Nos arredores da moderna Izmir, as ruínas de Metropolis trouxeram à luz uma descoberta nova e impressionante: uma cabeça colosal feminina em mármore, datada do período helenístico e que provavelmente representa Héstia, deusa do lar e da lareira. Longe de um templo, a escultura emergiu de um edifício comercial - um pormenor que altera a forma como os especialistas pensam a religião, a política e o comércio numa cidade anatólica há 2.300 anos.
Como uma deusa veio à tona num edifício comercial
A escavação de Metropolis, perto da localidade de Torbalı, decorre desde 1989. No âmbito do programa “Heritage for the Future” do Ministério da Cultura e Turismo da Turquia, arqueólogos liderados pelo professor Serdar Aybek têm vindo a desvelar camadas de teatros, edifícios públicos e ruas moldadas tanto por tradições gregas como anatólicas.
Durante trabalhos num espaço identificado como estrutura comercial, a equipa deparou-se com algo inesperado: uma cabeça de mármore com cerca de 40 centímetros de diâmetro. A profundidade da descoberta - aproximadamente 1,5 metros abaixo da superfície atual - mostrou que a peça caiu, ficou parcialmente protegida por alvenaria colapsada e foi depois selada por camadas de ocupação posteriores.
Os arqueólogos encontraram uma deusa monumental, não num santuário, mas num edifício usado para negócios e assuntos cívicos.
Até ao momento, o edifício produziu muito pouco material diretamente ligado à prática ritual. Nada de altares, nada de fossas de oferendas, nada de mobiliário de culto evidente. Ainda assim, a presença de uma escultura de tão elevado estatuto sugere que o espaço fazia mais do que acolher mercadores ou armazenar bens.
Aybek e os seus colegas inclinam-se agora para uma função mista: um lugar onde transações económicas, reuniões cívicas e exibição simbólica se sobrepunham. O modelo recorda a ágora helenística, onde lojas, edifícios do conselho e estátuas honoríficas coexistiam, em vez de uma separação nítida entre zonas sagradas e profanas.
Este enquadramento é importante. Sugere que, em Metropolis, o mundo dos contratos, dos impostos e do comércio se desenrolava sob o olhar de uma figura divina. Para uma cidade a navegar mudanças de governantes e conflitos regionais, ancorar a vida económica numa presença sagrada pode ter funcionado como lembrete visual de regras e obrigações partilhadas.
Uma montra de escultura helenística de alto nível
A análise técnica indica que a cabeça pertenceu a uma estátua com pelo menos dois metros de altura, provavelmente instalada num espaço público de destaque antes de tombar ou ser deslocada. Só o seu tamanho exclui um contexto doméstico e aponta para um uso cívico ou cerimonial.
A escultura foi talhada a partir de dois blocos de mármore unidos com grampos metálicos, uma solução comum em oficinas do helenístico tardio que procuravam escala monumental sem arriscar que grandes peças únicas se partissem com o próprio peso. Este método de construção surge em centros famosos como Pérgamo e Rodes, o que sugere que Metropolis integrava a mesma rede artística, em vez de ser um recanto provinciano.
A execução reforça essa ideia. O cabelo cai em madeixas profundamente cavadas e inquietas, concebidas para captar sombras marcadas. O rosto apresenta traços cuidadosamente equilibrados e um tratamento subtil de bochechas, queixo e lábios, evitando a rigidez de estilos clássicos mais antigos.
Os olhos foram esculpidos para receber incrustações de vidro ou pedra colorida, uma técnica dispendiosa normalmente reservada a encomendas de elite.
Vestígios nas cavidades oculares mostram que as pupilas foram escavadas com precisão, deixando canais para inserções que, outrora, criariam um olhar luminoso e quase perturbador. A conservadora Didem Taner e o restaurador Taner Özgür recorreram à modelação 3D para reconstituir como esses olhos poderiam ter parecido quando recém-colocados. No ecrã, a deusa devolve o olhar com uma intensidade fixa e brilhante que teria dominado qualquer sala.
Vários pormenores apontam para adaptação local. A granulação do mármore sugere pedreiras regionais, e as proporções faciais ligeiramente mais largas diferem de obras áticas de Atenas. O cabelo, embora elaborado, segue padrões mais lineares do que os caracóis exuberantes vistos em algumas estátuas do Egeu. Essas particularidades sustentam a hipótese de uma oficina ativa na própria Metropolis, ou pelo menos de um ateliê regional confortável a combinar tendências importadas com gosto local.
Porquê Héstia, e o que isso diz sobre a cidade
A equipa ainda não encontrou uma inscrição que nomeie a divindade. Não subsistem atributos preservados - como lareira, chama ou um bastão específico - associados à cabeça. A identificação proposta como Héstia assenta em indícios estilísticos e, crucialmente, noutro fragmento encontrado anos antes.
No bouleutérion, a casa do conselho onde se reuniam os principais homens da cidade, os arqueólogos tinham descoberto o torso de uma estátua feminina drapeada. Quando especialistas compararam medidas e tipo de mármore, o torso e a nova cabeça coincidiram suficientemente para sugerir que outrora formaram uma única figura, provavelmente sentada.
