Num húmido manhã de outubro, daquelas em que a respiração fica por instantes suspensa no ar, vi desenrolar-se uma cena familiar numa rua suburbana. Jardineiros com casacos de lã polar, vizinhos com ancinhos, o ronco grave dos sopradores de folhas a ecoar de quintal em quintal. Em menos de uma hora, cada folha dourada, acobreada e cor de ferrugem foi empurrada para sacos de plástico impecáveis, empilhados no passeio como se o outono nunca tivesse acontecido.
Depois o vento aumentou e uma nova camada começou a cair, suave e teimosa, como se as árvores estivessem a dizer com gentileza: “Ficou ali um cantinho por fazer.”
Continuamos a travar a mesma batalha todos os anos.
E talvez estejamos a perder mais do que apenas a paciência.
O ritual de outono que, em silêncio, estraga o seu solo
Passe por qualquer bairro no fim do outono e verá a coreografia anual: soprar, ancinhar, ensacar, repetir. Relvados rapados até ao osso, canteiros limpos a preceito, cada folha tratada como uma sujidade a apagar. Da rua parece arrumado, quase profissional.
Mas, por baixo dessa limpeza de curta duração, o solo fica nu e exposto. Sem cobertura contra a chuva a bater forte, sem manta contra uma geada repentina, sem alimento para os milhões de organismos minúsculos que fazem o trabalho lento e invisível de manter o seu jardim vivo.
Não nos limitamos a “limpar” as folhas.
Despimos o chão da sua armadura.
Uma jardineira com quem falei, a Helena, 62 anos, mantém o relvado da frente impecável há anos. Todos os sábados, de finais de setembro a novembro, passa o soprador em linhas precisas. Ao meio-dia, o relvado está impecável, os sacos cheios, e o passeio alinhado com soldados de papel castanho prontos para a recolha.
No entanto, todas as primaveras ela queixa-se de que o solo está “cansado”. Acrescenta saco atrás de saco de composto comercial, espalha fertilizante, rega constantemente. A relva recupera durante algum tempo, mas os canteiros continuam teimosamente secos e sem vida.
Ela nunca se apercebeu de que aquilo que deita fora todos os outonos é o ingrediente em falta que o seu jardim lhe pede há anos.
Então, o que é que realmente se passa debaixo dessas folhas? A folhagem caída é o sistema de reciclagem da natureza. As folhas estão cheias de nutrientes que as árvores puxaram de profundidade do solo. Deixadas no chão, vão-se decompondo lentamente, alimentando minhocas, fungos e microrganismos que transformam terra seca em húmus rico.
Retire as folhas e o solo perde essa fonte constante de alimento. A chuva bate no terreno nu com força, arrasta partículas finas e compacta o que fica. O sol e o vento sugam a humidade mais depressa. Com o tempo, obtém-se um solo encrostado, sem vida, que precisa de mais rega, mais fertilizante, mais esforço.
Este dano silencioso não aparece de forma dramática de um dia para o outro. Vai-se instalando ao longo dos anos, um outono “limpo” de cada vez.
O que fazer com as folhas em vez de as ensacar
A mudança começa com um gesto diferente: em vez de arrastar todas as folhas para o passeio, redirecione-as. Sim, ancinhe ou sopre as folhas do relvado, mas leve-as para os canteiros, para debaixo de sebes, à volta de arbustos e na base das árvores. Espalhe-as numa manta solta e irregular, com alguns centímetros de espessura.
Se a camada for grossa, passe primeiro com o corta-relva para as triturar. Folhas trituradas decompõem-se mais depressa e têm menos tendência a formar uma camada densa e sufocante. Essa única passagem com o corta-relva transforma “resíduos de jardim” numa das melhores coberturas (mulch) que pode obter gratuitamente.
O relvado continua a respirar.
Os canteiros ganham um edredão de inverno.
Muitos jardineiros preocupam-se em “fazer asneira”, e por isso acabam por enfiar tudo em sacos. Folhas no relvado, fora. Folhas nos canteiros, fora. Depois compram casca triturada na primavera para cobrir exatamente os sítios que acabaram de deixar a descoberto no outono.
