Um comentário casual numa reunião, um e-mail mal redigido, e anos de trabalho árduo podem, de repente, parecer muito menos impressionantes. Não porque as suas competências tenham desaparecido, mas porque a forma como fala sobre elas corrói, discretamente, a sua autoridade.
Porque é que algumas frases destroem, em silêncio, a sua credibilidade
A maioria dos profissionais imagina que a reputação assenta em competências técnicas, resultados e experiência. Isso conta. Mas muitas carreiras ficam estagnadas por uma razão muito menos óbvia: frases do dia a dia que o fazem soar apologético, inseguro ou pouco relevante.
A coach de comunicação Kate Mason chama a este padrão a “síndrome da imposição”. Descreve um reflexo, comum entre mulheres mas não exclusivo, de evitar “ocupar espaço” ou incomodar os outros. As pessoas desvalorizam pedidos, atenuam a própria competência e pedem desculpa por simplesmente precisarem do tempo dos colegas.
Quando sinaliza constantemente que o seu trabalho é pequeno, opcional ou incerto, os outros começam a acreditar nisso.
Isto é especialmente frequente entre quem luta com a síndrome do impostor - a sensação persistente de que não merece totalmente o cargo ou as conquistas. Com o tempo, essa dúvida infiltra-se na linguagem. Soa menos a especialista e mais a alguém a pedir um favor.
As 3 frases que o fragilizam no trabalho
Mason destaca três expressões comuns que o sabotam de forma discreta. Podem soar educadas. Não são inofensivas.
1. “Isto é só um segundo” ou “Vou ser mesmo rápido(a)”
À primeira vista, parece atencioso. Está a tentar não interromper o seu chefe ou colega. Na prática, surgem dois problemas.
- Provavelmente não está a dizer a verdade; muito poucos assuntos de trabalho demoram, literalmente, um segundo.
- Enquadra a sua contribuição como tão pequena que mal merece atenção.
Quando repete que o seu ponto “vai ser rápido”, ensina as pessoas a achar que o seu trabalho é menor e que pode ser espremido entre coisas “mais importantes”. Isso prejudica tanto a sua autoridade como as suas prioridades.
Qualquer assunto que valha a pena levantar num contexto profissional merece mais do que um segundo atirado ao ar.
Alternativas melhores:
- “Preciso de cinco minutos para lhe explicar esta decisão.”
- “Podemos marcar dez minutos hoje para rever este ficheiro?”
Estas opções criam um enquadramento claro e dão a entender que o tema tem peso.
2. “Não te preocupes se não conseguires”
Esta frase costuma aparecer no fim de um pedido: um e-mail a pedir feedback, uma mensagem a relembrar um prazo, uma nota no Slack sobre apoio num projeto.
Acha que soa flexível e simpático. O que o seu colega ouve é: “Isto não é realmente prioritário. À vontade para ignorar.” Perante uma caixa de entrada cheia, é exatamente isso que fará.
Em vez de retirar pressão, retira urgência. A tarefa cai para o fundo da lista, mesmo quando precisa mesmo que fique feita.
Experimente formulações mais firmes, mas ainda respeitosas:
- “Consegues enviar isto até quinta-feira para eu poder finalizar o relatório?”
- “Se este prazo não funcionar, vamos combinar um que funcione.”
Ser claro quanto às expectativas não é ser mandão; é ser profissional.
3. “Eu não sou especialista, mas…”
Esta é uma das formas mais comuns de destruir credibilidade em reuniões. No momento em que o diz, convida os outros a desvalorizar o que vem a seguir. Está a avisá-los, de antemão, de que a sua opinião não conta assim tanto.
Para muitos, isto vem do medo de ser criticado ou de parecer arrogante. A frase cria distância entre si e a sua própria opinião. No entanto, foi contratado pelo seu julgamento e pelas suas competências. Enfraquecer constantemente a sua posição sugere que duvida delas.
Aberturas mais construtivas podem ser:
- “Da minha perspetiva do lado do produto…”
- “Com base nos dados que vimos este trimestre…”
- “Isto é o que tenho vindo a notar junto dos nossos clientes…”
Apresente a sua contribuição com confiança tranquila e deixe que os outros decidam como a ponderar.
De onde vem esta linguagem de auto-sabotagem
As pessoas raramente usam estas frases por acaso. Elas nascem de padrões mais profundos, moldados por normas de género, dinâmicas familiares e cultura do local de trabalho.
