Quando falas contigo, o teu cérebro está a fazer algo inteligente
Se alguém te visse sozinho na cozinha a resmungar sobre e-mails, a ensaiar uma conversa difícil ou a dizer “vá, só mais 10 minutos”, podia parecer estranho. Mas, na maioria dos casos, não é “descontrolo”: é o cérebro a transformar pensamento em ação.
Na psicologia, isto aparece como auto-fala (self-talk) ou “fala privada”. Costuma surgir quando estás a:
- manter o foco numa tarefa (passo a passo)
- regular emoções (acalmar/ganhar coragem)
- tomar decisões com muitas variáveis
As crianças fazem isto às claras quando aprendem (narram, dão instruções, corrigem-se). Em adultos, muitas vezes fica mais discreto: em casa, no carro, ou em murmúrios.
Em contextos de alto desempenho (desporto, música, cirurgia), a auto-fala é usada como “guião” curto: instruções simples para o corpo e para a atenção (“arranca”, “respira”, “olha para a partitura”). Em tarefas complexas, dizer os passos em voz alta pode reduzir erros por distração, porque “prende” a atenção ao que interessa.
Regras rápidas que costumam funcionar:
- Frases curtas vencem discursos: 3–7 palavras (“primeiro isto, depois aquilo”).
- Melhor para tarefas com muitos passos (cozinhar, arrumar, preparar uma apresentação) do que para tarefas já automáticas.
- Pode atrapalhar se a tarefa for muito verbal (ex.: ler em silêncio e falar ao mesmo tempo), porque compete pela mesma “largura de banda”.
A ideia é antiga: Lev Vygotsky descreveu como a fala em voz alta ajuda a construir autocontrolo e, com o tempo, vira fala interior.
A auto-fala é uma forma de orientares a tua mente em tempo real: tornas os pensamentos audíveis, mais fáceis de ajustar e corrigir.
Transformar o teu monólogo interior num superpoder discreto
Um truque simples: troca o “eu” pelo teu nome (ou “tu”). Em vez de “Eu vou falhar”, tenta “Rita, foca no primeiro slide” ou “Tu consegues fazer o próximo passo”. Esta pequena distância costuma baixar a carga emocional e puxar-te para o modo “treinador”.
Outro ponto: fala em ações, não em rótulos.
- Melhor: “envia o e-mail, depois levanta-te, depois respira”
- Pior: “sou uma desgraça”, “sou um idiota”, “sou incapaz”
Dizer em voz alta (mesmo a sussurrar) pode ajudar porque torna a instrução mais concreta. Mas define limites para não virar ruminação:
- Se repetes a mesma frase 3 vezes, muda para uma ação (“qual é o próximo passo de 2 minutos?”).
- Se estás ansioso, usa um “guião de aterragem”: “pés no chão, ombros baixos, uma coisa de cada vez”.
- Se estás a procrastinar, usa um “se-então”: “Se abrir redes sociais, então fecho e volto ao documento”.
Muita gente só repara na auto-fala quando ela fica sombria: “estás horrível”, “ninguém quer saber”, “não chegas”. Ter uma voz crítica não te torna “estragado”; o cérebro é bom a detetar ameaças e, às vezes, vira esse radar para dentro. O problema é quando vira ruído constante e te bloqueia.
Um terapeuta descreveu a auto-fala como “o teu colega de casa para a vida”. Não tens de o adorar - mas podes ensinar-lhe melhores maneiras.
A auto-fala não é forçar-te a ser positivo o tempo todo. É falares contigo no mesmo tom que usarias com alguém que queres genuinamente ver a vencer.
- Troca “Eu estrago sempre isto” por “Isto é difícil, e ainda estou a aprender.”
- Muda “Sou mesmo idiota” para “Isto foi um erro, e aqui está o que vou tentar a seguir.”
- Transforma “Ninguém quer saber do que eu digo” em “Algumas pessoas não vão querer saber, mas as certas vão ouvir.”
- Substitui “Nunca vou conseguir isto” por “Isto vai demorar mais do que pensei; qual é o próximo pequeno passo?”
- Passa de “Eu sou assim” para “Tenho sido assim; posso escolher de forma diferente agora.”
Isto não é “autoengano”: é dar ao teu sistema nervoso linguagem útil - específica, acionável e menos punitiva.
O que as tuas conversas a sós dizem secretamente sobre ti
Se pudéssemos ouvir os monólogos privados de hoje à noite, ouviríamos muita competência: alguém a ensaiar uma videochamada, a fazer contas de preço por grama no supermercado, ou a dizer no carro “calma, explica só os factos” antes de uma reunião.
Em muitos casos, falar sozinho sinaliza capacidades pouco visíveis:
- autoconsciência (notar o que estás a sentir/pensar)
- regulação emocional (baixar a intensidade antes de agir)
- pensamento estratégico (planear, simular, preparar)
Não é automaticamente sinal de dificuldade. Muitas vezes é uma ferramenta de orientação - e o que muda o resultado é o conteúdo: instruções úteis vs. ataques pessoais.
Em vez de te julgares por falares, vale mais perguntares: “isto está a ajudar-me a agir, ou está só a moer?”
Ponto-chave (em resumo):
- A auto-fala pode aumentar foco e reduzir distrações quando transforma tarefas em passos claros.
- A forma como falas contigo molda a emoção (tom, palavras e distância).
- Conversas a sós muitas vezes refletem resolução de problemas - não “loucura”.
FAQ:
- Falar sozinho é sinal de doença mental? Não, por si só. É comum, sobretudo quando estás concentrado ou a processar emoções. Preocupa mais quando as “vozes” parecem externas (como se não fossem tuas), são hostis, ou mandam agir de forma perigosa - aí vale falar com um profissional de saúde.
- A auto-fala muda mesmo o desempenho? Em muitos estudos, auto-fala focada na tarefa (instruções curtas) e encorajadora melhora foco, precisão e persistência - especialmente em tarefas difíceis ou com stress.
- E se a minha auto-fala for maioritariamente negativa? Começa por reparar nela sem discutir contigo. Depois reformula para linguagem específica e humana (“isto custou”, “o próximo passo é…”). Se a crítica for constante e te estiver a afetar sono, trabalho ou relações, terapia pode ajudar bastante.
- Devo preocupar-me se falo em voz alta em público? Não necessariamente. Muita gente murmura quando está sob pressão. Se te atrapalha social/profissionalmente, treina versões mais discretas: frases mentais curtas, ou mover os lábios sem som.
- A auto-fala pode ajudar em grandes decisões de vida? Sim. Dizer os pensamentos em voz alta pode organizar prioridades e reduzir impulsos. Uma boa fórmula é: “(Nome), o que é que é importante aqui - e qual é o próximo passo pequeno e reversível?”
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