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Mesmo aumentando o aquecimento, continuava com frio: especialistas explicam este problema comum em casa.

Mulher segurando dispositivo digital perto de vela acesa e chávena na janela.

A terceira vez que fui descalço até ao termóstato, já passava da meia-noite e o ecrã brilhava a 24°C. Os radiadores zumbiam, o contador de gás girava, e ainda assim os meus dedos pareciam gelo. A sala parecia acolhedora no Instagram, com velas acesas e uma manta grossa de malha. A realidade: eu encolhido debaixo de duas mantas, a perguntar-me se estava a ficar doente ou a ir à falência a aquecer a rua.

Algures entre a corrente de ar por baixo da porta de entrada e a janela que nunca fecha bem, o calor estava a escapar-se. Eu carregava mais um grau no termóstato e esperava, como num ritual moderno estranho.

A casa continuava teimosamente fria.

Os especialistas dizem que esta cena é muito mais comum do que pensamos.

Porque é que a sua casa parece fria mesmo com o aquecimento a bombar

A primeira coisa surpreendente que os especialistas dizem é esta: se continua a aumentar a temperatura e mesmo assim sente frio, o termóstato provavelmente não é o vilão. Os verdadeiros culpados são, muitas vezes, silenciosos e invisíveis - pequenas fugas de ar, paredes mal isoladas, um radiador mal colocado, um filtro entupido. O seu corpo não quer saber do que o termóstato diz. Quer saber do que sente na pele e da rapidez com que o ar quente desaparece.

Acaba a pagar para aquecer a vizinhança, enquanto os seus pés ficam dormentes nos mosaicos. É um pouco como atirar moedas pela janela a cada clique reconfortante da caldeira.

A consultora de energia Laura Mendes vê esta mesma cena casa após casa. Conta-me o caso de uma família numa moradia geminada dos anos 90 que mantinha o termóstato nos 23°C todo o inverno. A fatura? Quase 40% mais alta do que a de casas semelhantes na mesma rua. E, ainda assim, as crianças queixavam-se de que estava “gelado” na sala às 20h.

Quando a Laura percorreu a casa com a câmara térmica, as imagens foram brutais. Grandes manchas azuis à volta das janelas. Uma zona fria mesmo atrás do sofá, onde faltava isolamento. O aro da porta de entrada era praticamente um túnel de vento. “Não tem frio porque o seu aquecimento é fraco”, disse-lhes. “Tem frio porque a sua casa perde calor mais depressa do que o consegue comprar.”

O que está a acontecer é física simples disfarçada de frustração. O ar quente move-se naturalmente para zonas mais frias. Se as paredes, o telhado ou as janelas estão mal isolados, sugam o calor como uma esponja. Correntes de ar por baixo das portas ou através de fechaduras criam pequenas correntes que arrefecem a pele, mesmo que o termóstato marque 22°C.

O seu corpo também reage às superfícies à sua volta. Sentar-se junto a uma janela fria faz com que sinta frio, mesmo numa divisão “quente”. Os especialistas chamam-lhe temperatura radiante média. Você chama-lhe “porque é que estou a gelar com o aquecimento ligado?”. Dois nomes para o mesmo incómodo.

O que é que os especialistas fazem primeiro quando uma casa está sempre fria

Quando os profissionais visitam uma casa “fria”, raramente começam por mexer no termóstato. O primeiro passo é quase sempre uma volta lenta pela casa, com a mão estendida, a sentir correntes de ar ao longo dos rodapés, caixilhos das janelas, tomadas e portas. Um lenço de papel ou a chama de uma vela podem revelar movimentos de ar sorrateiros que os olhos não veem.

Muitas vezes sugerem um ritual simples: antes de aumentar o aquecimento, faça um “check” de cinco minutos. Feche as portas interiores, puxe as cortinas à noite, abra-as para o sol de manhã e bloqueie correntes de ar óbvias com fitas ou vedantes simples. Depois deixe o aquecimento fazer o seu trabalho com uma temperatura estável, em vez de andar em sobe-e-desce.

As pessoas também subestimam o quanto a mobília pode sabotar um sistema de aquecimento inteiro. Sofá encostado ao radiador? Cortinas compridas a tapar um aquecedor? Uma estante grande a esconder um convetor? É basicamente como pôr uma almofada sobre a “boca” do aquecimento. O ar não circula e a divisão nunca fica uniformemente quente.

O canalizador e técnico de aquecimento Tom Riley diz-me que muitas vezes basta afastar um sofá 20 centímetros para ouvir: “Uau, já está mais quente.” Sem caldeira nova, sem investimento gigante. Só deixar o ar quente chegar até si, em vez de ficar preso atrás de tecido e madeira.

Sejamos honestos: ninguém purga os radiadores ou limpa os filtros da bomba de calor todos os meses. E, no entanto, essas tarefas pouco glamorosas são precisamente as que os especialistas insistem em fazer. Ar preso num radiador significa que ele nunca aquece totalmente na parte de cima, e por isso aumenta o termóstato para compensar. Um filtro entupido numa bomba de calor faz com que ela trabalhe mais, consuma mais eletricidade e continue a soprar ar morno.