As expectativas sociais ainda empurram muitas mulheres - e alguns homens - para parecerem agradáveis, não ameaçadores e infinitamente acomodados. Pedidos diretos são rotulados de “insistentes”. Limites claros são lidos como “difíceis”. Com o tempo, os profissionais adotam frases suavizadoras como autoproteção.
Psicoterapeutas apontam também para experiências familiares precoces. Crianças criadas por pais narcisistas ou emocionalmente instáveis aprendem, muitas vezes, que as suas necessidades vêm em segundo lugar. Tornam-se especialistas em não causar problemas. Na vida adulta, isto pode manifestar-se como hesitação crónica em pedir apoio, defender recursos ou afirmar uma opinião com firmeza.
Quando passou anos a tentar não chatear ninguém, ser direto no trabalho pode parecer quase perigoso.
Some-se a síndrome do impostor e o efeito multiplica-se. Se, no íntimo, acredita que é menos capaz do que os colegas, é mais provável que peça desculpa por existir na reunião, em vez de falar como um par.
Como soar assertivo sem soar mal-educado
Muitos profissionais temem que o oposto da auto-sabotagem seja a agressividade. A realidade está no meio: assertividade. Ou seja, ser claro quanto ao que precisa, respeitando as limitações dos outros.
| Frase de auto-sabotagem | Alternativa assertiva |
|---|---|
| “Isto é só um segundo.” | “Gostava de ter dez minutos para rever os riscos disto.” |
| “Não te preocupes se não conseguires.” | “Consegues enviar isto hoje para mantermos o calendário?” |
| “Eu não sou especialista, mas…” | “Com base na minha experiência com estes clientes…” |
Repare que nenhuma das alternativas “grita”. Limitam-se a dizer o que precisa e porquê, usando prazos concretos e referências ao seu papel ou a dados.
Cenários práticos: o que dizer em vez disso
Cenário 1: pedir tempo a um gestor ocupado
Pouco útil: “Posso roubar-te só um segundo? Vou ser super rápido(a).”
Isto sugere que o assunto é trivial e incentiva o seu gestor a despachá-lo ou a adiar indefinidamente.
Mais eficaz: “Preciso de 15 minutos hoje para alinharmos a decisão do orçamento. Tens disponibilidade às 15h, ou é melhor outra hora?”
Mostra respeito pela agenda, mas também afirma que o tema importa e precisa de um espaço.
Cenário 2: insistir por feedback em atraso
Pouco útil: “Só a confirmar isto, mas não te preocupes se não conseguires ver.”
Essa mensagem quase garante mais uma semana de silêncio.
Mais eficaz: “Consegues rever até quarta-feira? Preciso dos teus comentários para finalizar o design até sexta.”
Prazos específicos mais uma consequência clara criam responsabilização natural, sem ameaças.
Cenário 3: intervir numa reunião técnica
Pouco útil: “Eu não sou especialista, mas parece-me que os clientes podem ter dificuldade com esta funcionalidade.”
Os colegas podem descartar isto como um palpite vago.
Mais eficaz: “As últimas três entrevistas a utilizadores evidenciaram confusão neste passo. Podemos precisar de simplificar a disposição.”
Aqui, fundamenta a preocupação em evidência e aponta uma direção construtiva.
Mudar hábitos: por onde começar esta semana
Mudar a sua linguagem não exige uma transplante de personalidade. Pequenos ajustes repetidos criam uma nova impressão.
- Preste atenção aos próximos dez e-mails e mensagens. Retire frases que minimizam o seu pedido.
- Substitua clichés que encolhem o tempo (“só um seg”, “muito rápido”) por estimativas realistas.
- Antes de falar numa reunião, elimine mentalmente qualquer ressalva do tipo “posso estar errado(a)” ou “não sou especialista”.
- Repare nas situações em que se sente culpado(a) por pedir. Esse desconforto muitas vezes assinala um ponto onde está a aprender a ser assertivo(a).
Com o tempo, os colegas começam a responder de forma diferente. As reuniões ganham mais estrutura. A sua contribuição passa a ser procurada, em vez de tolerada. Surgem oportunidades que antes lhe escapavam, simplesmente porque soa como alguém que sabe o que está a fazer.
Por trás de tudo isto está uma mudança básica: tratar o seu próprio tempo, a sua perspetiva e o seu trabalho como valiosos. Isso não é arrogância. Num local de trabalho onde a atenção é moeda, é uma estratégia prática para proteger a carreira que trabalhou tanto para construir.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário