doença. Além disso, os corvos‑marinhos tendem a tirar partido de locais rasos e degradados, onde o peixe fica concentrado e mais fácil de capturar.
Para os ornitólogos, o corvo-marinho é menos um invasor do que um sintoma visível de rios já sob pressão.
Os conservacionistas lembram ainda que a espécie sofreu declínios fortes no século XX em várias zonas europeias, por perseguição e contaminantes. A recuperação tornou o conflito mais visível: quando um predador regressa, a gestão passa a ter de conciliar conservação, economia e expectativas sociais.
Múltiplas pressões sobre os rios do Jura
O debate ocorre num contexto de stress acumulado sobre ecossistemas de água doce. Antes de qualquer ave chegar, vários fatores já reduzem a resiliência das populações de peixe:
- Poluição da água: menos oxigénio, pior reprodução, mais doença
- Hidroeletricidade e barragens: migração bloqueada, caudais alterados, habitats fragmentados
- Alterações climáticas: água mais quente, secas mais severas, stress térmico
- Escorrência agrícola: eutrofização, algas, assoreamento de zonas de desova
- Repovoamentos excessivos/introduções: mistura genética e competição com linhagens selvagens
Os pescadores usam esta lista para reforçar o argumento: com stocks já fragilizados, qualquer mortalidade adicional pesa mais. Os defensores das aves respondem que é precisamente aí que está a solução de base - e que focar apenas o predador pode dar uma sensação de “ação” sem resolver o que torna o rio vulnerável.
Entre ciência, emoção e política
As autoridades locais equilibram lóbis concorrentes. Pescadores trazem observações de campo e representam milhares de licenças. Associações de conservação têm apoio público e instrumentos legais ligados a diretivas europeias.
A parte difícil é separar evidência robusta de perceções. Isso costuma exigir:
- contagens padronizadas em dormitórios (em horários consistentes)
- mapeamento de zonas de alimentação e dos “pontos quentes” de conflito
- avaliação de stocks de peixe antes/depois do inverno (e não apenas relatos pontuais)
Por trás de cada relatório técnico está um conflito muito humano: quem decide que nível de predação é aceitável num rio partilhado?
Noutros departamentos franceses, o compromisso tem sido combinar abates limitados e controlados em troços específicos com medidas não letais (afugentamento junto de zonas de desova, proteção física em pontos críticos). A eficácia varia: muitas técnicas perdem efeito com habituação, e o tiro pode deslocar aves para zonas vizinhas se não for bem direcionado.
O que “eaux closes” e “eaux libres” significam na prática
O vocabulário jurídico alimenta parte da confusão. No direito francês:
- Eaux closes: águas fechadas sem ligação direta a rios públicos (charcas privadas, tanques/viveiros de piscicultura).
- Eaux libres: rios, ribeiros e lagos naturais na rede pública.
A distinção define quem gere o peixe, quem paga a manutenção e que derrogações podem ser concedidas. Para a prefeitura, é geralmente mais fácil justificar abates em locais fechados e geridos por privados, onde o prejuízo económico é mais claro e quantificável.
O que poderá acontecer a seguir no Jura
Se a federação de pesca mantiver a pressão, a ordem pode ser revista. Entre os cenários discutidos estão:
- alargar derrogações a secções específicas de rio com espécies sensíveis
- restringir a ação a períodos de maior vulnerabilidade (por exemplo, caudais baixos e concentração de peixe)
- testar primeiro alternativas de dissuasão, deixando o abate como último recurso
Cada opção tem custos e riscos. Abates mais amplos podem apenas deslocar o problema; pouca ação pode aumentar o ressentimento e a sensação de que o peixe selvagem tem “menos valor” do que o peixe de viveiro. No fundo, é um caso de proteções que colidem: uma ave protegida alimenta‑se de peixes que também se tenta proteger, em rios sujeitos a objetivos ambientais europeus. O Jura está a negociar, na prática, onde ficam essas fronteiras neste inverno.
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