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Falar sozinho pode indicar capacidades excecionais, explicam os psicólogos.

Homem concentrado escreve num caderno numa mesa, segurando um lápis na mão e outro na boca.

Estás sozinho na cozinha, a fazer scroll no telemóvel, quando de repente ouves uma voz. É a tua. “Certo, chaves em cima da mesa, portátil na mala, não te esqueças outra vez do carregador.” Paras, meio divertido, meio preocupado. Quando é que começaste a soar como o teu próprio assistente ligeiramente irritado?

Abres um armário, resmungas “Não, não era isto que eu procurava”, depois apanhas o teu reflexo no micro-ondas e ris-te. É assim que parece estar a perder o juízo, ou está a acontecer outra coisa?

Os psicólogos estão a começar a responder a essa pergunta, e a verdade é muito mais estranha - e muito mais lisonjeira - do que imaginas.

Porque falar sozinho não é nada de maluco

Observa as pessoas quando acham que ninguém está a olhar. Um estafeta a sussurrar direções. Um estudante a ensaiar uma resposta entre dentes. Uma mulher no supermercado a dizer baixinho “ovos, pão, tomates” enquanto percorre as prateleiras.

Em voz alta, parece disparate. Por dentro, é o cérebro a construir uma estrutura. As palavras são usadas como carris numa linha, impedindo a atenção de descarrilar para o ruído mental. Aquele murmúrio não é uma falha - é uma ferramenta.

O psicólogo Adam Winsler estudou crianças em idade pré-escolar e descobriu que as que mais falavam consigo próprias enquanto faziam puzzles, na verdade, tinham melhor desempenho. Não estavam “distraídas”; estavam a orientar-se em voz alta.

Os adultos fazem o mesmo, só que com mais vergonha. Ensaias uma conversa difícil a caminho de casa. Discutas com um chefe imaginário no duche. Sussurras “Vá lá, concentra-te” antes de carregar em “entrar na reunião”. Por fora, és apenas uma pessoa a atravessar um dia normal. Por dentro, um comentador privado está a conduzir tudo em tempo real.

O cérebro tem uma quantidade limitada de memória de trabalho. Os pensamentos vêm e vão, chocam, desaparecem, repetem-se. Pô-los em palavras ditas abranda este caos. Obriga o cérebro a escolher uma frase, uma ordem, uma prioridade.

É por isso que as pessoas que usam auto-fala muitas vezes parecem mais organizadas ou estranhamente calmas quando acontece algo stressante. Estão literalmente a narrar o seu caminho através da complexidade. Em vez de se afogarem no ruído mental, transformam-no numa conversa que conseguem ouvir, responder e ajustar.

Quando falar sozinho é sinal de pensamento de alto nível

Há um padrão que os investigadores têm observado em pessoas que pensam em voz alta com regularidade. Muitas vezes estão a gerir várias ideias ao mesmo tempo: planear, imaginar, rever, prever. A auto-fala torna-se uma forma de organizar essas camadas.

Quase se consegue ver na cara. Olhar desfocado por um segundo, lábios a mexer ligeiramente e depois: decisão tomada. Aquele pequeno sussurro - “Não, esse não é o verdadeiro problema, o verdadeiro problema é…” - é uma melhoria cognitiva a correr em segundo plano.

Pensa na Sara, 32 anos, gestora de projetos, sempre a “falar sozinha” no corredor do escritório. Antes de grandes reuniões, faz uma volta ao piso, dizendo baixinho coisas como “Começa pelo risco, depois a solução… não, começa pelo cronograma.” Os colegas brincam com os “discursos motivacionais para as paredes”.

O que eles não veem é que aquelas frases murmuradas ajudam-na a filtrar o disparate do que realmente importa. O cérebro atira-lhe 10 ideias. As que ela diz em voz alta sobrevivem. As outras desaparecem. O resultado? Apresentações simples, incisivas e confiantes - mesmo quando as montou à pressa 15 minutos antes.

Os psicólogos chamam a isto “autorregulação externalizada”. Em vez de manter tudo preso no pensamento silencioso, o cérebro manda parte disso cá para fora em som e movimento. É o mesmo princípio por trás de atletas a falarem consigo próprios antes de um salto, ou de jogadores de xadrez a resmungarem: “Se eu mexo isto, ele mexe aquilo.”

As pessoas que usam esta competência de forma natural tendem a mostrar funções executivas mais fortes: planeamento, resolução de problemas, controlo emocional. Falar contigo próprio não é sinal de que estás avariado; muitas vezes é prova de que a tua mente está a gerir ativamente a complexidade. Não estás apenas a pensar. Estás a orientar-te em direto, na tua própria língua.

Como usar a auto-fala como um superpoder mental secreto

Uma mudança simples altera tudo: pára de lutar contra a tua auto-fala e começa a moldá-la. Em vez de tentares “calar” a voz interior, dá-lhe um papel.