Há um caminho mais calmo. Não procure um jardim perfeito, digno de revista. Procure um jardim vivo. Algumas folhas podem ficar debaixo das árvores e em cantos sombrios. Outras podem ser empilhadas de forma solta num canto para se transformarem em composto de folhas, esse material escuro e esfarelado pelo qual os jardineiros pagam bom dinheiro. A natureza não marca a cores onde cada folha deve cair - e você também não precisa de o fazer.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Vai ajustando um pouco a cada fim de semana, e isso chega perfeitamente.
“Cada saco de folhas no passeio é um saco de nutrientes exportados do jardim”, diz a ecóloga do solo Dra. Laura Jenkins. “Se repetir isso ano após ano, o solo passa fome. Depois as pessoas gastam dinheiro a tentar corrigir um problema que criaram em silêncio.”
- Deixe uma camada leve nos canteiros
Espalhe 2–5 cm de folhas à volta de plantas perenes, arbustos e árvores para proteger as raízes e alimentar o solo. - Evite sufocar a relva
Retire tapetes grossos de folhas do relvado ou triture-os com o corta-relva para que a luz e o ar continuem a chegar à relva. - Comece uma pilha simples de folhas
Empilhe o excedente num canto; para o ano terá composto de folhas esfarelado para misturas de envasamento e cobertura do solo. - Evite abafar as coroas das plantas
Afaste as folhas da base de plantas jovens e de zonas baixas e húmidas onde a podridão pode começar. - Dispense a “loucura” barulhenta das limpezas
Trabalhe em sessões curtas, deixe algum “desarrumo” ficar e pense nisso como habitat, não como falha.
Repensar jardins “desarrumados” e o aspeto real de um solo saudável
Quando começa a ver as folhas como um recurso em vez de um incómodo, o outono muda de aspeto. Aquele tapete dourado espesso debaixo do ácer? Cobertura gratuita. A pilha húmida e a colapsar lentamente atrás do barracão? Futuro composto de folhas para sementeiras. O farfalhar de noite debaixo dos arbustos? Um ouriço-cacheiro ou escaravelhos a encontrar abrigo num lugar que não “limpou” em excesso.
Um jardim com algumas folhas espalhadas, canteiros cobertos de forma irregular e uma pilha num canto não fotografa tão bem como um relvado nu e ancinhado. No entanto, esse espaço ligeiramente “imperfeito” retém melhor a humidade, resiste à erosão e acorda mais depressa na primavera com plantas mais saudáveis e menos ervas daninhas.
Não tem de se tornar num jardineiro “selvagem” de um dia para o outro.
Basta decidir, num outono, não repetir o mesmo erro outra vez.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Use folhas como cobertura do solo (mulch) | Espalhe ou triture folhas nos canteiros e à volta das árvores | Alimenta a vida do solo e reduz a necessidade de fertilizantes |
| Proteja o solo, não o deixe a descoberto | Evite deixar o terreno nu exposto durante todo o inverno | Previne compactação, erosão e perda de humidade |
| Comece uma pilha de folhas | Deixe as folhas decompor-se e transformarem-se em composto de folhas ao longo do tempo | Fornece matéria orgânica gratuita e de alta qualidade para o jardim |
FAQ:
- Devo deixar todas as folhas no relvado? Não exatamente. Uma camada fina é aceitável, mas um tapete grosso e húmido pode sufocar a relva. Triture as folhas com o corta-relva ou leve a maioria para os canteiros e à volta das árvores.
- Há folhas de certas árvores que são más para o jardim? Folhas grossas e coriáceas, como as do carvalho ou da magnólia, decompõem-se lentamente. Continuam a ser úteis, mas é melhor triturá-las primeiro ou colocá-las numa pilha de folhas para acelerarem a decomposição.
- As folhas vão atrair pragas se as deixar? As folhas atraem vida, incluindo insetos e pequenos animais. A maioria é benéfica. Afaste ligeiramente as folhas das fundações da casa e das coroas das plantas para evitar problemas.
- Posso usar folhas em vasos e floreiras? Sim, mas misture-as. Use composto de folhas bem triturado misturado com composto e substrato de envasamento, em vez de folhas inteiras cruas, que podem compactar e manter-se demasiado húmidas.
- Quanto tempo demora uma pilha de folhas a transformar-se em composto de folhas? Normalmente 6–18 meses, dependendo do clima e de virar ou não a pilha. Mesmo folhas parcialmente decompostas continuam a ser uma cobertura útil para canteiros e caminhos.
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