Para quase uma década, peregrinos acorreram a uma casa perto de Roma, convencidos de que estavam a testemunhar milagres. Agora, laboratórios forenses e procuradores analisam amostras de ADN recolhidas de estrias carmesins no rosto da estátua, tentando perceber se se trata de um caso de intervenção divina ou de uma mistificação cuidadosamente encenada.
Uma estátua itinerante e uma “vidente” em ascensão
A história começa em Medjugorje, um local de peregrinação na Bósnia-Herzegovina famoso por relatos de aparições marianas desde a década de 1980. Ali, a italiana Gisella Cardia comprou uma estátua da Virgem Maria. Mais tarde, levou-a para Itália e por várias partes da Europa, apresentando-a como ponto focal para encontros de oração e alegadas visões.
Por volta de 2014, a estátua encontrou uma casa semi-permanente em Trevignano Romano, uma vila junto a um lago a cerca de uma hora de Roma. Habitantes e visitantes começaram a partilhar histórias. Segundo Cardia, a Virgem Maria falava com ela, transmitindo mensagens urgentes e profecias sobre o futuro.
As alegações não ficaram pelas visões. Cardia disse que a estátua, por vezes, derramava lágrimas de sangue. Descreveu também episódios em que comida se multiplicava durante encontros, ecoando narrativas evangélicas. A notícia espalhou-se rapidamente. Chegaram autocarros cheios de peregrinos. As redes sociais ajudaram a difundir cada nova mensagem e cada suposto sinal.
O que começou como uma devoção privada num jardim familiar transformou-se num mini-local de peregrinação, atraindo multidões e doações.
Da devoção à investigação
À medida que a afluência aumentava, aumentava também o escrutínio. Responsáveis locais da Igreja na Diocese de Civita Castellana observavam com inquietação. A Igreja Católica é cautelosa perante alegadas aparições, levando muitas vezes anos antes de emitir qualquer juízo.
Neste caso, a hierarquia levantou dúvidas relativamente cedo. O grande número de “mensagens”, o tom apocalíptico de algumas profecias e a dimensão financeira dos encontros suscitaram preocupação. Acabou por a Igreja Católica na região denunciar o que considerou uma provável fraude.
Ao mesmo tempo, procuradores italianos em Civitavecchia abriram uma investigação por possível burla. A suspeita central: que a estátua a sangrar não era um prodígio sobrenatural, mas um truque encenado para reforçar o estatuto de Cardia como visionária e incentivar doações dos fiéis.
Primeiras suspeitas sobre o sangue
Verificações iniciais e informais terão levantado uma possibilidade impressionante: a de que o líquido vermelho que escorria da estátua era sangue animal, potencialmente sangue de porco. Essa alegação, se confirmada, apontaria claramente para intervenção humana.
No entanto, o trabalho laboratorial mais recente traçou um quadro muito diferente. Segundo notícias na imprensa italiana, incluindo o Corriere della Sera, testes mais extensos na Universidade de Tor Vergata, perto de Roma, indicaram que a substância é sangue humano e, especificamente, feminino.
A análise forense sugere que o sangue é humano e feminino, contradizendo de forma contundente a teoria de que teria sido usado sangue de porco.
Testes de ADN e uma correspondência genética
A investigação passou agora da simples tipagem sanguínea para uma análise de ADN mais detalhada. Um geneticista forense foi incumbido de comparar o perfil genético do sangue da estátua com amostras recolhidas da própria Gisella Cardia.
Segundo informação preliminar divulgada à imprensa, o perfil genético recolhido da estátua é “perfeitamente sobreponível” ao de Cardia. Em linguagem simples, o ADN parece corresponder ao dela.
Espera-se que os procuradores recebam o relatório completo de ADN a 28 de fevereiro. Esse documento poderá determinar se avançam formalmente acusações criminais.
O que os investigadores procuram
Dois cenários interessam aos investigadores:
- Um perfil único e claro: se a amostra de ADN da estátua apresentar um perfil único e consistente que corresponda ao de Cardia, a conclusão seria direta: o sangue quase de certeza terá vindo dela.
- Um perfil misto: se a amostra contiver ADN misto, incluindo mas não limitado ao de Cardia, o quadro torna-se mais complexo. Continuaria a indicar contacto, mas poderia apontar para manuseamento, contaminação ou a presença de material biológico de mais do que uma pessoa.
Em ambos os casos, os procuradores farão a mesma pergunta: Cardia terá provocado ou permitido conscientemente que a estátua fosse manchada com sangue enquanto afirmava tratar-se de um milagre, com intenção de obter ganho financeiro?
Se o ADN for exclusivamente dela, o caso passa de mistério a potencial burla assente numa assinatura biológica rastreável.
Um processo judicial construído entre fé e ciência
As acusações em análise enquadram-se no crime de burla, uma infração grave ao abrigo do direito italiano. Para provar burla, a acusação tem de demonstrar engano intencional para obter benefício material. Isso pode incluir doações, venda de objetos religiosos ou receitas de peregrinações organizadas diretamente ligadas aos alegados milagres.
A Itália já viu casos semelhantes. Estátuas que vertem óleo, imagens de santos que parecem mover-se e visionários que atraem grandes seguidores já, por vezes, chamaram a atenção dos procuradores. Por vezes, os fenómenos nunca são totalmente explicados. Noutros casos, testes científicos revelam substâncias comuns e mecanismos ocultos.
Para os investigadores, a crença religiosa não está em julgamento. O foco é, antes, saber se os crentes foram deliberadamente enganados através de sinais fabricados.