Se a correspondência se confirmar, Metropolis poderá ter acolhido uma rara estátua em tamanho natural de Héstia presidindo ao seu coração político.
Héstia distingue-se da maioria dos deuses olímpicos. Os mitos antigos raramente a colocavam no centro de narrativas dramáticas. Não recebeu grandes epopeias e aparece pouco na arte narrativa. Ainda assim, todas as cidades gregas mantinham o fogo do seu culto em edifícios públicos, e a sua presença assinalava estabilidade, continuidade e identidade partilhada.
Para uma câmara do conselho, uma estátua de Héstia transmitiria uma mensagem incisiva. A deusa da lareira velava pela “lareira” da cidade: o seu corpo político. Rituais iniciados na sua presença lembrariam aos conselheiros que agiam não apenas por facções concorrentes, mas por uma única comunidade duradoura.
Se a cabeça esteve originalmente no bouleutérion e mais tarde foi parar ao edifício comercial próximo, tornam-se possíveis vários cenários. A estátua pode ter sido desmontada quando o edifício mudou de uso, reutilizada durante uma reconstrução posterior, ou deliberadamente deslocada num período de reforma religiosa ou política. Cada hipótese abre novas questões de investigação sobre como Metropolis negociou mudanças de poder e de identidade ao longo dos períodos helenístico e romano.
Um novo mapa da vida artística em Metropolis
Durante décadas, Metropolis ficou na sombra de vizinhos mais famosos, como Éfeso e Pérgamo. A nova descoberta reforça um argumento crescente: esta cidade do interior manteve uma cena artística mais ambiciosa do que se supunha.
Estudos comparativos com outros sítios da Anatólia mostram que a cabeça não copia simplesmente um protótipo conhecido de Atenas ou das ilhas. Em vez disso, adapta convenções helenísticas amplas ao material e ao gosto locais. Para os arqueólogos, isto é tão relevante quanto a própria identidade da deusa.
Os historiadores de arte veem agora Metropolis como parte de uma densa rede de produção, onde as ideias circulavam através de:
- escultores itinerantes que formavam aprendizes locais,
- patronos de elite que encomendavam estátuas para reforçar o seu estatuto,
- instituições religiosas e cívicas que exigiam imagens ajustadas a narrativas políticas locais.
A localização do achado em contexto comercial também orienta a investigação para uma leitura mais matizada do desenho urbano. A imagética religiosa não se limitava a santuários no topo das colinas. Penetrava em espaços de mercado, salas de reunião e corredores de passagem, projetando mensagens sobre lealdade, lei e memória partilhada em locais onde as pessoas discutiam preços ou pediam ajuda legal.
O que isto significa para a investigação futura sobre cultos antigos
A cabeça de Metropolis contribui para uma reavaliação mais ampla dos “cultos cívicos” no mundo helenístico. Não eram assuntos puramente privados ou espirituais. Moldavam a forma como as cidades se apresentavam aos seus próprios cidadãos e a vizinhos poderosos.
Héstia, com os seus vínculos à lareira e à chama ininterrupta da pólis, oferece um estudo de caso útil. Onde surge em escultura completa, os investigadores podem seguir como as cidades queriam ser vistas: calmas e ordeiras, ou ansiosas e defensivas. Na Anatólia, onde instituições gregas coexistiam com tradições anatólicas mais antigas, essa questão torna-se especialmente incisiva.
| Aspeto | O que a descoberta de Metropolis sugere |
|---|---|
| Religião e economia | A imagética sagrada enquadrava a atividade comercial, sinalizando regras partilhadas e confiança. |
| Produção artística | Oficinas locais adaptavam técnicas do Egeu, em vez de apenas importar peças acabadas. |
| Identidade cívica | Héstia corporizava a unidade numa região politicamente fragmentada. |
Trabalho analítico futuro - como testes isotópicos ao mármore, estudo detalhado dos grampos metálicos e exame microscópico das marcas de cinzel - deverá esclarecer de onde foram extraídos os blocos, que ferramentas os escultores usaram e quão fortemente Metropolis se ligava aos grandes centros artísticos ao longo do Egeu.
Para visitantes e não especialistas, este tipo de investigação oferece mais do que uma nova peça de museu. Mostra como uma única estátua pode funcionar como um arquivo compacto da vida antiga: clima, rotas comerciais, competências laborais, ansiedades políticas e expectativas religiosas. Ver Héstia não apenas como figura mitológica, mas como objeto material produzido, transportado e instalado por pessoas reais, ajuda a construir um retrato mais concreto do que significava, para os seus habitantes, uma cidade “grega” na Anatólia.
A cabeça de Metropolis convida também a refletir sobre como as cidades modernas usam estátuas e arte pública. Tal como os antigos colocavam a sua deusa da lareira junto de espaços de negociação e comércio, as sociedades contemporâneas instalam monumentos em zonas de negócios, parlamentos e praças para projetar valores partilhados ou histórias contestadas. Estudar o rosto de mármore de Héstia, com o seu olhar cuidadosamente preparado, oferece um lembrete discreto de que as imagens no espaço público raramente permanecem neutras, seja no século II a.C. ou hoje.
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