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Indignação: em fevereiro, observadores de aves usam iscos baratos para atrair bandos diariamente, enquanto críticos dizem que viciam a vida selvagem e prejudicam as migrações.

Mulher alimenta pardais com sementes na mão, perto de caixa de correio, numa rua residencial.

O primeiro som que se ouve é o bater de asas. Não é um par de asas, mas dezenas, a chicotear o ar frio de fevereiro até formar um rugido suave por cima do fundo de saco.
Num subúrbio sossegado onde, normalmente, nada se move mais depressa do que o camião do lixo, o céu, de repente, fervilha com estorninhos, pombos e gaivotas a cortar o cinzento.

No centro de tudo está um homem de gorro de lã, a agitar um balde de plástico como um vendedor de rua.
Atira punhado após punhado de uma mistura de sementes baratíssima e pão branco ressequido, e as aves mergulham, amontoando-se umas sobre as outras num redemoinho frenético de bicadas.

No passeio do outro lado da rua, uma mulher puxa o cão para mais perto e tira o telemóvel para filmar.
Tem a mandíbula tensa, os olhos cheios de raiva.

Isto não é “dar de comer aos pássaros”, diz ela. Isto é um ritual diário de dependência.

Quando petiscos baratos transformam uma rua tranquila num circo diário de vida selvagem

No fim do inverno, muitos jardins e parques urbanos do Hemisfério Norte entram no mesmo ritmo estranho.
Todos os dias, normalmente às mesmas horas, bandos descem como um relógio, guiados pela memória, pela fome e pela promessa de calorias fáceis fornecidas por humanos.

Os petiscos são quase sempre os mesmos: “mistura para aves silvestres” económica, carregada de milho partido e enchimentos, sementes de girassol de promoção, restos de batatas fritas de fast-food e pão rasgado em pedacinhos chiantes.
Para quem os espalha, há uma satisfação profunda e simples em ver a vida a encher de repente o ar vazio.

Os vizinhos descrevem-no como um espetáculo, um show sazonal a substituir o silêncio deprimente do inverno antes da primavera.
O problema é que o show já não é realmente sazonal.
É diário.

Pergunte a quem vive debaixo destas rotas de voo de fevereiro e vão mostrar-lhe provas nos carros, nos pátios e nos estendais.
Um residente numa cidade britânica de média dimensão contou mais de 300 gaivotas e pombos a aparecerem todas as tardes, poucos minutos depois de um reformado local assobiar e despejar ração com desconto atrás de um supermercado.

Outro, no Meio-Oeste americano, partilhou vídeos de graúnas e estorninhos a formar nuvens apertadas e rodopiantes por cima de um único quintal, e depois a cobrirem a relva como um lençol negro em movimento.
O homem por trás dos sacos de sementes insiste que está a “ajudar a natureza nos meses frios”.
Os vizinhos chamam a polícia, o jornal local, a linha de apoio à vida selvagem.

As chamadas contam todas a mesma história: aves a chegar mais cedo todos os anos, a ficar por mais tempo e a ignorar fontes de alimento nativas em favor do buffet garantido.
Almoço grátis muda hábitos depressa.

Biólogos a observar estas cenas veem algo menos inocente do que uma mesa de alimentação tradicional.
Veem alterações no calendário migratório, concentrações enormes de aves onde antes raramente se juntavam e um ciclo de dependência que pode desregular padrões sazonais frágeis.

Aves que já deveriam estar a seguir para as zonas de reprodução ficam por dias ou semanas, a apostar no próximo saco de ração.
Os predadores também aprendem o horário: gaviões e raposas passam pelos mesmos locais como quem verifica o horário de funcionamento.

Há ainda a doença.
Bandos grandes e densos, aos empurrões por comida de baixa qualidade, são motores perfeitos para parasitas e infeções que podem viajar muito para além daquela rua calma de fevereiro.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem mudar as aves.

Como alimentar aves sem as transformar em dependentes de sementes

As organizações de conservação não dizem “parem de alimentar as aves” de forma categórica.
Dizem: façam-no como alguém que respeita um animal selvagem, e não como alguém que gere uma cadeia de fast-food no quintal.

Isso começa pelo tempo.
Em vez de despejar montes de comida barata à mesma hora todos os dias, os especialistas sugerem ofertas menores e irregulares, que apoiem as aves em períodos difíceis sem prenderem o relógio interno delas ao seu.
Pense nisto como um suplemento, não como um salário.

