Partilhar uma carruagem com uma das cobras mais mortíferas do mundo não é.
Os relatos de cobras venenosas a entrar em carruagens, a viajar nas prateleiras de bagagem e até a espreitar pelas janelas dos comboios estão a aumentar - e os cientistas suspeitam agora que estes passageiros indesejados poderão estar a redefinir, discretamente, as zonas onde vivem as cobras-reais (king cobras) ameaçadas.
Cobra no vagão-cama: quando uma viagem de comboio se torna mortal
As cobras-reais são as cobras venenosas mais compridas da Terra. Um adulto pode ultrapassar os cinco metros. O seu veneno, se não for tratado, pode matar uma pessoa em apenas 15 minutos.
Isto já é suficientemente alarmante numa floresta aberta. Num vagão-cama noturno e cheio, torna-se um cenário de pesadelo.
Na Índia, estes encontros já não são histórias isoladas. Os viajantes publicam regularmente vídeos gravados com o telemóvel de cobras em plataformas, debaixo dos bancos ou enroladas junto às portas dos comboios. Num incidente muito partilhado de 2023, um apanhador de cobras no estado ocidental do Gujarat filmou uma cobra-de-óculos pousada na moldura de uma janela do comboio, a olhar fixamente para o interior da carruagem.
Em 2017, o biólogo Dikansh Parmar, voluntário de um grupo de bem-estar animal, foi chamado a bordo de um comboio depois de passageiros aterrorizados terem visto uma cobra no seu vagão. Essa experiência viria mais tarde a alimentar um estudo científico, publicado na revista Biotropica, que coloca uma pergunta invulgar: estarão os comboios da Índia a ajudar cobras - incluindo cobras-reais - a dispersarem-se para locais onde normalmente não sobreviveriam?
Os cientistas sugerem agora que as linhas férreas não funcionam apenas como caminhos para pessoas, mas como corredores involuntários de alta velocidade para cobras venenosas.
De ribeiros florestais a carris de aço
A nova investigação centra-se numa população local de cobra-real no estado costeiro de Goa. Esta região é mais conhecida pelas praias e pelo turismo do que por répteis mortais, mas as suas florestas de colina e vales fluviais são habitat ideal para cobras.
Os investigadores usaram modelos de habitat que têm em conta a precipitação, a temperatura, a vegetação e a presença de presas. Estas ferramentas ajudam a identificar onde uma espécie deveria viver se seguisse as suas preferências ecológicas.
Onde as cobras-reais deveriam estar - e onde aparecem
Para a espécie de cobra-real em Goa, conhecida como Ophiophagus kaalinga, os modelos desenharam um cenário claro. As cobras deveriam ocupar sobretudo o interior do estado, especialmente:
- Áreas húmidas e florestadas
- Regiões perto de rios, ribeiros e zonas húmidas
- Paisagens com vegetação densa para cobertura
- Zonas com abundância de presas, como outras cobras e pequenos vertebrados
Entre 2002 e 2024, avistamentos e registos desta cobra-real vieram de 47 locais em Goa. Cinco destes ficavam perto de linhas ferroviárias muito usadas.
Segundo os modelos, esses pontos junto à ferrovia são muito pouco adequados para cobras-reais. Tendem a ser mais secos, mais abertos e mais pobres em presas. A vegetação é muitas vezes escassa devido à construção, manutenção e atividade humana em torno da via.
A presença de cobras-reais perto de corredores ferroviários movimentados entra em choque com o aspeto do seu habitat preferido, levantando questões sobre como lá chegaram.
Passageiros clandestinos involuntários na rede ferroviária da Índia
Para explicar esta discrepância, a equipa de investigação avançou uma ideia simples mas provocadora: algumas cobras estarão a viajar acidentalmente de comboio.
Sabe-se há muito que as linhas ferroviárias influenciam os movimentos da vida selvagem. Os animais podem caminhar ao longo dos carris, usar taludes como corredores ou procurar alimento perto do lixo nas estações. Mas, neste caso, os cientistas dizem que os próprios comboios poderão estar a transportar as cobras.
As cobras podem entrar nas carruagens enquanto os comboios estão parados em estações florestais ou rurais. Podem abrigar-se em fendas debaixo dos bancos, em zonas de carga ou junto a cabos de travão por baixo das carruagens. Assustadas pelo ruído ou pelo movimento, podem então ser levadas muitos quilómetros para áreas mais secas e urbanas - locais que normalmente evitariam.
Os autores do estudo descrevem os caminhos-de-ferro como potenciais “ligações de alta velocidade” que conectam, inadvertidamente, populações de vida selvagem separadas. Para espécies ameaçadas como a cobra-real, isto pode soar positivo, mas o resultado pode ser muito menos benéfico.
Uma nova reviravolta na interação entre humanos e vida selvagem
Para os cientistas, este “deslocamento por comboio” é um novo ângulo sobre como as infraestruturas moldam a natureza.
O potencial das rotas ferroviárias para baralhar animais ameaçados, empurrando-os para habitats de fraca qualidade, acrescenta uma camada nova - e frequentemente ignorada - ao conflito entre humanos e vida selvagem.
Ainda assim, os investigadores são cautelosos. A hipótese baseia-se sobretudo em padrões e evidência anedótica, não em viagens diretas rastreadas. Até agora, nenhuma equipa colocou um transmissor numa cobra-real e provou que ela entrou numa estação florestal e saiu numa cidade seca e inadequada.