A defesa: “animada por uma fé profunda”
A advogada de Cardia, Solange Marchignoli, tem sublinhado publicamente que a sua cliente permanece tranquila e espiritualmente centrada durante a investigação. Diz que Cardia continua a rezar, embora não tenha revelado onde.
Marchignoli descreve a sua cliente como uma mulher de “fé profunda”, com um estilo de vida modesto e sem nada a ganhar financeiramente ao encenar milagres. Defende que nenhuma pessoa racional arriscaria um escândalo destes sem uma convicção religiosa poderosa.
A defesa apresenta Cardia não como uma intrigante, mas como uma crente cuja vida não faz sentido sem as visões que afirma ter.
Porque é que sangue e ADN têm tanto peso
Estátuas religiosas que parecem sangrar desencadeiam reações fortes porque o sangue tem um significado simbólico intenso no cristianismo. Evoca sacrifício, sofrimento e redenção. Lágrimas de sangue numa estátua mariana tornam-se facilmente um sinal poderoso para quem procura consolo ou aviso.
Do ponto de vista científico, o sangue também é carregado de significado, mas por razões diferentes. Cada gota transporta uma impressão digital genética. Os laboratórios conseguem determinar espécie, sexo e um perfil de ADN com elevado grau de certeza, usando técnicas forenses padrão semelhantes às usadas em casos criminais de agressões ou acidentes.
| Aspeto | Significado religioso | Significado científico |
|---|---|---|
| Sangue | Símbolo de sacrifício e graça | Fluido biológico com ADN e marcadores |
| Lágrimas | Sinal de tristeza e compaixão | Mistura de água, sais e proteínas |
| Estátua | Objeto de veneração | Material poroso ou não poroso que pode reter vestígios |
Este choque entre símbolo espiritual e prova forense é precisamente o que torna o caso de Trevignano tão explosivo. Muitos crentes veem os relatórios laboratoriais como falhando o essencial; as autoridades seculares veem-nos como o caminho mais claro para a verdade.
Como funciona a análise forense de ADN nestes casos
Em casos de suspeita de burla religiosa, os investigadores seguem geralmente os mesmos passos que seguiriam com qualquer amostra biológica:
- Recolha: zaragatoas passadas na superfície da estátua, tanto no sangue visível como em áreas adjacentes às manchas.
- Preservação: as amostras são guardadas para evitar degradação, contaminação ou manipulação, normalmente em recipientes selados e rotulados.
- Extração: o ADN é extraído das células sanguíneas e purificado, isolando o material genético.
- Perfil genético: são analisados segmentos curtos específicos de ADN (STRs) para gerar um perfil numérico e gráfico.
- Comparação: esse perfil é comparado com amostras de referência, como uma zaragatoa da mucosa bucal do suspeito.
Em contexto judicial, a documentação da cadeia de custódia é crítica. Advogados de defesa escrutinam frequentemente cada etapa, à procura de qualquer falha que possa pôr em causa as conclusões.
Fé, dúvida e o impacto nos crentes
Histórias como esta raramente ficam confinadas a uma única vila italiana. Vídeos das alegadas lágrimas da estátua circulam online. Profecias são traduzidas e partilhadas em grupos de devoção por todo o mundo. Para alguns seguidores, o caso já reforçou a crença de que Maria está a enviar mensagens urgentes.
Para outros, a evidência emergente de ADN abalou a confiança. Podem sentir-se envergonhados por terem gasto dinheiro em viagens ou doações. Alguns continuam a apoiar Cardia, argumentando que, mesmo que o sangue dela esteja presente, isso poderia ainda fazer parte de um sofrimento misterioso e partilhado com a Virgem.
O mesmo resultado laboratorial que parece incriminador para um procurador pode, para um crente convicto, ser reinterpretado como mais um sinal de identificação mística com a paixão de Cristo.
Compreender termos-chave e o que poderá acontecer a seguir
Alguns termos técnicos e religiosos merecem ser esclarecidos:
- Aparição: relato de manifestação de uma figura santa, como a Virgem Maria, muitas vezes acompanhada de mensagens ou pedidos de oração.
- Burla: em termos legais, engano intencional destinado a obter ganho injusto ou ilícito, financeiro ou outro.
- Perfil genético: conjunto de marcadores de ADN usados para identificar um indivíduo com elevada probabilidade, semelhante a um código de barras genético.
Se os procuradores confirmarem uma correspondência única entre o sangue da estátua e Cardia, poderão avançar para julgamento. As testemunhas poderão incluir antigos seguidores, doadores, cientistas e representantes da Igreja. O tribunal analisaria não só a ciência, mas também registos financeiros, a comunicação em torno dos alegados milagres e o momento de doações ou vendas.
Um perfil de ADN misto, por outro lado, poderá levar a testes adicionais. Os investigadores poderão procurar luvas, panos ou recipientes usados em cerimónias. Poderão também analisar imagens de encontros de oração à procura de sinais de contacto com a estátua.
Para peregrinos que considerem visitar locais de alegados milagres, este caso oferece algumas lições práticas. Verificar se as autoridades eclesiásticas locais reconhecem o local - ou se alertam contra ele - pode ajudar a gerir expectativas. Fazer perguntas básicas - quem gere as doações, quem controla as mensagens, como são verificados os relatos - também pode proteger contra danos emocionais e financeiros.
Ao mesmo tempo, para muitos crentes, alegações extraordinárias estão entranhadas na vida espiritual. A tensão entre anseio espiritual e escrutínio racional dificilmente desaparecerá, mesmo enquanto as máquinas de ADN continuam a transformar mistérios religiosos em pontos de dados mensuráveis.
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