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Nas profundezas da maior caverna do mundo, dois antigos monstros marinhos ressurgem.

Arqueóloga examina ossos numa caverna iluminada por uma lanterna. Caderno aberto ao lado.

Na vasta paisagem subterrânea da Mammoth Cave e nas rochas sob o norte do Alabama, os investigadores encontraram vestígios de dois tubarões antigos, preservados em pedra desde muito antes de os dinossauros existirem.

Um oceano oculto escrito na rocha

O Parque Nacional de Mammoth Cave, no Kentucky, é hoje conhecido como o sistema de grutas mais extenso cartografado. Existem mais de 670 km de galerias mapeadas (o número tende a crescer à medida que se exploram novas passagens), escavadas em camadas espessas de calcário.

A visita turística mostra só uma pequena parte: grandes salões, escadas e trilhos. Mas as paredes contam uma história muito mais antiga. Estes calcários formaram-se no fundo de um mar quente e pouco profundo durante o Carbonífero, há cerca de 325 milhões de anos. Onde hoje há corredores secos, existiu uma plataforma marinha com predadores a circular.

Há um detalhe importante: tubarões têm esqueleto de cartilagem, que raramente fossiliza bem. Por isso, os melhores “registos” costumam ser dentes, espinhos e fragmentos de mandíbula - peças duras que resistem e ajudam a identificar espécies.

Além disso, o interior das grutas tende a ser estável (pouca luz, pouca variação de temperatura e humidade), o que pode conservar fósseis e evitar a erosão rápida típica da superfície. O contexto também conta: um fóssil no lugar certo, dentro da camada certa, vale muito mais do que uma peça solta fora do seu estrato.

Duas espécies de tubarões recentemente descritas deste antigo braço de mar, Troglocladodus trimblei e Glikmanius careforum, revelam uma comunidade de predadores mais diversa do que se supunha.

Dois tubarões de um braço de mar esquecido

As descobertas surgem de um inventário paleontológico de longo prazo em áreas protegidas, que cruza trabalho de campo, registos de colecções e revisão de camadas rochosas já conhecidas. Em Mammoth Cave e em afloramentos do norte do Alabama, a equipa identificou restos de dois grandes tubarões predadores.

Troglocladodus trimblei: o caçador de dentes bifurcados

T. trimblei media cerca de 3 a 3,6 metros. É um tamanho comparável ao de vários tubarões costeiros modernos: não é “gigante”, mas é grande o suficiente para dominar muitos habitats rasos.

O que o distingue são os dentes. Em vez de uma lâmina triangular simples, os dentes são bifurcados, com várias pontas a partir de uma base comum. Em termos práticos, este tipo de dentição costuma ser eficaz para:

  • prender presas escorregadias (peixes rápidos);
  • rasgar tecidos e escamas mais resistentes;
  • reduzir a probabilidade de a presa escapar durante a torção da mordida.

Troglocladodus pertence aos ctenacantos, parentes primitivos dos tubarões modernos. Como noutros ctenacantos, é provável que tivesse espinhos nas barbatanas dorsais. Esses espinhos funcionariam como defesa e também como “sinal” de risco para predadores ou rivais - um custo é aumentar o arrasto na água, mas pode compensar em ambientes com forte competição.

Glikmanius careforum: um tubarão que comia tubarões

G. careforum teria dimensão semelhante (3 a 3,6 metros), mas com um perfil de mordida diferente: mandíbulas e dentes sugerem raízes mais robustas e uma fixação muscular capaz de gerar força para esmagar e partir.

Pela forma e desgaste dos dentes, os investigadores propõem que atacava:

  • tubarões mais pequenos que partilhavam as mesmas águas;
  • peixes ósseos com escamas e couraças mais duras;
  • ortóconos (cefálopodes de concha recta, aparentados de lulas e chocos).

Os ortóconos tinham conchas longas e cónicas, difíceis de quebrar. Um predador capaz de lidar com esse “material” tende a ocupar níveis altos na cadeia alimentar. Neste cenário, Glikmanius seria um superpredador costeiro, semelhante (no papel ecológico, não no aspecto) a grandes tubarões actuais que ocasionalmente predam outros tubarões.

Glikmanius careforum parece ter sido um superpredador nestes mares antigos, alimentando-se de outros tubarões, peixes ósseos e cefalópodes com concha.

Vida ao longo de uma costa antiga

Estas camadas não contam apenas a história de dois animais. Desenham um braço de mar desaparecido. No Carbonífero, águas rasas cobriam extensas áreas do que hoje é o Kentucky e o Alabama, ligadas a uma geografia global muito diferente da actual.

Com o nível do mar a subir e a descer ao longo de longos ciclos, zonas baixas eram inundadas, criando ambientes de plataforma continental: águas relativamente quentes, pouco profundas, com alimento abundante. Ao longo de milhões de anos, sedimentos soterraram dentes e ossos dispersos, transformando-os em fósseis.

