Numa cozinha normal, um utensílio de cozinha tão banal como a colher de pau passa o ano a mexer refogados, provar molhos e raspar o fundo do tacho sem pedir atenção. Mas na época de verão, com mais calor e humidade no ar, ele parece “mudar de personalidade”: ganha cheiro, fica mais áspero, mancha com facilidade e até pode deformar ligeiramente. Isto importa porque não é só uma questão de conforto - é uma questão de higiene, sabor e durabilidade.
Há um momento típico: a panela está ao lume, a janela aberta, e você pega na colher que sempre usou. De repente, sente-a ligeiramente pegajosa, ou nota um aroma a “armário” que não estava lá em abril. A madeira, ao contrário do metal, não é neutra; ela responde ao ambiente.
O verão não muda a receita - muda o material
A madeira é porosa. Isso é parte do seu encanto (não risca, não aquece tanto na mão), mas também é o seu ponto fraco quando o ar está carregado de vapor, e a cozinha alterna entre calor e água várias vezes por dia.
Em termos simples, a colher absorve e liberta humidade. No verão, esse ciclo acelera: mais lavagens rápidas, mais secagem apressada, mais tempo em cima do balcão com o ar húmido. E a madeira “trabalha”.
Uma colher de pau no verão comporta-se menos como um objeto rígido e mais como uma esponja disciplinada: absorve, expande, solta, contrai - e guarda memória do que tocou.
O que costuma acontecer (e porquê)
- Cheiros mais persistentes (alho, peixe, caril): moléculas aromáticas entram nos poros e ficam mais “vivas” com o calor.
- Superfície áspera ou levantada: fibras incham com a água e levantam quando secam depressa.
- Manchas e escurecimento: oxidação + restos de comida em microfissuras.
- Pequenas deformações: mudanças rápidas de humidade e temperatura, especialmente se a colher fica de molho.
- Maior risco de bolor: sobretudo se é guardada ainda húmida numa gaveta pouco ventilada.
Os hábitos de verão que pioram tudo (sem darmos por isso)
O problema raramente é “a colher”. É a rotina. No verão, cozinhamos mais leve, mas lavamos mais depressa; fazemos mais grelhados, mais marinadas, mais frutas ácidas. E o utensílio apanha com isso.
Três hábitos comuns são quase sempre os culpados: deixar de molho “só um bocadinho”, secar ao ar num canto abafado, e pôr na máquina de lavar loiça quando a pressa manda.
Os três erros clássicos
- Deixar a colher submersa no lava-loiça: a água entra pela ponta e pelas fibras expostas, inchando a madeira.
- Máquina de lavar loiça + secagem quente: combina água, detergente agressivo e calor forçado - uma receita para rachar e desfibrar.
- Guardar sem estar mesmo seca: humidade retida numa gaveta é um convite ao bolor (e ao cheiro a mofo que “contamina” o molho seguinte).
Um guia curto para a colher voltar ao normal
Pense em três passos: lavar, secar, proteger. Não é preciso ritual; é preciso consistência.
- Lavar já a seguir ao uso, com água morna e detergente suave. Evite esfregar com palha de aço.
- Secar imediatamente com pano e deixar terminar de secar ao ar, mas em local ventilado (não encostada à parede húmida).
- Desodorizar quando necessário: esfregar com meio limão e um pouco de sal grosso, passar por água e secar bem.
- Hidratar a madeira 1–2 vezes por mês no verão: uma camada fina de óleo mineral alimentar (ou óleo próprio para tábuas), deixar absorver e limpar o excesso.
- Se houver bolor visível: não disfarce com perfume. Escove, lave, desinfete com vinagre branco diluído (1:1), enxague e seque completamente. Se voltar, substitua.
Sinais e resposta rápida
| Sinal | O que significa | O que fazer |
|---|---|---|
| Cheiro persistente | Poros saturados + calor | Limão + sal, secar bem, arejar |
| Superfície áspera | Fibras levantadas | Lixa fina (muito leve) + óleo alimentar |
| Manchas escuras | Humidade retida | Secagem total; se não sai, pode ficar (ou substituir) |
Quando é melhor trocar do que insistir
Há uma linha entre “madeira com história” e “madeira que já não é segura”. Se a colher tem fendas profundas, zonas que parecem “esponja”, ou um cheiro a bolor que regressa mesmo após limpeza e secagem completa, o risco já não compensa.
E há outra verdade prática: no verão, com mais calor e mais comida a circular, a tolerância a pequenas contaminações deve ser menor. A colher é barata; uma indisposição alimentar não é.
FAQ:
- A colher de pau pode ir à máquina de lavar loiça? Pode sobreviver, mas no verão tende a degradar-se mais depressa (desfibrar, rachar, ganhar cheiro). Se quiser que dure, lave à mão.
- Como tiro cheiro a alho/peixe? Esfregue com limão e sal grosso, enxague e seque muito bem. Deixe arejar fora da gaveta algumas horas.
- Que óleo devo usar para proteger a madeira? Óleo mineral alimentar (próprio para utensílios/tábuas) é a opção mais estável. Evite azeite para este fim, porque pode rançar e deixar cheiro.
- Bolor pequeno quer dizer que tenho de deitar fora? Se for superficial e não houver fendas, pode limpar e desinfetar, mas se o cheiro voltar ou houver rachaduras, é mais seguro substituir.
- Isto acontece com utensílios de silicone ou metal? Muito menos. O “comportamento de verão” é típico de materiais porosos (madeira, bambu) e, em alguns casos, de certos plásticos que deformam com calor.
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