Muitas pessoas culpam o trabalho, o dinheiro ou as relações pela sua falta de alegria, ignorando um culpado mais subtil: as histórias que repetem na cabeça. Essas narrativas internas podem soar inofensivas ou até sensatas, mas, aos poucos, moldam escolhas, encolhem sonhos e mantêm a felicidade em suspenso.
O custo escondido das mentiras reconfortantes
O psicólogo Jeffrey Bernstein, citado na Psychology Today, defende que as histórias que contamos a nós próprios funcionam como correntes invisíveis. Parecem protetoras. Soam razoáveis. E até acalmam a ansiedade a curto prazo.
Algumas das “verdades” em que confia todos os dias não são verdades de todo, mas mentiras reconfortantes que limitam silenciosamente a sua vida.
Estas histórias mentais influenciam a que empregos se candidata, que pessoas namora, como passa as noites e até como cuida da saúde. Se não forem questionadas, mantêm-no preso em rotinas e relações pouco satisfatórias, ao mesmo tempo que o convencem de que não existe outra opção.
Entre as muitas autoilusões que as pessoas usam, três destacam-se pelo impacto na felicidade e na realização pessoal. Surgem em diferentes culturas, diferentes idades e diferentes profissões. E soam perfeitamente normais.
Mentira n.º 1: “Não está assim tão mal”
A primeira mentira comum parece quase modesta: “Não está assim tão mal.” À superfície, parece gratidão ou resiliência. Diz a si próprio que o seu trabalho é “aceitável”, a sua relação é “mais ou menos”, o seu stress é “normal”. Olha à volta e vê pessoas que parecem estar pior, por isso cala-se.
Mas esta frase esconde muitas vezes uma mensagem mais profunda: “Eu não mereço melhor” ou “Mudar seria demasiado desconfortável.” Com o tempo, o “não está assim tão mal” transforma-se no teto da sua vida.
Conformar-se com o “não está assim tão mal” corrói gradualmente a ambição e faz com que a alegria genuína pareça irrealista ou até egoísta.
Os psicólogos associam este estado de espírito ao que por vezes se chama “armadilha da zona de conforto”. Os seres humanos preferem o familiar, mesmo quando o familiar é desgastante. O seu cérebro tende a favorecer a previsibilidade em detrimento do crescimento, porque a previsibilidade parece mais segura.
Como o “não está assim tão mal” se vira contra si em silêncio
- Fica num emprego estagnado em vez de procurar formação ou uma mudança.
- Aceita distância emocional numa relação em vez de pedir mais honestidade e proximidade.
- Vive com stress crónico ou fadiga em vez de ajustar o horário ou os hábitos.
Nenhuma destas decisões parece extrema, por si só. O dano surge devagar, sob a forma de baixa motivação, ressentimento silencioso e aquela sensação persistente de que a vida está a acontecer noutro lado, a outras pessoas.
Mentira n.º 2: “Trato disso mais tarde”
A segunda mentira soa inofensiva e flexível: “Trato disso mais tarde.” Serve para tudo, desde desmarcar um check-up médico até adiar uma conversa difícil, desde atrasar um plano de poupança até ignorar um projeto criativo.
A procrastinação não é apenas preguiça. Para muitos, é uma estratégia de lidar com o medo: medo de falhar, de ser julgado, do aborrecimento ou até do sucesso. Ao empurrar tarefas para o futuro, evita sentimentos desconfortáveis no presente.
Sempre que diz “mais tarde” a algo que importa, diz silenciosamente “não é importante” ao seu próprio futuro.
A investigação em ciências comportamentais mostra que o cérebro humano desvaloriza fortemente as recompensas futuras. Um benefício vago no futuro tem dificuldade em competir com o conforto de fazer scroll no telemóvel ou manter rotinas familiares agora mesmo.
Transformar o “mais tarde” em passos pequenos e concretos
Os psicólogos recomendam frequentemente micro-ações como antídoto. Em vez de esperar “pelo momento certo”, reduza o primeiro passo até parecer quase embaraçosamente fácil.
| Grande objetivo | Pensamento típico de “mais tarde” | Micro-ação que pode fazer hoje |
|---|---|---|
| Mudar de emprego | “Atualizo o meu CV quando tiver um fim de semana livre.” | Passe 10 minutos a listar competências que usa diariamente. |
| Ficar em melhor forma | “Começo uma rotina completa no próximo mês.” | Caminhe 8 minutos depois do almoço. |
| Poupar dinheiro | “Vejo as minhas finanças quando ganhar mais.” | Consulte um extrato bancário e anote três despesas principais. |
Cada pequena ação envia um sinal ao cérebro: “Isto importa.” Com o tempo, esses sinais acumulam-se e transformam-se em novos hábitos e numa autoimagem diferente.
Mentira n.º 3: “Sou demasiado velho… ou demasiado novo”
A terceira mentira ataca diretamente a identidade: “Sou demasiado velho” ou “Sou demasiado novo” para começar, mudar, sair, aprender ou tentar. A idade torna-se um escudo que levanta sempre que surge um desejo.
As expectativas sociais têm aqui um papel forte. Muitas pessoas absorveram uma linha temporal silenciosa: estudar nos vinte, assentar nos trinta, manter nos quarenta, abrandar mais tarde. Tudo o que foge a este guião parece arriscado ou inadequado.
As desculpas baseadas na idade escondem muitas vezes um medo mais profundo: não o medo de falhar, mas o medo de se destacar entre pessoas da sua idade.
No entanto, a vida real contradiz constantemente esta história. Há pessoas que abrem negócios aos 60, voltam à universidade aos 45, mudam de carreira aos 50, começam terapia aos 70, publicam livros aos 25 depois de um início instável na escola. A neurociência mostra que o cérebro mantém a capacidade de aprender ao longo da vida, mesmo que o ritmo e o estilo de aprendizagem mudem.
Mudar a pergunta que faz a si próprio
Em vez de repetir “na minha idade não dá”, Bernstein sugere uma pergunta interna diferente: “E se desse?” Esta pequena mudança abre a porta à imaginação e ao planeamento, em vez da resignação.
Isto não significa fingir que a idade não tem impacto. A energia, as responsabilidades e a saúde variam. Ainda assim, a idade também pode trazer vantagens: experiência, perspetiva, redes de contactos e, por vezes, um sentido mais apurado do que realmente importa.
Três perguntas que quebram o feitiço
Então, como afrouxar o aperto destas mentiras do dia a dia? Bernstein recomenda parar e fazer a si próprio três perguntas direcionadas sempre que ouvir um desses pensamentos a repetir-se na cabeça:
- O que estou a evitar ao agarrar-me a esta crença?
- Qual é o pior que poderia realisticamente acontecer se eu a largasse?
- Qual é o melhor que poderia realisticamente acontecer se eu agisse?
A primeira pergunta revela o benefício escondido da mentira: talvez o proteja de conflito, trabalho duro ou incerteza. A segunda põe os seus medos à prova da realidade, em vez da imaginação. A terceira reconecta-o com a possibilidade.
Escrever as respostas pode ser especialmente poderoso. No papel, a mentira muitas vezes parece mais frágil e menos convincente do que soava na sua cabeça.
De auto-sabotagem a pequenos atos de coragem
Os psicólogos usam por vezes o termo “auto-sabotagem” para estes padrões: ações ou crenças que bloqueiam objetivos que diz valorizar. Um exemplo clássico é querer uma relação estável enquanto escolhe sempre parceiros emocionalmente indisponíveis e, depois, afirma “é assim que as coisas me acontecem”.
Quebrar a auto-sabotagem raramente exige uma transformação dramática. Normalmente começa com pequenos atos que contradizem a história antiga. Envia um e-mail. Marca uma aula. Diz uma frase honesta em vez de fingir que não é nada. Cada ato é um voto numa nova identidade.
Um exercício útil é registar, durante uma semana, quando se ouve a pensar ou a dizer frases como “está tudo bem”, “depois faço”, ou “na minha idade não”. Ao lado de cada momento, anote o que realmente queria. Este contraste pode ser revelador.
Cenários práticos: como as três mentiras se manifestam
Imagine uma pessoa de 38 anos que não gosta do seu emprego. Diz a si própria “não está assim tão mal, pelo menos é estável” (mentira 1), adia pesquisar cursos de formação para “quando as coisas acalmarem” (mentira 2) e acredita, em silêncio, que já é demasiado velha para se reconverter (mentira 3). Nenhum destes pensamentos parece dramático. Em conjunto, criam uma gaiola fechada.
Agora imagine a mesma pessoa a usar as três perguntas. Percebe que está a evitar a incerteza e o possível julgamento da família. O pior resultado realista da mudança é uma queda temporária no rendimento e algumas conversas desconfortáveis. O melhor resultado é um trabalho alinhado com os seus valores e um sentido mais forte de autorrespeito. Essa mudança não resolve tudo, mas torna muito mais provável fazer uma chamada para um orientador de carreira.
O mesmo padrão aparece em áreas mais pessoais. Alguém numa relação longa e insatisfatória pode dizer a si próprio “há quem esteja pior”, prometer abordar o assunto “depois da época mais intensa” e achar que é demasiado velho para recomeçar. Identificar estas frases como mentiras não dita se a pessoa deve sair ou ficar. Apenas devolve a escolha à mesa.
Hábitos relacionados que reforçam as mentiras
Vários hábitos do dia a dia tornam estas três mentiras mais difíceis de detetar:
- Comparação constante nas redes sociais, que normaliza tanto o excesso de trabalho como a sub-realização.
- Agenda sobrelotada, sem tempo para refletir sobre o que realmente quer.
- Falta crónica de sono, que reduz a resiliência emocional e faz com que qualquer mudança pareça impossível.
- Pensamento de tudo-ou-nada, em que qualquer passo imperfeito parece inútil.
Mudar apenas um destes hábitos de forma ligeira - por exemplo, acrescentar uma hora semanal sem ecrãs para pensar ou escrever um diário - pode torná-lo mais sensível aos momentos em que está a mentir a si próprio.
O poder silencioso de se questionar
Desafiar estas três mentiras não garante felicidade constante. A vida continua a trazer perdas, injustiças e limites. Mas abandonar a autoilusão muitas vezes conduz a um desconforto mais limpo: o desconforto de escolhas honestas e prioridades claras.
Com o tempo, essa clareza tende a trazer uma forma de felicidade mais enraizada. Não a versão brilhante das redes sociais, mas a sensação mais tranquila de que os seus dias lhe pertencem de facto - e de que os seus pensamentos finalmente estão a trabalhar consigo, em vez de contra si.
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