A qualidade importa mais do que a quantidade.
Sementes adequadas às espécies, frutos secos sem sal, bolas de gordura sem redes de plástico e nada de lixo processado reduzem o efeito de “dependência”, mantendo um apoio importante no inverno.
Alimentar deve parecer uma conversa com a natureza, não uma forma de a dobrar à sua rotina.

A segunda grande mudança é o local e a escala.
Espalhar comida em passeios, parques de estacionamento ou relvados abertos convida à superlotação, ao conflito e a guerras entre vizinhos.
Comedouros bem colocados, espaçados e limpos com regularidade, incentivam grupos menores e comportamentos mais naturais.

Muita gente escorrega para o papel de herói diário da alimentação das aves sem reparar no quanto isto cresceu.
Compra sacos cada vez mais baratos para aguentar o ritmo, ignora o bolor nos cantos do comedouro, encolhe os ombros perante bandos cada vez maiores.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que algo que começou como um hábito querido se transforma discretamente numa rotina que sentimos que não conseguimos parar.
A culpa aparece quando falhamos um dia.
Esse é, muitas vezes, o sinal de que as aves - e você - já não estão num ritmo saudável.

Um ecólogo urbano com quem falei disse-o sem rodeios: “Se as aves alteram o calendário migratório porque você está a atirar ração com desconto todas as tardes, você não é apenas um amante de aves. Você é um pequeno engenheiro de ecossistemas, não regulamentado.”

É aqui que algumas regras simples e práticas podem mudar o quadro inteiro, da polémica para o cuidado.
Em vez de tratar as aves como animais de estimação com penas à espera da sua dose, pense em limites e estações.

  • Dê quantidades menores que as aves consigam terminar depressa, para que as sobras não apodreçam nem atraiam pragas.
  • Use alimento de qualidade média, adequado às espécies, em vez de misturas baratíssimas cheias de enchimentos.
  • Varie os horários e faça pequenas pausas para que as aves continuem a procurar alimento naturalmente.
  • Limpe comedouros e áreas no chão com regularidade para limitar a propagação de doenças.
  • Coordene-se com os vizinhos: um ou dois pontos bem geridos valem mais do que cinco buffets caóticos.

A linha ténue entre gentileza e controlo

Por trás das publicações zangadas nos grupos de WhatsApp do bairro e das manchetes indignadas locais, há algo mais humano a acontecer, discretamente, em segundo plano.
As pessoas alimentam aves no fim do inverno porque isso as faz sentir menos sós numa estação em que tudo o resto parece dormente e cinzento.

Para idosos, trabalhadores por turnos, pais presos em casa, aqueles bandos são um lembrete vivo e em movimento de que o mundo ainda está lá fora, a respirar.
Há uma razão para os sacos de ração barata venderem tão bem logo depois das festas, quando as carteiras estão mais magras e o ânimo mais baixo.
Um punhado de sementes é uma forma acessível de chamar beleza à sua janela.

O problema começa quando esse desejo de contacto inclina para o controlo.
Quando chamamos essas aves todos os dias e esperamos que apareçam “a horas”, passamos de partilhar a paisagem com elas para a programarmos.
É aí que a indignação cresce - e onde mudanças cuidadosas e modestas poderiam aliviar ambos os lados da rua.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Rotinas remodelam a migração A alimentação diária e previsível pode atrasar partidas e concentrar bandos de forma pouco natural Ajuda a perceber como o seu hábito pode afetar a vida selvagem para lá do seu quintal
Qualidade acima de quantidade Melhor comida, menores quantidades e comedouros limpos apoiam as aves sem criar dependência Permite continuar a apreciar as aves, reduzindo riscos para a saúde e o comportamento delas
A comunidade importa Falar com os vizinhos e alinhar práticas de alimentação evita conflitos e bandos enormes e ruidosos Protege as relações e o ambiente local ao mesmo tempo

FAQ:

  • Pergunta 1 Os petiscos baratos para aves são mesmo “viciantes” para a vida selvagem, ou isso é exagero?
  • Pergunta 2 Alimentar aves em fevereiro pode mesmo alterar as rotas migratórias a longo prazo?
  • Pergunta 3 Qual é uma forma mais segura de apoiar as aves no fim do inverno sem causar problemas?
  • Pergunta 4 O que devo fazer se um vizinho estiver a chamar bandos todos os dias e a situação parecer fora de controlo?
  • Pergunta 5 É melhor parar de alimentar as aves por completo quando a primavera chega?

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