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Esta planta comum pode atrair cobras para o seu jardim, por isso os especialistas aconselham a não a plantar.

Mãos com luvas de jardinagem segurando uma ferramenta ao lado de plantas e lavanda num jardim bem cuidado.

O primeiro dia em que vi uma cobra no meu jardim, nem reparei logo. Foi apenas um clarão no canto do olhar, uma sombra que se mexia de forma diferente da brisa. Depois a forma ficou nítida, longa e sinuosa, a deslizar entre as pedras perto de uma planta viçosa, de cheiro doce, da qual eu tanto me orgulhava. O coração começou-me a disparar enquanto fiquei imóvel no caminho, com a mangueira ainda a correr na mão.

Foi então que o meu vizinho se inclinou por cima da vedação e disse, meio divertido, meio a sério: “Foste tu que plantaste isso? Não admira que elas apareçam.”

Eu não fazia ideia de que uma planta com ar tão inocente pudesse transformar um quintal sossegado num ponto de encontro de répteis.

Acontece que pode mesmo.

A planta inocente do jardim que as cobras adoram em silêncio

Muitos jardineiros ficam chocados ao descobrir que algumas das plantas mais bonitas ou mais úteis podem funcionar como um letreiro de néon para cobras. Não porque gostem da planta em si, mas por causa do que cresce, se esconde ou se alimenta à volta dela. Uma das piores “culpadas” em muitos jardins de clima temperado é a cobertura de solo rasteira, que abraça a terra e retém humidade.

Pense em hera densa, zimbro rasteiro ou mantas espessas de hortelã a cobrir a base de uma vedação ou de um muro. Debaixo desse cobertor fresco e escuro, a vida prospera: lesmas, insetos, pequenos roedores. Tudo aquilo que as cobras consideram um banquete.

Uma leitora da Geórgia contou-me que plantou hera-inglesa ao longo do fundo do quintal para “tapear a vedação feia” e reduzir as ervas daninhas. Resultou… no início. Depois começou a ver pequenos buracos na hera, como túneis estreitos por onde os ratos passavam sem serem vistos. Algumas semanas mais tarde, o cão dela recusava-se a aproximar-se daquele canto.

Uma tarde, levantou uma placa de hera para arrancar o que pensava ser uma erva daninha. Saiu de lá uma cobra, perfeitamente à vontade nas raízes frescas e emaranhadas. Basicamente, ela tinha-lhe construído um hotel de cinco estrelas, com serviço de quarto e cortinas opacas incluídos.

A lógica é dolorosamente simples quando se percebe. As cobras não aparecem do nada; seguem comida, abrigo e temperatura. Coberturas de solo densas e bordaduras deixadas ao abandono retêm humidade, atraem insetos e dão refúgio a roedores. Esses roedores roem sementes caídas, bagas e raízes da própria planta que você achava “de baixa manutenção”.

As cobras, por serem oportunistas, simplesmente instalam-se. A planta não é um isco mágico para cobras; é parte de uma reação em cadeia que você criou sem se aperceber. Quando essa cadeia envolve sombra, humidade e presas, o seu jardim torna-se um quebra-cabeças silencioso e móvel de escamas.

Como evitar plantar um “ímã” de cobras sem estragar o seu jardim

O primeiro passo prático é brutalmente simples: olhe para baixo, não para cima. Antes de comprar qualquer planta “de crescimento rápido” ou “excelente cobertura de solo”, imagine o que acontece debaixo das folhas. Se formar uma manta apertada através da qual não consegue ver facilmente, isso é potencial imobiliário para cobras.

Prefira plantas que crescem em tufos, com solo visível entre elas, em vez das que cobrem o chão como um tapete verde. Quebre zonas sombrias e densas com faixas de gravilha, lajes de passagem ou caminhos com cobertura de mulch, para que nada fique permanentemente escuro e intocado sobre o solo.

Muita gente culpa a cobra e ignora o “cenário” que criou. Todos já passámos por isso: aquele momento em que queremos um aspeto selvagem, exuberante, tipo “selva”, e deixamos uma planta entusiasmada dominar tudo. Depois, de repente, estamos ali a perguntar-nos por que razão algo com presas nos está a encarar.

Eis a reviravolta: não tem de arrancar todas as plantas de que gosta. Comece por podar os 10–15 cm inferiores de sebes e arbustos altos, levantando essa cortina verde para conseguir ver o solo. Limpe a hera espessa encostada diretamente à casa ou ao abrigo. Deixe o espaço à volta de muros, pilhas de lenha e compostores “respirar”. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas fazê-lo duas vezes por ano já muda todo o microclima.

“As cobras quase nunca vêm pela planta”, explica um técnico de controlo de pragas rurais com quem falei. “Vêm por aquilo que se esconde por baixo. Quando as pessoas limpam a cobertura densa e fresca ao nível do chão, as cobras normalmente desaparecem por si. Não é preciso odiar a vida selvagem; só tem de deixar de lhes construir o esconderijo perfeito junto à porta das traseiras.”

  • Evite coberturas de solo ultra-densas
    Pense em hera, zimbro rasteiro, pachysandra e tapetes de hortelã deixados ao abandono junto a muros e vedações.
  • Crie linhas de visão abertas ao nível do chão
    Eleve os ramos inferiores, desbaste bordaduras e deixe 5–10 cm de solo ou mulch visível junto a caminhos e terraços.
  • Controle as fontes de alimento à volta de plantas “de risco”
    Apanhe fruta caída, sementes e bagas, e guarde comida de animais e sementes para pássaros longe do chão.
  • Interrompa faixas longas de sombra
    Use gravilha, lajes de passagem ou floreiras baixas para quebrar corredores frescos e escuros por onde roedores e cobras se deslocam sem serem vistos.
  • Inspecione por estação, não obsessivamente
    Uma verificação rápida na primavera e no fim do verão debaixo de plantas densas costuma bastar para detetar problemas antes de se instalarem de vez.

Viver com a natureza sem convidar cobras a mudarem-se

Quando começa a olhar para o seu jardim pelos olhos de uma cobra, é difícil “desver”. Aquele canto sombrio atrás do abrigo já não é apenas “um pouco selvagem”; é um potencial terreno de caça com cobertura perfeita e zero perturbação. A planta que achava que lhe poupava trabalho pode estar, discretamente, a acolher toda uma teia alimentar mesmo debaixo do seu nariz.

O verdadeiro desafio é o equilíbrio. Pode gostar de verdura, aves e borboletas sem transformar o quintal num resort de répteis. Trocar uma ou duas plantas “em tapete” por gramíneas mais leves, vivazes floridas ou canteiros elevados muda o guião. Continua a ter vida, cor e sombra. Só que com menos surpresas enroladas debaixo dos seus pés.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Evitar “tapetes” densos de cobertura de solo Hera, moitas de hortelã e plantas semelhantes criam túneis escuros e húmidos para presas e cobras. Reduz a probabilidade de as cobras se instalarem sem abdicar da verdura.
Manter a linha do solo visível Apare sebes e bordaduras para conseguir ver 5–15 cm acima do nível do solo. Torna os esconderijos menos atrativos e permite detetar movimento rapidamente.
Controlar fontes de alimento junto de plantas suspeitas Reduza fruta caída, sementes e roedores perto de zonas frescas e protegidas. Quebra a cadeia que traz cobras para o jardim em primeiro lugar.

FAQ:

  • O que é a “planta-cobra” de que as pessoas falam?
    Apesar do nome, a planta de interior popularmente chamada “planta-cobra” (Sansevieria) não atrai cobras. O problema no exterior costuma ser plantas densas e rasteiras que escondem presas, não o nome da planta.
  • Que plantas de jardim têm mais probabilidade de atrair cobras?
    Qualquer planta que forme um tapete grosso, fresco e baixo junto a muros ou vedações pode atrair cobras indiretamente: hera, alguns zimbros rasteiros, pachysandra e canteiros de hortelã abandonados são culpados frequentes.
  • As cobras comem as plantas em si?
    Não. As cobras não vêm pela planta; vêm pela comida e pelo abrigo à volta dela. Roedores, rãs, insetos e ovos escondidos sob folhagem densa são o verdadeiro “ímã”.
  • Se eu remover as plantas densas, as cobras vão embora?
    Muitas vezes, sim. Quando desaparecem a cobertura e a comida, as cobras tendem a mudar-se para locais mais calmos e seguros. Pode demorar algumas semanas, mas a alteração do habitat costuma fazer o trabalho.
  • Todas as cobras de jardim são perigosas?
    Muitas cobras de jardim são inofensivas ou até úteis contra roedores. Ainda assim, se não tiver a certeza da espécie ou viver numa zona com cobras venenosas, mantenha distância e contacte as autoridades locais de vida selvagem ou um serviço de controlo de pragas para aconselhamento.

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