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Estudos de psicologia das cores mostram que pessoas com insegurança crónica tendem a preferir uma paleta de cores consistente.

Mulher sentada no sofá, escolhendo cores de amostras de tinta, mesa com plantas e tintas ao lado.

Numa tarde cinzenta, num escritório banal com luz fria, uma terapeuta pediu a uma cliente que escolhesse cores numa roda no portátil. Entre néons e pastéis, ela voltou sempre ao mesmo: bege poeirento, cinzento frio, azul-marinho “seguro”. Riu-se, pediu desculpa, e evitou tudo o que pudesse chamar atenção.

A terapeuta disse-me que via isto repetidamente: quando a insegurança é crónica, a “preferência” por neutros às vezes funciona como camuflagem.

Porque é que a insegurança crónica molda discretamente as cores em que vivemos

Depois de começares a reparar, aparece em todo o lado: a pessoa que “não quer dar nas vistas” veste tons apagados; o colega que revê tudo três vezes confia sempre no azul-marinho e no preto; em casa, muito cinzento, taupe e branco. Bonito. Seguro. Pouco arriscado.

A psicologia da cor não diz que “o cinzento causa insegurança”. O que muitos profissionais sugerem é mais subtil: em fases de dúvida intensa, tendemos a escolher cores que reduzem a exposição social - menos contraste, menos “presença”, menos possibilidade de ser comentado(a).

Alguns inquéritos e estudos com auto-relato encontram um padrão compatível com isto: pessoas com mais ansiedade/baixa autoestima reportam preferir tons pouco saturados (azuis suaves, verdes apagados, beges, brancos quebrados) e evitam cores muito saturadas (vermelhos vivos, amarelos fortes, turquesas intensos). Faz sentido no dia a dia: cores “altas” podem parecer um holofote.

Isto liga-se aos chamados comportamentos de segurança: pequenas escolhas para baixar a sensação de ameaça. Às vezes é verificar a porta. Outras vezes é não falar numa reunião. As cores também podem entrar nesta lista.

Dois detalhes práticos que ajudam a perceber o mecanismo:

  • Saturação vs. brilho: nem toda a cor “viva” é berrante. Um azul escuro pode ser discreto, mesmo sendo mais saturado do que o teu habitual “azul seguro”.
  • A luz muda tudo: sob LEDs frios (muito comuns em escritórios), cores quentes podem parecer mais agressivas; em casa, com luz mais quente, ficam mais suaves. Antes de concluir “isto é demasiado”, vale ver a cor em luz natural e em luz interior.

O lado difícil é o ciclo: quanto mais te escondes em “cores seguras”, mais a tua cabeça confirma a ideia de que ser visto(a) é perigoso - e a paleta vira uma prisão silenciosa.

Como renegociar com delicadeza a tua zona de conforto cromática

Um exercício simples usado por algumas psicólogas da cor: durante 10 minutos, numa loja ou online, guarda imagens de coisas que te provocam resistência (“brilhante demais”, “ousado demais”). Não compras nada. Só identificas o ponto em que o teu corpo diz “não”.

Depois fazes um passo mínimo: escolhes a opção menos assustadora e trazes essa cor para a tua vida num objeto pequeno. A ideia não é reinvenção. É treinar o teu sistema nervoso a tolerar um pouco mais de visibilidade sem entrar em alerta.

Um erro comum é saltar do “tudo neutro” para um “novo eu” em néon de um dia para o outro. Muitas pessoas sentem que estão disfarçadas - e acabam por recuar, com a narrativa antiga a ganhar: “Não sou esse tipo de pessoa.”

Funciona melhor quando a mudança é mensurável e reversível. Exemplos realistas (e com custo controlado): uma t-shirt barata para testar, um acessório, ou em casa uma almofada antes de pintar uma parede inteira. Se for decoração, uma regra útil para não te arrependeres é tratar a cor nova como acento (uma parte pequena do espaço), e só depois aumentares a dose.

“Percebi que o meu guarda-roupa se parecia exatamente com o meu medo”, disse-me uma leitora depois de um workshop. “Tudo era sobre desaparecer. Quando acrescentei um cachecol cor de mostarda, senti-me ridícula durante uma semana. Depois senti-me… presente.”

