Visto do espaço, parece quase delicado: uma fita castanha fina, como uma mancha de café, a estender-se do nordeste da América do Sul até à África Ocidental. Nas imagens de satélite, destaca-se sobre o azul do Atlântico - longa, sinuosa, e cada vez menos “fora do lugar”.
Numa praia, a história muda. O que chega à costa é um tapete espesso de sargaço em decomposição, pesado, escorregadio e com um cheiro forte. Para quem vive do mar e do turismo, não é uma curiosidade: é um aviso.
Uma misteriosa faixa castanha a atravessar o Atlântico
A “fita” tem nome: Grande Cinturão Atlântico de Sargaço (Great Atlantic Sargassum Belt). Em alguns anos, os cientistas estimam que ultrapassa os 8.000 km - uma escala continental. E, ao contrário do que acontecia há décadas, tem surgido de forma sazonal quase todos os anos, variando de intensidade.
No terreno não há uma faixa contínua. Há praias que mudam de um dia para o outro: água turquesa passa a castanho, a rebentação empurra mantos de algas e, quando acumulam, ficam dias ou semanas.
Em destinos muito afetados, a limpeza começa antes do nascer do sol, com recolhas constantes. O problema não é só a “sujeira”: quando o sargaço apodrece, liberta gases como sulfureto de hidrogénio (cheiro a “ovo podre”) e também amoníaco, piorando o desconforto perto das pilhas.
O sargaço, em si, é natural - no Mar dos Sargaços (Atlântico Norte) faz parte do ecossistema e serve de abrigo a juvenis de peixes, tartarugas e invertebrados. O que mudou foi a escala e a persistência no Atlântico tropical.
O crescimento explosivo é geralmente explicado por uma combinação de fatores:
- Águas mais quentes (favorecem o crescimento e prolongam a “época”).
- Mais nutrientes (sobretudo azoto e fósforo) trazidos por grandes rios e por escorrência agrícola, incluindo fertilizantes e efeitos de desflorestação.
- Ventos, correntes e chuva que ajudam a concentrar e transportar a biomassa até às Caraíbas e à costa africana.
Em suma: o oceano está a responder a calor extra e a um “buffet” de nutrientes.
Quando um cinturão de algas à deriva se torna um sinal de alarme
Quando chega à costa, o sargaço deixa de ser um tema de satélite e vira logística, saúde pública e economia local.
O que tende a funcionar melhor na prática é retirar cedo e com cuidado: quanto mais fresco e perto da linha de água for recolhido, menos cheira e mais leve é. Quando seca e apodrece, fica pesado, entranha-se na areia e aumenta o risco de odores fortes e pragas. Em muitas praias, a limpeza “a martelo” com máquinas também tem custos: pode remover areia, danificar dunas e esmagar ninhos/ovos de fauna costeira; por isso, costuma ser preferível limitar maquinaria em zonas sensíveis e usar métodos mais seletivos onde for possível.
Algumas comunidades instalam barreiras flutuantes ao largo para desviar o sargaço para pontos de recolha. É uma solução com trade-offs: exige manutenção, pode falhar com ondulação forte e precisa de desenho/monitorização para reduzir riscos para tartarugas e embarcações.
Há também tentativas de valorização (composto, materiais de construção, papel, biocombustível). Faz sentido procurar usos, mas não é “pegar e usar”:
- O sargaço pode acumular metais pesados e outros contaminantes; sem análises e tratamento, aplicá-lo diretamente no solo ou na alimentação animal pode ser arriscado.
- Tem muito sal, o que obriga muitas vezes a lavagem/dessorção e tempo de secagem - custo real em água, espaço e energia.
- A recolha e transporte são caros porque o material vem misturado com água e areia, aumentando o peso.
Na saúde, o maior alerta é o ar junto a grandes pilhas em decomposição. Pessoas com asma, DPOC, grávidas, crianças e idosos tendem a ser mais sensíveis. Regra simples: se o cheiro é intenso, afaste-se e fique a favor do vento; sintomas persistentes (dor de cabeça forte, náuseas, irritação respiratória) justificam contacto com serviços de saúde.
