O frasco parecia quase tímido no meio dos séruns néon e dos géis brilhantes “clinicamente comprovados”. Nada de vidro fosco, nada de cara famosa - apenas um boião de plástico branco com um rótulo azul e branco que a sua avó provavelmente reconheceria. Ao balcão da farmácia, uma mulher na casa dos vinte pegou nele, semicerrrou os olhos para ler os ingredientes e depois sussurrou ao farmacêutico: “Isto… é mesmo bom?” O farmacêutico sorriu - daquele tipo que diz “já vi esta história antes” - e acenou com a cabeça. Há alguns anos, este creme era um detalhe, escondido atrás de cremes com nomes por letras e cocktails de retinol. Agora, dermatologistas estão discretamente a apontar de volta para ele, como um professor a regressar ao quadro.
Nas redes sociais, o burburinho é parecido: “Deixei o meu hidratante de 80$ e a minha pele nem sequer entrou em pânico uma vez.”
Está a acontecer algo estranho no mundo da skincare de luxo.
O regresso silencioso do creme “aborrecido”
Se entrar numa farmácia francesa cedo de manhã, antes da correria, vai notar um padrão. Dermatologistas a caminho das rondas hospitalares muitas vezes passam por lá, pegam num café… e atiram o mesmo hidratante humilde para o cesto. Sem exposição sofisticada. Sem o brilho de “shelfie” do TikTok. Apenas um boião simples com o rótulo CeraVe Moisturizing Cream ou os seus primos, como Vanicream ou Eucerin. As marcas não são “sexy” e a embalagem não grita “viral”. Ainda assim, é este o creme que continua a aparecer em conferências, recomendações clínicas e conversas de grupo de dermatologistas pela noite dentro.
Uma dermatologista de Nova Iorque conta a história de uma editora de beleza que chegou à sua clínica com um saco cheio de séruns. Peptídeos, vitamina C, niacinamida, mucina de caracol, três hidratantes diferentes - todos de grandes casas de luxo. A pele dela? Vermelha, repuxada e salpicada de pequenas borbulhas. A médica pediu-lhe para fazer apenas uma coisa: parar com tudo. Durante três semanas, apenas limpar suavemente e usar um creme básico, sem fragrância, duas vezes por dia. O que lhe entregou foi aquele boião “aborrecido” do fundo da prateleira da parafarmácia. Duas semanas depois, a editora voltou com um brilho saudável - e ligeiramente irritada. Tinha gasto milhares de euros para descobrir que o produto mais barato da casa de banho era o que funcionava melhor.
Os dermatologistas gostam deste tipo de creme por uma razão simples: ele comporta-se bem. Sem perfume intenso, sem 20 extratos de plantas a competir por espaço, sem ativos agressivos empilhados uns em cima dos outros. Apenas uma mistura de ceramidas, glicerina e, por vezes, ácido hialurónico, pensada para reparar a barreira cutânea em vez de a confundir. As grandes marcas de prestígio muitas vezes perseguem a novidade e a linguagem de marketing; os cremes de farmácia são construídos em torno de necessidades clínicas. Quando se reduz a skincare à função, esta fórmula à antiga ganha a corrida em silêncio.
Como usar este campeão “à antiga” como um dermato
O método que os dermatologistas partilham com os doentes é surpreendentemente simples. À noite, lave o rosto com um gel/creme de limpeza muito suave, sem espuma - um daqueles que quase parecem demasiado leves. Seque a pele com toques, não esfregue, com uma toalha macia, para que fique ainda ligeiramente húmida. Depois, retire uma pequena quantidade de creme, aqueça-o entre os dedos e pressione-o no rosto, pescoço e até no contorno dos olhos, se a sua pele tolerar. Não é preciso nenhuma massagem elaborada - apenas movimentos lentos e uniformes até o creme “derreter” na pele. De manhã, repita o mesmo ritual e, por cima, aplique um protetor solar de largo espetro. É isso: uma rotina de dois passos que até seres humanos meio a dormir conseguem cumprir.
O erro surpreendente que muitos de nós cometemos é tentar transformar este tipo de creme num ator secundário, em vez de o colocar como protagonista. Empilhamos tónicos ácidos, vitamina C, retinóides, óleos, brumas de essência - e depois pedimos a este hidratante simples que “resolva” a irritação. Ele não consegue. O verdadeiro poder aparece quando lhe damos espaço para funcionar. Para pele irritada, sensibilizada ou com tendência acneica, os dermatologistas frequentemente aconselham um “reset da barreira”: quatro a seis semanas apenas com limpeza suave, um creme rico em ceramidas deste género e protetor solar. Essa pausa assusta, se gosta de produtos. Mas a pele costuma responder com uma calma que já se tinha esquecido que era possível. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
Um dermatologista resumiu a ideia durante uma pausa para café numa conferência:
“As pessoas não precisam de dez hidratantes. Precisam de um em que a pele confie. Quanto menos entusiasmante ele parecer, maior a probabilidade de funcionar.”