Escolhe um momento do teu dia em que os pensamentos normalmente entram em espiral. Talvez seja antes de uma apresentação, enquanto arrumas a casa, ou mesmo antes de adormecer. Nesse momento, fala em voz alta de propósito. Frases curtas e claras: “O passo um é…”, “O que eu realmente sinto é…”, “O pior cenário é…, e eu lidaria com isso fazendo…”. Sente-se estranho durante uns 30 segundos e depois fica, de forma curiosa, clarificador.

A armadilha é escorregar para os autoinsultos. Muitas pessoas só reparam na auto-fala quando ela é dura: “Sou mesmo estúpido”, “Estrago sempre isto”, “Porque é que não consigo ser normal?” Essa voz não ajuda - paralisa.

Tenta apanhar apenas uma dessas frases por dia e ajustá-la ligeiramente. Não para uma positividade falsa, mas para algo que dê para trabalhar. “Sou mesmo estúpido” passa a “Não gosto do que acabei de fazer; qual é o próximo passo certo?” Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. Mas, nos dias em que consegues, tudo sabe subtilmente diferente - como se voltasses a estar do teu próprio lado.

Muitas vezes imaginamos pessoas “inteligentes” como pensadores silenciosos e interiores. Mas muitas das mentes mais brilhantes são, em vez disso, pensadores ruidosos - discutem, testam e refinam as ideias em voz alta, muito antes de alguém as ouvir.

  • Usa a auto-fala para planear: diz em voz alta as próximas três ações quando te sentires esmagado.
  • Usa-a para acalmar: dá nome ao que sentes com palavras simples, como se o estivesses a explicar a um amigo.
  • Usa-a para resolver problemas: descreve o problema em voz alta antes de saltares para a solução.
  • Usa-a para ganhar coragem: fala contigo como falarias com alguém de quem gostas.
  • Usa-a para te focares: repete um objetivo claro para os próximos 10 minutos e ignora o resto.

A revolução silenciosa que está a acontecer na tua cabeça

Depois de reparares, já não consegues deixar de ver. O tipo no autocarro a ensaiar em sussurro o discurso de demissão. O adolescente a resmungar letras enquanto faz os trabalhos de casa. A mulher a correr e a dizer: “Só mais um minuto, continua, continua.”

Falar connosco próprios é uma das poucas coisas íntimas que ainda fazemos em público, meio escondidas, meio envergonhadas. E, no entanto, dentro desse comentário suave, está a formar-se toda uma arquitetura de pensamento. Planos. Medos. Esperanças. Limites.

Talvez a pergunta não seja “Isto é normal?”, mas “O que é que esta voz está a construir para mim?” Uma vida mais organizada ou mais ansiosa? Um dia movido por auto-bullying ou por um incentivo silencioso e teimoso?

Da próxima vez que te apanhares a dizer algo em voz alta quando estás sozinho, pára por um segundo. Ouve como ouvias um amigo. Ajusta uma palavra se for preciso. Essa frasezinha privada pode ser a janela mais clara que tens para perceber como a tua mente realmente funciona - e quão poderosa ela já é.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A auto-fala ajuda na concentração Dizer os pensamentos em voz alta estrutura a atenção e reduz a desorganização mental Ajuda-te a sentir menos dispersão e mais controlo sobre as tarefas
Está ligada a cognição avançada A auto-fala regular está associada a planeamento, resolução de problemas e regulação emocional Reenquadra “falar sozinho” como uma potencial força, não um defeito
Podes treiná-la Passar de autocrítica para orientação prática muda o desempenho e o estado de espírito Dá-te uma forma simples e diária de aumentar a confiança e a clareza

FAQ:

  • Falar sozinho é sinal de doença mental? Não por si só. Muitas pessoas mentalmente saudáveis falam consigo próprias regularmente. Os psicólogos preocupam-se mais quando as vozes parecem externas, hostis ou incontroláveis - não quando estás conscientemente a falar em voz alta para te guiares.
  • A auto-fala melhora mesmo o desempenho? Sim. Estudos com atletas, estudantes e profissionais mostram que uma auto-fala específica e instrutiva (“Agora faço X, depois Y”) muitas vezes melhora a concentração, a precisão e o controlo emocional sob pressão.
  • É melhor pensar em silêncio do que em voz alta? Nem sempre. O pensamento silencioso é mais rápido, mas mais confuso. A auto-fala em voz alta é mais lenta, mas mais clara - o que pode ser especialmente útil quando estás stressado, cansado ou a gerir muitas tarefas.
  • E se a minha auto-fala for sobretudo negativa? É comum, e pode ser mudada gradualmente. Começa por reparar numa frase negativa por dia e reenquadra-a para algo mais neutro e orientado para a ação, não artificialmente positivo.
  • Devo preocupar-me se respondo a mim mesmo em voz alta? Responder a ti mesmo ainda está dentro do normal da auto-fala, especialmente quando estás a pensar decisões. A preocupação costuma começar quando sentes que a voz não é tua, ou quando comenta sobre ti de forma ameaçadora.

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