  • Começa por acessórios, não por peças de identidade
    Meias, lenço, capa de telemóvel, mala pequena ou unhas (se fizer sentido para ti) deixam-te testar sem sentires que “és” aquela cor.
  • Adiciona cor onde te sentes mais à vontade
    Se em casa relaxas mais, começa aí. Levar primeiro a cor para um ambiente seguro costuma reduzir a ansiedade quando a usas fora.
  • Usa “dois neutros, um risco” como regra simples
    Mantém dois elementos neutros familiares e introduz um tom novo (mais saturado ou mais quente). Dá estrutura e evita a sensação de fantasia.
  • Repara nas histórias, não apenas nos tons
    Quando uma cor parece “demais”, escreve a frase automática (“vão achar que estou a tentar”, “vou parecer ridículo(a)”). Muitas vezes é aí que está o trabalho.
  • Acompanha sentimentos, não estética
    Em vez de “fica bem?”, pergunta “sinto-me encolhido(a) ou com mais espaço?”. Se te dá presença sem te disparar o alarme, é uma boa cor para ti.

As cores que nos escondem, as cores que nos encontram

Depois de veres esta ligação, é difícil não a notar. Podes reconhecer um padrão de “desaparecer” no teu guarda-roupa ou na tua sala. Ou perceber que o “tudo preto” de um adolescente pode ser mais do que uma fase estética: pode ser armadura.

Ao mesmo tempo, isto não quer dizer que quem usa cinzento está mal, nem que tens de encher a tua vida de amarelo fluorescente. O ponto é mais simples: a tua paleta é uma escolha livre - ou é uma estratégia para evitar julgamento?

Cores funcionam muitas vezes como espelhos silenciosos: mostram quanta visibilidade toleramos. Em fases de reconstrução, uma mudança pequena pode ser um sinal concreto de autonomia - uma planta verde num escritório demasiado branco, uma almofada bordô num sofá cinzento, uma camisola num azul mais profundo do que o teu habitual.

E há um fenómeno bonito: às vezes um amigo aparece com uma cor “que nunca usa” e, paradoxalmente, parece mais ele do que nunca. A esperança aqui não é trocar camuflagem por espetáculo - é conseguir que as tuas cores sejam uma presença tranquila: “estou aqui”.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Pessoas inseguras tendem a preferir paletas apagadas Em muitos relatos e estudos, ansiedade/baixa autoestima aparecem associadas a tons pouco saturados e baixo contraste Ajuda-te a distinguir “gosto” de “evitamento”
A mudança funciona melhor em passos minúsculos de cor Acessórios e objetos pequenos baixam o risco e aumentam a tolerância ao longo do tempo Torna a experiência praticável e menos ameaçadora
As escolhas de cor refletem histórias internas “É demais” muitas vezes significa “tenho medo de ser visto(a)” Dá um ponto de entrada concreto para trabalhar autoestima no quotidiano

FAQ:

  • Gostar de cores neutras significa sempre que sou inseguro(a)?
    Não. Neutros podem ser uma preferência estética, prática e calma. O sinal de alerta é sentires que não podes escolher outra coisa sem ansiedade ou vergonha.
  • Há cores específicas associadas a maior confiança?
    Algumas pesquisas associam cores mais saturadas (como certos vermelhos e amarelos) a energia e assertividade, mas o efeito depende do contexto, cultura e da pessoa. “Confiante” é, muitas vezes, a cor que consegues usar sem te sentires encolher.
  • Mudar o meu guarda-roupa pode mesmo afetar a minha autoestima?
    Raramente por si só, e não de forma mágica. Mas pode funcionar como treino: pequenas escolhas repetidas que dizem ao teu cérebro “posso ocupar espaço”, especialmente se estiveres a trabalhar o tema noutras áreas.
  • E se cores brilhantes me deixam ansioso(a) em público?
    Começa em privado e em doses pequenas. Repete a exposição (algumas vezes) antes de concluir que “não dá para ti”, e escolhe situações de menor pressão.
  • O preto é sempre uma cor “de esconder”?
    Não. Pode ser elegante, prático, criativo e até protetor. Torna-se “de esconder” quando é a tua única opção por medo - não quando é uma escolha.

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