Característica Braço de mar do Carbonífero (Kentucky/Alabama) Comparação moderna
Profundidade da água Plataforma continental pouco profunda Sectores de plataformas tropicais actuais
Clima Quente e húmido, com mares interiores extensos Zonas costeiras tropicais e subtropicais
Principais predadores Ctenacantos e grandes peixes ósseos Tubarões costeiros e grandes peixes predadores
Diversidade de presas Peixes, primeiros actinopterígios, ortóconos, outros tubarões Peixes, cefalópodes, crustáceos, outros tubarões

O fim deste braço de mar é associado a mudanças tectónicas que culminaram na formação da Pangeia. Com a reorganização das massas continentais, antigas plataformas marinhas foram elevadas e expostas. Muito mais tarde, a água subterrânea aproveitou fraturas no calcário e abriu o sistema de grutas, tal como acontece em maciços calcários noutros países (incluindo Portugal), onde a dissolução do calcário cria redes complexas ao longo do tempo.

Um cofre de fósseis sob a floresta

Grutas como Mammoth são também locais de conservação natural. A falta de luz e a estabilidade interna reduzem a degradação, e isso pode preservar peças frágeis que, à superfície, se desfariam por alternância de humidade, calor e erosão.

Para a paleontologia, isso é valioso porque permite ir além de dentes isolados. Quando aparecem espinhos de barbatanas, segmentos de coluna ou partes de mandíbula, a anatomia pode ser reconstruída com menos suposições - e isso muda a leitura da evolução dos tubarões no Carbonífero.

Há também uma regra prática de campo: tocar ou retirar fósseis (mesmo “soltos”) destrói o contexto geológico e pode tornar a peça cientificamente quase inútil. Em áreas protegidas, a recolha costuma exigir autorização, exactamente para não perder informação sobre a camada e a posição.

Fósseis bem preservados de Mammoth Cave e de camadas rochosas próximas mostram que as comunidades de tubarões antigas eram diversas e ecologicamente estruturadas, e não apenas um pequeno grupo de predadores “genéricos”.

Trabalhos anteriores na região já apontavam para um tubarão de grande porte (comparável, em comprimento, a um grande tubarão-branco moderno) com cerca de 330 milhões de anos. As novas espécies reforçam uma ideia-chave: em ecossistemas costeiros, mesmo antigos, várias espécies podem partilhar o mesmo espaço ao dividir presas e estratégias (morder/rasgar vs esmagar/partir).

Paralelos com os tubarões modernos

Embora Troglocladodus e Glikmanius não sejam “antepassados directos” dos tubarões actuais, alguns padrões parecem familiares. Pelo tamanho, pela dentição e pelo ambiente, é plausível que patrulhassem águas costeiras e margens de recifes, alternando entre caça activa e emboscadas a cardumes.

Este tipo de nicho lembra o de tubarões costeiros modernos, que usam zonas rasas para alimentação e seguem bordas de habitats (recifes/planícies arenosas), onde presas e rotas de fuga se concentram. A comparação sugere continuidade de estratégias: exploração de áreas produtivas, dieta flexível e, por vezes, predação entre tubarões.

A diferença marcante é a presença provável de espinhos dorsais nos ctenacantos - uma defesa rara na maioria dos tubarões actuais. Isso aponta para competição e risco elevados: num mar com muitos predadores, defesas “passivas” podem ser tão importantes quanto a velocidade.

Porque é que estes tubarões antigos importam hoje

Cada espécie descrita ajuda a refinar a cronologia da evolução dos tubarões: que formas de dentição surgiram primeiro, quando apareceu a capacidade de esmagar presas duras e como diferentes grupos ocuparam a cadeia alimentar.

Há também uma utilidade prática. Reconstruir redes alimentares antigas dá “pontos de referência” para entender o que acontece quando os predadores de topo mudam - por exemplo, quando desaparecem ou diminuem. Isso ajuda a interpretar padrões actuais, como desequilíbrios em ecossistemas costeiros, e a testar modelos sobre resiliência e vulnerabilidade a mudanças rápidas no clima e no oceano.

Para além de Mammoth Cave: o que se segue

A presença destes fósseis em Mammoth Cave e no norte do Alabama sugere que as mesmas camadas, noutros locais, podem esconder espécies relacionadas. Afloramentos (cortes de estrada, pedreiras) e grutas menores que intersectam o mesmo intervalo geológico são alvos prováveis.

O trabalho futuro tende a focar três frentes:

  • mapear com precisão as camadas mais ricas em fósseis (estratigrafia fina);
  • usar tomografia (TC/micro-TC) para “ver” estruturas internas sem partir amostras frágeis;
  • criar reconstruções digitais para testar hipóteses (por exemplo, como dentes bifurcados seguram presas, ou que impacto os espinhos dorsais têm na natação).

Para quem visita, isto muda a escala da experiência: as galerias não são só um fenómeno geológico. São rocha depositada num mar antigo, onde tubarões com anatomias muito diferentes das actuais dominaram durante milhões de anos - e cuja história só agora está a ser reconstituída peça a peça.

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