“Do espaço, as pessoas vêem um padrão. Daqui, vemos rendimentos perdidos, vida marinha sob stress e praias que deixam de ser utilizáveis durante semanas.”
- Fita castanha: proliferação sazonal massiva de sargaço no Atlântico.
- Causas de raiz: aquecimento + excesso de nutrientes + transporte por correntes/ventos.
- Impactos: praias e água costeira afetadas, odores/gases, pressão no turismo e na pesca.
- Respostas: recolha precoce, barreiras com limites, e valorização apenas com tratamento e controlo.
Um alerta entre dois continentes
A faixa castanha entre África e as Américas não é só um incómodo: é um indicador visível de como nutrientes e calor acumulados acabam por se “materializar” no oceano. O que é aplicado a milhares de quilómetros (fertilizantes, alterações no uso do solo, emissões que aquecem o mar) pode regressar como um problema físico, recorrente e caro.
Para as comunidades costeiras mais expostas, a pergunta prática é: vai ser um evento pontual ou uma época previsível? É por isso que oceanógrafos afinam modelos e monitorização por satélite - não para “explicar bonito”, mas para antecipar picos e preparar respostas (equipas, recolha, zonas de proteção).
Em Portugal, este cinturão não costuma ser o fenómeno dominante nas praias continentais, mas a lógica é útil: quando há arribação massiva de algas, a gestão tem de equilibrar limpeza, proteção de dunas/ecossistemas e segurança. Em situações de acumulação grande com mau cheiro, o mais sensato é seguir indicações locais (autarquia/autoridade marítima), evitar zonas com gases e não levar “para casa” algas em decomposição.
O que torna esta fita inquietante é a sua clareza: em mapas públicos de satélite, dá para seguir o arco de sargaço em tempo quase real. É um “gráfico vivo” do impacto humano no mar - partilhado por dois continentes ligados pelo mesmo Atlântico.
O cinturão não é uma curiosidade distante: é um sublinhado castanho por baixo da relação entre clima, nutrientes e oceanos.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O que é a fita castanha | Grande Cinturão Atlântico de Sargaço: proliferação sazonal de algas flutuantes no Atlântico tropical | Dá contexto ao que se vê em satélite e nas notícias |
| Porque está a crescer | Aquecimento do mar + nutrientes (azoto/fósforo) + transporte por correntes/ventos | Liga causas “invisíveis” a impactos costeiros reais |
| Como afeta as pessoas | Acumulação nas praias, gases na decomposição, custos de limpeza, impactos no turismo/pesca e na vida marinha | Mostra que é um problema ambiental e económico |
FAQ:
- O cinturão de sargaço é perigoso para os humanos? O contacto com a alga geralmente não é o principal risco. O problema é a decomposição: pode libertar sulfureto de hidrogénio e amoníaco, causando irritação, dores de cabeça, náuseas e agravamento de problemas respiratórios, sobretudo em pessoas sensíveis.
- Esta fita castanha é resultado das alterações climáticas? Em muitos casos, é vista como efeito combinado: oceanos mais quentes favorecem o crescimento, e a poluição por nutrientes (fertilizantes/escorrência) fornece “combustível”. Não é uma única causa.
- O sargaço tem algum benefício? Sim. No mar aberto, cria habitat e abrigo para várias espécies. Torna-se problema quando chega em excesso à costa, reduz oxigénio em zonas costeiras e afeta praias e ecossistemas.
- As algas podem ser transformadas em algo útil? Podem, mas exige tratamento: reduzir sal, gerir areia e fazer análises por possível contaminação (por exemplo, metais pesados). Sem isso, o “aproveitamento” pode criar novos riscos.
- Este cinturão castanho vai desaparecer por si só? Pode variar muito de ano para ano, mas sem reduzir aquecimento e carga de nutrientes, é provável que continue a reaparecer sazonalmente em muitas zonas do Atlântico tropical.
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