Para tornar esta rotina minimalista mais fácil de seguir, muitos especialistas partilham agora uma lista básica:
- Creme sem fragrância e sem corantes como hidratante principal
- Lista de ingredientes curta, com ceramidas e glicerina bem no topo
- Usar duas vezes por dia sobre pele ligeiramente húmida para melhor absorção
- Combinar apenas com limpeza suave e protetor solar de largo espetro
- Reintroduzir séruns ativos lentamente, um de cada vez, após 3–4 semanas
Esse é o guião discreto por trás das histórias de “a minha pele finalmente acalmou” que se veem online.
Um pequeno boião, uma mudança maior na forma como tratamos a pele
O que este regresso de um creme à antiga realmente revela é uma mudança de mentalidade. Durante anos, skincare significava perseguir correção: “corrigir esta ruga”, “apagar esta mancha”, “encolher estes poros”. Cada promessa vinha na sua própria embalagem com marca, muitas vezes associada a um grande nome e a um orçamento ainda maior. Agora, mais pessoas, guiadas por dermatologistas, estão a virar-se primeiro para a proteção. Reparar a barreira, alimentá-la com lípidos e humectantes, e só depois acrescentar ingredientes direcionados - se necessário. O hidratante humilde de farmácia deixa de ser um plano B e passa a ser uma âncora diária. Não grita na prateleira, mas mantém discretamente a paz entre a pele e tudo o que lhe atiramos em cima - poluição, clima, stress, ecrãs.
A parte engraçada? Muitos destes cremes quase não mudaram em anos. Os slogans de marketing mudaram, a embalagem ficou ligeiramente mais “afiada”, mas as fórmulas-base parecem teimosamente estáveis. Há algo estranhamente reconfortante nisso. Num mundo de “novidades” constantes, um produto à antiga a receber notas máximas de especialistas soa como um lembrete de que o progresso nem sempre é acrescentar mais. Às vezes é confiar no que já funcionava - e, finalmente, ouvir quem o recomendava desde o início. Talvez seja por isso que, quando se observa dermatologistas a fazer compras, os cestos deles parecem quase aborrecidos - e a pele deles discretamente, teimosamente boa.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Abordagem “barreira primeiro” | Cremes à antiga, ricos em ceramidas, focam-se em reparar e proteger a barreira cutânea | Menos crises, menos irritação, pele mais estável ao longo do tempo |
| Rotinas simples funcionam | Limpeza suave + hidratante “aborrecido” + FPS muitas vezes superam rotinas complexas | Poupa dinheiro e tempo, e reduz a sobrecarga de produtos |
| Fórmulas aprovadas por dermatologistas | Sem fragrância, ingredientes mínimos, pensadas para pele sensível | Maior probabilidade de a pele tolerar, mesmo quando reativa |
FAQ:
- Pergunta 1: De que hidratante “à antiga” é que os dermatologistas estão realmente a falar?
- Resposta 1: Na maioria das vezes, referem básicos de farmácia como o CeraVe Moisturizing Cream, o Vanicream Moisturizing Cream e alguns cremes de barreira da Eucerin ou La Roche-Posay - sem fragrância, em boiões ou tubos simples.
- Pergunta 2: Este tipo de creme pode substituir o meu hidratante anti-idade caro?
- Resposta 2: Para muitas pessoas, sim. Pode continuar a usar ativos direcionados (como retinol) à noite e confiar no creme mais simples para hidratar, amortecer a irritação e proteger a barreira.
- Pergunta 3: Um hidratante básico vai obstruir os poros se eu tiver acne?
- Resposta 3: Procure “não comedogénico” no rótulo e uma textura de creme feita para rosto e corpo. Dermatologistas muitas vezes recomendam estas fórmulas simples até a doentes com acne, porque uma pele calma e hidratada reage melhor ao tratamento.
- Pergunta 4: Quanto tempo demora a ver resultados se eu mudar para este tipo de produto?
- Resposta 4: Pode notar menos repuxamento e vermelhidão em poucos dias, mas a reparação real da barreira costuma aparecer em 3–4 semanas de uso consistente com uma rotina suave.
- Pergunta 5: Ainda preciso de séruns se o meu hidratante for assim tão eficaz?
- Resposta 5: Os séruns passam a ser opcionais, não obrigatórios. Use-os para objetivos específicos (pigmentação, linhas finas) em vez de por defeito. O hidratante está lá para manter a pele confortável e resistente, todos os dias.
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