A cafetaria estava barulhenta o suficiente para distrair, mas não o suficiente para servir de desculpa.
Do outro lado da mesa, uma mulher com um blazer azul-marinho dizia à amiga que o seu casamento “parecia viver com um estranho educado”. A voz tremia-lhe. A amiga acenava com a cabeça, fitava o telemóvel e largava um “sim, percebo” preguiçoso a cada poucos segundos. Quase se via o momento em que os ombros dela desceram, o segundo exacto em que percebeu: ele não estava realmente ali com ela.
Num ecrã, essa cena parece banal. Na vida real, é o tipo de pequena fissura que vai, lentamente, a partir a confiança, as famílias, as equipas. Falamos o dia inteiro. Raramente nos sentimos ouvidos. E, em silêncio, isso é exaustivo.
A escuta activa supostamente resolve isso. Mas como é que ela se manifesta quando estamos cansados, ocupados, irritados, atrasados?
O poder silencioso de ouvir as pessoas a sério
A maioria das pessoas acha que é boa ouvinte porque consegue ficar calada durante 30 segundos. Isso não é ouvir; é apenas esperar pela sua vez. A verdadeira escuta activa sente-se diferente no corpo. Os ombros relaxam. A respiração abranda. Não está a construir, às escondidas, a sua resposta na cabeça - está a observar o rosto da outra pessoa como se fosse uma faixa de legendas ao vivo.
O que muda é subtil. O silêncio deixa de ser constrangedor e passa a ser um espaço onde a outra pessoa se atreve a ir mais longe. O contacto visual torna-se um pouco mais firme. A conversa não corre, em pânico, para uma solução como um paramédico aflito. Caminha. E, de forma curiosa, esse ritmo mais lento quase sempre leva a um lugar mais honesto.
Numa manhã de terça-feira, num open space cheio, uma gestora chamada Lisa experimentou algo novo nas suas reuniões semanais individuais. Em vez de saltar para as tarefas, perguntou: “O que é que te está a passar pela cabeça hoje?” Depois calou-se e contou até dez mentalmente antes de dizer mais alguma coisa. No início, a equipa respondeu com o habitual “Está tudo bem” e “Ando ocupado, mas está tudo”. Na terceira semana, algo estalou.
Um colega admitiu que estava perto de se despedir porque se sentia ignorado nas reuniões. Outra disse que estava aterrorizada com um novo cliente e não sabia como dizê-lo sem parecer fraca. Lisa não resolveu tudo na hora. Limitou-se a devolver o que ouviu e a fazer duas ou três perguntas de seguimento. Seis meses depois, a mesma equipa teve uma pontuação 27% mais alta nos inquéritos internos de envolvimento. A única mudança estrutural: ela aprendeu a ouvir com intenção, não apenas com os ouvidos.
O que aconteceu ali não é magia; é mecânica. Quando as pessoas se sentem genuinamente ouvidas, o sistema nervoso acalma. O ritmo cardíaco abranda. O cortisol baixa. O cérebro sai literalmente do “modo de ameaça” e fica capaz de nuance, compromisso, criatividade. É por isso que discussões em casa podem passar de gritos a lágrimas em sessenta segundos, no momento em que alguém finalmente diz: “Ok, eu quero mesmo perceber o teu lado.”
A escuta activa é, basicamente, um sinal social de segurança. Diz à outra pessoa: “Aqui não corres perigo. Podes baixar a armadura.” Quando esse sinal é sentido, a empatia ganha espaço para aparecer. Não tem de concordar. Só deixa de lutar por tempo de antena e começa a interessar-se mais pelo filme que está a passar na cabeça dela do que pelo guião que preparou na sua.
Formas práticas de treinar o músculo da escuta activa
Um hábito simples muda tudo: antes de responder, reflita com as suas próprias palavras a última coisa que a pessoa disse. Não como um robô, não palavra por palavra. Algo como: “Então estás a dizer que te sentes excluído quando tomam decisões sem ti?” Parece básico. Feito de forma consistente, é impressionante a rapidez com que aprofunda a troca.
