Às vezes a conta da luz sobe sem que tenha comprado nada novo. A rotina é a mesma - mas o horário não perdoa. Em muitas casas, os consumos mais pesados concentram-se entre o fim da tarde e o início da noite, precisamente quando a eletricidade tende a ser mais cara em tarifas com discriminação horária (bi-horária/tri-horária).
A diferença raramente está no “quê”. Está no quando.
Porque é que o seu horário lhe custa dinheiro
Entre as 18h e as 22h, muita gente faz tudo ao mesmo tempo: cozinhar, banhos, lavagens, aquecimento. É também quando a rede está mais carregada - e, em muitos tarifários, é quando paga mais por cada kWh.
Em Portugal, isto aparece de forma prática na fatura/contrato:
- Tarifa simples: o preço por kWh é igual o dia todo (o horário importa menos, mas o total e os picos simultâneos continuam a contar).
- Bi-horária: há vazio (mais barato) e fora de vazio (mais caro).
- Tri-horária: há vazio, cheias e ponta (normalmente a mais cara).
As horas exatas variam por comercializador e “ciclo” (diário/semanal). Regra útil: o período mais caro costuma coincidir com o início da noite; o mais barato, com noite/madrugada e, nalguns ciclos, também fins de semana/feriados.
O impacto vem dos aparelhos “pesados” (muita potência e/ou muito tempo):
- Secador de roupa, forno, aquecedores elétricos, termoacumulador e, em algumas casas, carregamento do carro.
- Uma máquina que puxa 2 kW durante 1 hora gasta 2 kWh. Se o kWh estiver bastante mais caro na ponta, o mesmo ciclo pode custar quase o dobro - e a diferença repete-se dezenas de vezes no inverno.
Dois erros comuns que fazem a conta parecer “injusta”:
- Confundir eficiência com horário: ter eletrodomésticos eficientes ajuda, mas não anula um uso sistemático em ponta.
- Ignorar a potência contratada: mudar horários pode não baixar o termo fixo, mas pode permitir reduzir a potência (se evitar ter vários “pesados” ligados ao mesmo tempo), o que baixa a parcela fixa mensal.
Como mudar o jogo sem alarido
O objetivo não é viver à volta do contador. É mudar 1–3 hábitos com maior peso, com o mínimo de fricção.
Comece pelo mais simples: deslocar os ciclos longos.
- Máquina da loiça e da roupa: use o início diferido para arrancar em vazio (por exemplo, depois de se deitar).
- Termoacumulador: se tiver relógio/temporizador, aqueça mais em vazio e evite aquecer “em cima do jantar”. (Sem entrar em paranoia: mantenha definições seguras e siga o manual do equipamento.)
- Aquecimento elétrico: se for inevitável, tente pré-aquecer um pouco antes do pico e reduzir durante a ponta. Em casas mal isoladas, isto tem limites - mas muitas vezes ainda ajuda.
Antes de mexer em rotinas, confirme as “regras do seu jogo” em 10 minutos:
- Veja na fatura/área de cliente se está em simples, bi-horária ou tri-horária e quais são as faixas.
- Se tiver dúvidas, ligue ao apoio e peça as horas “ponta/cheias/vazio” do seu contrato (podem mudar com o plano).
Realismo: nem tudo dá para mudar. Uniformes, turnos, vizinhos, barulho. Nesses casos, procure o meio-termo:
- Faça em vazio as lavagens que não são urgentes (toalhas, roupa de cama).
- Cozinhe em lote quando fizer sentido para si, para não ligar o forno todos os dias à mesma hora.
- Se vive em apartamento, prefira fim de noite (menos ruído) em vez de madrugada profunda.
Segurança (especialmente à noite): evite extensões sobrecarregadas, mantenha filtros limpos (secador/exaustor), e não deixe aparelhos com histórico de avarias a trabalhar sem supervisão. Se algo cheira a queimado, desliga e resolve - poupança nenhuma compensa risco.
- Escolha primeiro um eletrodoméstico pesado para deslocar (máquina da loiça ou máquina da roupa).
- Use temporizadores/início diferido para não ter de “estar lá” à hora certa.
- Reavalie o plano ao fim de 12 meses (e sempre que a casa/rotina mudar).
Uma forma diferente de olhar para o relógio
Quando começa a separar o dia em “horas caras” e “horas baratas”, a casa fica mais previsível: não é culpa, é padrão. E a melhor parte é que não exige domótica nem gadgets - exige só saber quais são as suas faixas e escolher onde faz mais diferença.
Pense assim: a rede sente mais os picos coletivos (toda a gente a cozinhar e aquecer ao mesmo tempo). Ao empurrar 1–2 consumos grandes para fora desse pico, normalmente reduz a fatura sem mudar de vida - só muda o timing.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Identificar horas de ponta / vazio | Confirmar na fatura/contrato as faixas (simples, bi-horária, tri-horária) | Poupar sem trocar de aparelhos |
| Deslocar os aparelhos mais pesados | Início diferido na loiça/roupa; temporizador no termoacumulador quando existir | Cortar custos com pouco esforço diário |
| Ajustar 1–2 rituais | Evitar forno/aquecimento elétrico na ponta quando der; reduzir simultaneidade | Mais impacto no inverno e em casas elétricas |
FAQ
- Como sei se tenho uma tarifa por horário? Veja a fatura/contrato: se existir “vazio/ponta/cheias” (ou “bi-horária/tri-horária”), tem preços por período. Se só houver um preço por kWh, é tarifa simples.
- É mesmo seguro usar eletrodomésticos durante a noite? Em geral pode ser, desde que os equipamentos estejam em bom estado e instalados corretamente. Evite extensões e tomadas sobrecarregadas, limpe filtros (secador/exaustor) e não “arrisque” com aparelhos que já deram problemas.
- Que aparelhos custam mais quando usados à hora errada? Aquecimento elétrico, secador, forno/placa, termoacumulador e carregamento de veículo elétrico tendem a ter maior impacto.
- Posso poupar dinheiro se tiver uma tarifa de preço fixo (simples)? Sim: reduzindo consumo total e, sobretudo, evitando muitos aparelhos grandes ao mesmo tempo (pode até permitir baixar a potência contratada).
- Vale a pena mudar de tarifa só por causa do horário? Muitas vezes vale se conseguir deslocar vários consumos para vazio (ou se usa muito à noite/fins de semana). Compare planos com base na sua rotina real - não no desconto do primeiro mês.
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