“As pessoas chamam-me convencidas de que a caldeira está a morrer”, diz o Tom. “Metade das vezes, eu purgo os radiadores, faço o balanceamento como deve ser, e de repente o mesmo sistema parece outra casa.”

  • Sele as correntes de ar óbvias: parte inferior das portas, caixilhos das janelas, caixa do correio, fechaduras.
  • Desobstrua os radiadores: nada de mobília à frente, nada de cortinas pesadas por cima.
  • Purge e faça o balanceamento dos radiadores no início da época.
  • Use cortinas grossas à noite e deixe entrar a luz solar durante o dia.
  • Mantenha uma temperatura estável e moderada, em vez de picos constantes no termóstato.

Repensar o “calor” em casa, para lá do número no termóstato

Quando repara nisto, deixa de conseguir “desver”: o conforto térmico em casa é uma mistura de física, hábitos e um pouco de psicologia. Perseguimos um número na parede, mas o que realmente importa é como o corpo vive o espaço. Corrente de ar no pescoço, chão frio debaixo dos pés, vidro que arrefece o lado do rosto quando está no sofá. Estes microdetalhes decidem se pega noutro camisola ou volta a carregar no termóstato.

Os especialistas concordam discretamente com uma verdade estranha: muitas casas não precisam de mais potência, precisam de mais inteligência na forma como essa potência é usada - e mantida lá dentro.

Isso também significa que a solução é muitas vezes mais acessível do que comprar uma caldeira nova. Isolar a escotilha do sótão, pôr um tapete num chão frio, arranjar aquela janela que nunca fecha bem, programar o aquecimento para subir antes de acordar em vez de o “martelar” às 7 da manhã com os dentes a bater. Nada disto fica impressionante nas redes sociais. Só funciona em segundo plano, todos os dias de inverno.

Todos já passámos por aquele momento em que ficamos no corredor, indecisos entre aumentar o aquecimento ou calçar meias mais grossas, a pensar porque é que estar quente se tornou um pequeno puzzle da vida.

Por isso, talvez da próxima vez que os dedos fiquem dormentes e o seu reflexo seja carregar no botão do termóstato, faça uma pausa. Ouça o assobio fraco de uma corrente de ar, passe a mão pela parede, repare naquela cadeira a bloquear o único radiador da divisão. Pergunte: estou mesmo com frio por causa da temperatura… ou porque o calor se está a escapar de mim?

Algumas pessoas começam por uma auditoria energética; outras, com um rolo de fita vedante e um acessório barato de câmara térmica para o telemóvel. De qualquer forma, quando muda o foco de “mais calor” para menos perdas, a sua casa muda lentamente de personalidade. Mais silenciosa, mais suave, mais previsível. Talvez esse seja o verdadeiro luxo - não uma caldeira maior, mas uma casa que finalmente aprende a guardar o calor por que já está a pagar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Pare de sobreaquecer Definições estáveis e moderadas reduzem o consumo de energia e tornam as divisões mais confortáveis Faturas mais baixas e menos oscilações de temperatura
Caçe as correntes de ar Vede folgas à volta de portas, janelas, pisos e tomadas Melhoria imediata do conforto com custo mínimo
Deixe o calor circular Desobstrua os radiadores, purgue-os e faça o balanceamento do sistema O aquecimento existente funciona melhor sem atualizações caras

FAQ:

  • Porque é que eu sinto frio a 22°C enquanto outros estão bem? O seu corpo reage não só à temperatura do ar, mas também a correntes de ar, humidade e superfícies frias. Se as paredes ou janelas estiverem frias, ou se o ar se mover sobre a sua pele, vai sentir mais frio do que o valor indicado no termóstato sugere.
  • Fica mais barato deixar o aquecimento ligado no mínimo o dia todo ou ligar e desligar? Os especialistas tendem a preferir aquecimento estável e bem temporizado com programador. Deixar a casa arrefecer completamente e voltar a aquecê-la do zero pode gastar mais energia, sobretudo em casas mal isoladas.
  • Os meus radiadores estão quentes mas a divisão continua fria. Porquê? Radiadores quentes com uma divisão fria geralmente significa que o calor está a ser bloqueado ou perdido. Verifique se há mobília à frente dos aquecedores, cortinas compridas, correntes de ar ou falta de isolamento à volta de janelas e paredes.
  • Os termóstatos inteligentes ajudam mesmo a deixar de sentir frio? Podem ajudar, ao aprenderem a sua rotina e ao pré-aquecerem as divisões antes de as usar. A verdadeira “magia” surge quando são combinados com melhor isolamento e bons hábitos em casa.
  • Qual é o primeiro passo barato a dar se a minha casa está sempre fria? Comece por uma “caça às correntes de ar” e vede as folgas óbvias; depois purge os radiadores e liberte-os de obstáculos. Estes três passos costumam trazer um aumento notório de conforto por muito pouco dinheiro.

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