Mesmo assim, a evidência circunstancial continua a aumentar. Com smartphones mais baratos e maior uso de redes sociais, os passageiros documentam mais incidentes. O estudo nota que, em apenas 30 dias de 2024, três episódios distintos de cobras em comboios foram formalmente registados, com vários outros a circular online.
Mau para as cobras, aterrador para os passageiros
As cobras-reais já estão classificadas como vulneráveis. A perda de habitat devido à exploração florestal, agricultura e expansão urbana consome as suas casas na floresta. Mortes em estradas, perseguição e comércio ilegal acrescentam mais pressão.
Se os comboios continuarem a deixar cobras em habitats marginais, onde faltam alimento e cobertura, muitos destes animais poderão simplesmente morrer. Podem ter dificuldade em encontrar presas ou locais adequados para nidificação. Podem também entrar em contacto mais frequente com pessoas, levando a conflitos e a mortes por retaliação.
| Grupo afetado | Principais riscos |
|---|---|
| Cobras-reais | Stress, habitat inadequado, fome, perseguição, fragmentação de populações estáveis |
| Passageiros ferroviários | Mordeduras potencialmente fatais, pânico em espaços confinados, interrupção do serviço |
| Operadores ferroviários | Questões de segurança, responsabilidade, pressão para adaptar infraestrutura e formação |
Para os viajantes, o perigo é mais óbvio e imediato. Uma cobra venenosa numa carruagem fechada pode gerar caos. As pessoas podem correr em direção às saídas, arriscando ferimentos além de eventuais mordeduras. O pessoal, muitas vezes sem formação especializada, tem de decidir rapidamente se deve parar o comboio, chamar equipas de resgate de vida selvagem ou tentar lidar com o animal por conta própria.
O que as ferrovias e as autoridades poderiam fazer a seguir
O estudo sugere que a crescente rede ferroviária da Índia poderia integrar considerações sobre vida selvagem nas operações básicas. Isto não significa encerrar linhas que atravessam regiões florestais, mas sim apertar práticas simples.
Em estações perto de habitats-chave, o pessoal poderia fazer inspeções rápidas debaixo de comboios estacionados, especialmente na época das chuvas, quando as cobras se deslocam mais. Zonas de manutenção de carruagens poderiam ser mantidas livres de detritos e acumulações onde os animais se possam esconder. Formação básica para trabalhadores ferroviários na linha da frente sobre como responder com calma a avistamentos de cobras poderia evitar tanto mordeduras como multidões em pânico.
As agências de conservação poderiam também monitorizar corredores ferroviários como potenciais pontos quentes de cobras deslocadas. O registo sistemático de avistamentos, apoiado por fotografias e coordenadas GPS, permitiria aos investigadores afinar os seus modelos e confirmar se os comboios estão realmente a remodelar a distribuição das cobras.
Porque é que as cobras acabam em espaços humanos
As cobras não procuram contacto humano. Muitas vezes acabam em casas, campos ou comboios por razões simples: calor, abrigo ou alimento, como ratos. A estrutura metálica inferior de um comboio pode reter calor em noites frias. Os pátios das estações atraem roedores, que por sua vez atraem cobras.
A expansão urbana em torno das linhas acrescenta mais complexidade. À medida que as pessoas constroem mais perto das vias, a fronteira entre habitat selvagem e vida humana esbate-se. Uma cobra que abandona um fragmento de floresta em diminuição pode ter pouca escolha senão atravessar ou instalar-se perto de infraestruturas.
Compreender alguns termos-chave
Duas ideias científicas sustentam esta investigação:
- Modelos de adequação do habitat: ferramentas informáticas que estimam onde uma espécie deve prosperar com base no clima, vegetação e outros dados ambientais.
- Corredores de vida selvagem: rotas naturais ou criadas pelo homem que permitem aos animais deslocarem-se entre habitats fragmentados, por vezes ajudando a manter a diversidade genética.
Neste caso, as ferrovias estão a funcionar como um híbrido: parte corredor, parte armadilha. Podem ajudar uma cobra a deslocar-se, mas nem sempre para um lugar onde consiga viver bem.
Cenários futuros: de localizadores GPS à sensibilização pública
Um passo seguinte para os cientistas seria equipar uma amostra de cobras-reais com emissores GPS em áreas perto de linhas férreas. Se cobras marcadas aparecerem repetidamente em estações distantes e secas ou em povoações junto à via, isso sustentaria fortemente a hipótese de transporte por comboio.
A sensibilização pública também poderia mudar os resultados. Conselhos simples para passageiros - manter a calma, manter distância, alertar o pessoal, evitar encurralar a cobra - podem reduzir o risco. Comunidades perto das linhas poderiam beneficiar de visitas regulares de equipas treinadas de resgate de cobras, capazes de remover e recolocar animais avistados em torno das estações.
Se mais dados confirmarem que os comboios estão, silenciosamente, a colocar cobras-reais em perigo, a segurança ferroviária, a política de conservação e o planeamento urbano terão de se adaptar. Para já, a ideia de uma cobra-real a viajar na carruagem ao lado permanece como um lembrete arrepiante de quão interligadas estão hoje as redes humanas e a vida selvagem.
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