Esta reflexão faz duas coisas ao mesmo tempo. Obriga-o a processar realmente o significado, em vez de agarrar numa palavra-chave. E dá à outra pessoa um espelho limpo: ela pode corrigir, acrescentar, dar nuance. Esse pequeno ciclo - falar, reflectir, ajustar - é a espinha dorsal da escuta activa. Não é sofisticado; é apenas curiosidade disciplinada.
A armadilha é achar que dá para fingir. As pessoas sentem a diferença entre alguém que acena com a cabeça enquanto, na mente, está a escrever um e-mail, e alguém que oferece atenção com o corpo todo. Pequenos gestos denunciam-nos: olhar para o relógio, interromper o fim de uma frase, já estar a estender a mão para uma “solução”. Sejamos honestos: ninguém faz isto perfeitamente todos os dias.
Por isso, baixe a fasquia e suba a intenção. Ponha o telemóvel virado para baixo quando a conversa começa. Vire o tronco para a pessoa, não apenas a cabeça. Deixe três segundos de silêncio depois de ela falar, antes de entrar. Esses sinais pequenos dizem, sem palavras: “Estou aqui, não só fisicamente.” Num mau dia, às vezes é toda a empatia que consegue dar. E isso, ainda assim, é algo real.
As pessoas que melhor ouvem costumam ter uma regra teimosa e silenciosa: ouvem durante mais tempo do que é confortável. Deixam a outra pessoa terminar a meia-frase, o hesitante “não sei se isto faz sentido, mas…” É quase sempre aí que a verdade se esconde.
“A maioria das pessoas não ouve com a intenção de compreender; ouve com a intenção de responder.” – Stephen R. Covey
Para transformar isto em acção, ajuda ter algumas listas mentais no bolso:
- Antes de responder, pergunte a si próprio: “Que emoção estou a ouvir por baixo das palavras?”
- Faça pelo menos uma pergunta de seguimento que comece por “Como” ou “O quê”, não por “Porquê”.
- Se se sentir activado, diga: “Preciso de uma pausa; quero ouvir-te como deve ser”, e faça três respirações profundas.
Estas micro-acções parecem pequenas no papel. No mundo real, são a diferença entre mais uma troca superficial e um momento que realmente muda uma relação.
Tornar a escuta activa parte da forma como vive, e não um truque
A escuta activa não é uma app que instala no cérebro. É mais parecida com uma postura que adopta na vida. Começa a entrar nas conversas menos como um procurador e mais como um documentarista. Está a recolher histórias, não a caçar provas de que tem razão. Essa mudança parece mínima. Dentro de um casal, de uma família ou de uma equipa, muda o ar.
Num dia difícil, vai falhar. Vai falar por cima do seu parceiro, deslizar o dedo enquanto um amigo desabafa, ouvir o seu filho a meio enquanto pensa no jantar. Num dia bom, vai dar por si e dizer: “Espera, desliguei por um bocado. Podes dizer isso outra vez? Quero acompanhar.” Essa frase pequena, ligeiramente constrangedora, é uma forma de humildade. Diz à outra pessoa que ela importa o suficiente para tentar de novo.
À medida que a sua escuta aprofunda, acontece outra coisa: torna-se um pouco mais perigoso manter-se superficial à sua volta. As pessoas começam a dizer-lhe coisas que nunca disseram em voz alta. Colegas “só partilham rapidamente uma coisa” que afinal é a verdadeira razão de um projecto estar bloqueado. Amigos abrem-se sobre luto, vergonha, grandes sonhos. Pode ser pesado. E também, estranhamente, sagrado.
Todos já tivemos aquele momento em que alguém ouviu tão plenamente que, por um segundo, pareceu estar ao sol morno depois de semanas de nuvens cinzentas. Vai-se embora mais leve, mesmo que nada na sua situação tenha mudado. Essa é a promessa escondida da escuta activa: não corrige magicamente a vida dos outros. Faz com que se sintam menos sós dentro dela.
Num mundo onde falar é barato e o conteúdo é infinito, a atenção pode ser a moeda mais rara que resta. Quando escolhe gastá-la em alguém - gastá-la mesmo - a pessoa sente-o no sistema nervoso, na postura, na história que conta sobre si própria. Não precisa de palavras perfeitas. Precisa de presença.
Da próxima vez que alguém começar a contar-lhe o dia, resista ao reflexo de consertar, julgar, comparar. Entre na conversa como um convidado curioso numa casa onde nunca esteve. Olhe em volta. Pergunte para onde vão as escadas. Sente-se na divisão que a pessoa escolher. Depois fique lá um pouco mais do que o conforto sugere. Pode surpreender-se com o que ela lhe mostra quando percebe que não está a correr para a porta.
| Ponto-chave | Detalhes | Porque importa para quem lê |
|---|---|---|
| Usar “reflexão” antes de responder | Reformule brevemente o que a outra pessoa disse - “Então estás a sentir-te posto de lado desde a reorganização?” - antes de acrescentar o seu ponto de vista. Seja curto e natural. | Mostra a quem fala que foi compreendido, reduz mal-entendidos e evita discussões que nascem de reagir a algo que nunca foi realmente dito. |
| Eliminar pequenas fugas de atenção | Afaste o telemóvel, feche o portátil e vire o corpo totalmente para a pessoa em conversas importantes, mesmo que seja só por cinco minutos. | Estas pequenas mudanças físicas enviam uma forte mensagem não-verbal de respeito, aumentando a confiança e a probabilidade de a outra pessoa se abrir com honestidade. |
| Fazer perguntas abertas e gentis | Use perguntas que comecem por “Como” ou “O quê”: “Como é que isso caiu em ti?” ou “O que te preocupou mais nessa reunião?” Evite “Porquê” quando as emoções estão altas. | Incentiva respostas mais profundas, reduz a defensividade e ajuda a descobrir o problema real por trás de queixas superficiais no trabalho ou em casa. |
FAQ
A escuta activa é só acenar e repetir o que as pessoas dizem?
Não exactamente. Acenar e parafrasear são ferramentas, mas a escuta activa tem mais a ver com a sua intenção e a sua atenção. Está a tentar compreender o mundo interior da pessoa - emoções, medos, esperanças - não apenas ecoar as palavras como um gravador.Como posso praticar escuta activa se tenho pouco tempo?
Use “micro-momentos” de presença total. Dê a alguém dois a três minutos de atenção sem interrupções: sem telemóvel, sem interromper; depois resuma o que ouviu numa frase. É melhor uma troca curta e plenamente presente do que uma longa e distraída.E se eu discordar muito do que a outra pessoa está a dizer?
Ainda assim pode ouvir sem endossar a perspectiva dela. Primeiro, reflicta o que ouviu e dê nome à emoção que percebe: “Estás mesmo frustrado com isto.” Depois partilhe a sua perspectiva usando frases na primeira pessoa (“eu”). As pessoas aceitam melhor a discordância quando se sentiram compreendidas primeiro.Como paro de planear a minha resposta enquanto a outra pessoa fala?
Dê ao seu cérebro uma tarefa simples: procure o sentimento por trás das palavras. Está com medo, zangado, envergonhado, entusiasmado? Focar-se nessa camada emocional tira-o do modo de debate e ancora-o na experiência da outra pessoa, em vez da sua refutação.A escuta activa pode ser exaustiva?
Sim, sobretudo se for a pessoa a quem toda a gente recorre. Defina limites: pode dizer “Quero ouvir isto como deve ser; podemos falar depois do jantar, quando tiver mais disponibilidade?” Proteger a sua energia permite-lhe oferecer presença genuína em vez de uma atenção fina e ressentida.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário