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Indignação ao Lidl por lucrar com aprovação de Martin Lewis em novo aparelho de inverno, podendo prejudicar clientes fiéis e concorrentes em dificuldades.

Mulher numa loja segura uma caixa de produto, ao lado de um monitor, com sinais de promoções nas prateleiras.

Na tarde cinzenta de uma terça-feira de novembro, a fila num Lidl dos subúrbios avança naquele passo desajeitado. Toda a gente enfiada em casacos acolchoados baratos, a segurar cestos com feijão de marca própria e legumes em promoção. Depois, um murmúrio percorre a fila quando alguém o avista no corredor do meio: um aparelho branco e quadradão que promete “cortar as contas do aquecimento” e exibe, com orgulho, uma citação de Martin Lewis na embalagem. Uma mulher na casa dos 60 inclina-se, semicerrar os olhos para a etiqueta do preço e suspira. “Bem, se o Martin diz que é bom, então deve ser”, resmunga - e lá vai para o carrinho.

Dois lugares atrás, um tipo mais novo abre a app do banco, fixa o saldo e afasta-se discretamente do expositor. Em vez disso, pega num pão de 39 pence. É aqui que a nova guerra da energia está mesmo a acontecer: no corredor três, debaixo das luzes fluorescentes.

Porque é que o gadget de inverno do Lidl “aprovado pelo Martin Lewis” está a provocar verdadeira revolta

O Lidl lançou um novo gadget de energia para o inverno que está a levantar uma tempestade muito para lá do parque de estacionamento. É aquele tipo de aparelho pequeno, de ligar à tomada - um aquecedor ou um dispositivo ao estilo de uma air fryer - que promete reduzir a conta do gás e aquecer uma divisão, mantendo o termóstato baixo. A reviravolta? Na sinalética promocional e no burburinho das redes sociais, os clientes veem uma coisa, alta e clara: o Martin Lewis disse que coisas deste género podem fazer poupar dinheiro.

Para muita gente, essa frase vale como um selo de aprovação. Vai diretamente ao fundo de confiança que ele construiu ao longo de anos a avisar as famílias para não gastarem em excesso. No entanto, quanto mais este gadget voa das prateleiras, mais desconfortáveis alguns clientes fiéis - e concorrentes mais pequenos - começam a sentir-se.

Um cliente de Nottingham partilhou uma foto de um expositor do Lidl num grupo de Facebook sobre poupança, mostrando uma pilha enorme dos novos aquecedores com alegações de “poupança de energia” em letras gigantes. Em poucas horas, os comentários transformaram-se num ataque em massa. Uns disseram que tinham comprado dois “antes que esgotem como as air fryers no ano passado”. Outros ficaram furiosos, acusando o Lidl de “lucrar” com a crise do custo de vida e de usar linguagem ao estilo de Lewis para empurrar as pessoas para compras por impulso que, na realidade, não conseguem pagar.

Ao mesmo tempo, lojas de ferragens independentes e cadeias de supermercados mais pequenas observam tudo isto com um nó no estômago. Têm stock de gadgets semelhantes há meses a preços mais altos, muitas vezes de fornecedores sediados no Reino Unido e com margens mais apertadas. Agora, um discount com enorme poder de compra consegue subcotá-las, encher as prateleiras com marketing polido e captar clientes que elas tentavam, com esforço, manter.

Por baixo do ruído, a raiva gira em torno de um sentimento: a lealdade a ser usada como alavanca. O Lidl construiu uma reputação de herói do orçamento, um sítio onde se consegue sobreviver ao inverno gastando menos. Por isso, quando uma grande cadeia se encosta ao eco do conselho de um defensor do consumidor em quem se confia - mesmo indiretamente, sem um endosso formal - pode soar a uma traição silenciosa. Os clientes pensam: “Isto é a opção segura, certo?” e encostam o cartão contactless antes sequer de lerem as letras pequenas ou de perceberem o seu consumo real.

É aí que está a tensão. Sim, o gadget pode ajudar algumas famílias. Mas a estratégia de marketing arrisca penalizar precisamente as pessoas que ficaram com o Lidl em cada subida de preços - e espremer concorrentes mais pequenos que não conseguem gritar tão alto.

Como descodificar o hype - e proteger-se na caixa

A primeira coisa a perceber é que um gadget de “poupança de energia” só é tão bom quanto a forma como é usado. Antes de se deixar levar por promessas ao estilo “Money Saving Expert”, faça três perguntas diretas: quanto custa? Quantas horas por dia vou, realisticamente, usá-lo? E qual é o meu preço por kWh de eletricidade ou gás? Um rabisco rápido no verso de um talão costuma ser mais honesto do que as alegações brilhantes na caixa.

Se o aparelho for elétrico, compare a potência (wattagem) com o seu aquecimento principal. Um aquecedor portátil de 2.000 W ligado toda a noite, aos preços de hoje, pode ser um luxo caro - não uma solução inteligente. O truque é o uso focado: períodos curtos numa divisão, portas fechadas, meias grossas. Essa rotina aborrecida e nada glamorosa poupa mais do que qualquer expositor de cartão aos berros.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que estamos com frio, cansados e desesperados por algo que pareça uma resposta fácil. Vê-se um nome de confiança a circular nas redes sociais, uma marca a insinuar que “especialistas dizem que este tipo de aparelho sai mais barato do que o aquecimento central” e, de repente, já estamos a justificar um gasto de 40£ que não estava nos planos. Sejamos honestos: quase ninguém lê a etiqueta energética linha a linha no corredor.

O apelo emocional é forte. Queremos sentir que estamos a retomar o controlo, a fazer algo proativo, e não apenas a ficar numa sala gelada. É aí que os retalhistas ganham vantagem - tanto sobre famílias em dificuldades como sobre pequenos concorrentes. O erro não é comprar um gadget; é comprar a promessa à volta dele sem confirmar se encaixa na sua casa, no seu tarifário e nos seus hábitos. Até a melhor ferramenta se torna dinheiro deitado fora se acabar a apanhar pó debaixo das escadas em fevereiro.

“O Martin Lewis sempre foi claro - não compre algo só porque o meu nome aparece perto disso,” diz um veterano das campanhas de defesa do consumidor. “Ele dá conselhos gerais sobre categorias, não dá luz verde a cada gadget encaixotado empilhado num corredor do meio. O perigo surge quando os retalhistas esbatem essa linha na cabeça do público.

  • Verifique a potência exata (W) e as horas previstas de utilização antes de comprar.
  • Procure se Martin Lewis ou o MoneySavingExpert mencionaram esse tipo de produto - e leia todo o contexto.
  • Compare preços com pelo menos um comércio independente local ou uma cadeia mais pequena, não apenas com os grandes discounters.
  • Defina um orçamento mensal firme para gadgets de inverno e escreva-o antes de entrar na loja.
  • Se não for uma necessidade imediata, afaste-se por 24 horas e depois veja se ainda o quer.

O que esta polémica do Lidl realmente diz sobre inverno, confiança e poder na caixa

Tirando os logótipos e os posts furiosos, esta história é sobre algo mais silencioso: quem molda as nossas escolhas quando temos medo da próxima fatura. Quando o Lidl se encosta ao halo de um “selo de aprovação” ao estilo Martin Lewis, não está apenas a vender um aquecedor. Está a vender tranquilidade - até estatuto - aquela sensação de que é dos espertos que chegou primeiro, antes de as prateleiras ficarem vazias.

Para os clientes fiéis, essa vantagem corta para os dois lados. Sentem-se protegidos quando os preços se mantêm baixos, mas usados quando a mesma marca os empurra para compras no limite, embrulhadas em linguagem de poupança. Para os concorrentes mais pequenos, já a sufocar com custos grossistas mais altos e menos afluência, estes gadgets “de manchete” são mais um lembrete de onde está o verdadeiro poder na economia de inverno britânica.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Interrogar o “halo” de aprovação de especialista Os retalhistas podem ecoar conselhos ao estilo Martin Lewis sem qualquer endosso formal Ajuda a resistir ao marketing emocional e a decidir com mais clareza
Fazer o seu próprio cálculo rápido de custo Compare potência, horas de uso e o seu tarifário antes de comprar qualquer gadget de inverno Mostra se um aquecedor (ou semelhante) vai mesmo reduzir a fatura
Equilibrar lealdade com apoio local Verifique preços em lojas independentes ou concorrentes mais pequenos, não só em discounters Dá-lhe mais opções e impede que um retalhista domine o seu orçamento de inverno

FAQ:

  • O Lidl tem mesmo o endosso do Martin Lewis para este gadget?
    Não. O Martin Lewis raramente endossa produtos de marcas específicas. Ele fala de tipos de artigos - como air fryers ou mantas aquecidas - e se podem fazer poupar dinheiro em certas condições. Qualquer sensação de “aprovação” costuma resultar da forma como os retalhistas e os utilizadores das redes sociais enquadram o seu conselho geral.

  • Um aquecedor pequeno de tomada pode mesmo ficar mais barato do que o aquecimento central?
    Às vezes, mas só se for usado com cuidado. Aquecer uma divisão pequena e bem isolada por pouco tempo pode custar menos do que ligar todo um sistema a gás. Se usar um aquecedor elétrico de alta potência durante horas, todas as noites, o custo pode rapidamente ultrapassar o aquecimento central num tarifário normal.

  • Os supermercados “budget” estão a penalizar os clientes fiéis com estes gadgets?
    Estão a oferecer mais escolha, mas também estão a usar lealdade e confiança para vender produtos sazonais com maior margem. A “penalização” aparece quando os clientes se sentem pressionados a comprar por medo - ou pelo eco de conselhos de especialistas - em vez de por informação clara e necessidade real.

  • Devo esperar por descidas de preço em gadgets de inverno?
    Se conseguir aguentar sem isso agora, sim. Os gadgets sazonais muitas vezes descem de preço mais tarde no inverno ou nas promoções de janeiro. O risco é o modelo exato que quer esgotar, mas a vantagem é evitar compras em pânico ao preço mais alto.

  • Qual é a regra mais segura antes de comprar qualquer dispositivo de poupança de energia?
    Pergunte: eu compraria isto na mesma se ninguém tivesse mencionado o Martin Lewis, o TikTok ou uma “oferta limitada”? Se a resposta for não, afaste-se, verifique as suas faturas reais e comece por mudanças mais baratas - vedação de correntes de ar, mais camadas, aquecer por zonas - antes de investir em equipamento novo.

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