La cena passa-se num café de bairro, numa banal manhã de terça-feira.
Um homem desliza pelas notificações, com um ar ligeiramente irritado, antes de levantar os olhos para a colega: «Porque é que esta app de meteorologia sabe onde eu estive ontem à noite?». Ela encolhe os ombros, ri-se e retoma o seu latte. A conversa esmorece, como se a pergunta não tivesse realmente uma resposta possível.
Ao fundo da sala, uma jovem acaba de instalar um novo jogo no telemóvel. Pop-up: “Permitir acesso à sua atividade?”. Ela carrega em “Permitir” sem ler, já capturada pelo primeiro nível. O telemóvel vibra, o mundo volta a andar, a vida continua.
Entre dois goles de café, milhares de pequenos “OK” silenciosos alinham-se a cada minuto no mundo inteiro. Por detrás de um deles, esconde-se um direito de observação que ninguém vigia verdadeiramente.
A permissão que ninguém lê, mas quase toda a gente dá
Fala-se muito da geolocalização, do microfone, da câmara. Mas a autorização mais subestimada hoje, tanto no Android como no iOS, é a que está ligada ao “movimento” ou à “atividade física” do telemóvel. Chama-se “Physical activity”, “Motion & Fitness” ou “Body sensors”, conforme os modelos. No papel, serve para contar passos ou acompanhar treinos. Na vida real, conta muito mais do que os seus quilómetros.
Esta permissão permite às apps saber se está a andar, se está a conduzir, se está sentado no sofá. Pode adivinhar a que horas sai para o trabalho, quando regressa, se usa as escadas ou o elevador. Tudo isto sem nunca ter de ligar o GPS, o microfone ou a câmara. Os dados vêm dos sensores internos do telemóvel - esses instrumentos minúsculos que registam movimentos, rotações e vibrações do quotidiano.
Oficialmente, está tudo enquadrado. Os sistemas operativos regulam esta permissão, falam de “saúde”, “bem-estar”, “monitorização de fitness”. Nas definições, o ícone é muitas vezes um bonequinho a andar, quase simpático. Só que esse logótipo discreto esconde um fluxo constante de informação sobre a sua forma de viver. E esse fluxo não tem nada de inofensivo para quem sabe interpretá-lo.
De “apenas passos” a um perfil comportamental completo
Numa noite, a Léa descarrega uma app de monitorização do sono recomendada por uma influenciadora. Aceita tudo: atividade, sensores, notificações. Nos primeiros dias, está encantada. A app diz-lhe quando dorme mal, quando acorda, quando deveria ir para a cama. Depois, um detalhe incomoda-a: ao fim de uma semana, a app sugere “reduzir o tempo passado no carro depois das 18h” para dormir melhor.
Ela nunca indicou que conduzia. E, no entanto, a app percebeu. As acelerações, as travagens, as microvibrações do telemóvel no veículo: todos esses sinais bastam para deduzir que está ao volante. Melhor ainda, o software traçou um hábito: várias deslocações noturnas, sempre à mesma hora. Ela vê apenas uma notificação aparentemente inocente. Nos bastidores, é um pedaço da sua rotina íntima que acaba de ser modelado.
Investigadores em segurança digital mostraram-no repetidamente: a partir dos sensores de movimento, é possível detetar se está a correr, a andar de bicicleta, num comboio ou num autocarro, ou se passa horas esparramado numa cadeira. Um estudo da Universidade de Stanford chegou mesmo a demonstrar que, analisando apenas dados do acelerómetro, se conseguem estimar com uma margem surpreendente os seus horários de trabalho e o seu nível global de atividade.
O desafio não é apenas desportivo. Este tipo de dados interessa a seguradoras, anunciantes, empregadores e, por vezes, até a senhorios. Um modelo que veja que conduz frequentemente à noite, dorme pouco e se mexe pouco pode concluir que tem um “perfil de risco”. Tudo isto sem questionários - apenas com a permissão “atividade física” que ofereceu a uma app de meditação ou a uma meteorologia “um pouco mais precisa”. A fronteira entre serviço útil e perfilagem comportamental é estranhamente porosa.
Recuperar o controlo daquele pequeno interruptor de “atividade”
A boa notícia é que esta autorização pode ser controlada. Não necessariamente lendo cada pop-up ao detalhe - sejamos realistas. Ninguém quer transformar cada instalação de uma app num exame de direito digital. O reflexo útil é ir, de uma vez por todas, às definições e retomar o controlo sobre esse famoso “movimento / atividade física”. No Android, pode estar em “Privacidade” ou “Sensores do corpo”. No iPhone, aparece como “Motion & Fitness” na secção “Privacidade e Segurança”.
O método mais simples: fazer o contrário do que se faz por defeito. Desligar tudo, para toda a gente. Depois, voltar a ligar, uma a uma, apenas as apps que realmente precisam de saber se se mexe. Uma app de saúde prescrita por um médico? Talvez. Um pedómetro sério, transparente quanto ao uso dos dados? No limite. Um jogo de puzzles ou uma app de lanterna a pedir acesso à sua atividade? Aí, não.
Todos já vivemos o momento em que se clica em “Aceitar” só para despachar uma janela intrusiva. O gesto tornou-se automático, quase pavloviano. Ainda assim, investir 10 minutos a arrumar estas permissões muda, de forma concreta, aquilo que o seu telemóvel revela sobre si. Esta limpeza não apaga os dados já recolhidos. Mas fecha a torneira para o futuro. É um pouco como fechar uma porta que se tinha deixado entreaberta “só para ver”.
Armadilhas comuns, arrependimentos silenciosos e um pouco de frontalidade
As apps que mais abusam desta permissão nem sempre são as que imaginamos. Algumas apps de meteorologia usam a atividade para prever “o seu momento ideal para sair”. Serviços de boleias analisam os seus deslocamentos para otimizar notificações. Alguns jogos móveis usam estes sensores para ajustar a frequência de anúncios, consoante o tempo que passa em transportes. E, de cada vez, surge a mesma frase tranquilizadora: “Usamos estes dados para melhorar a sua experiência”.
Sejamos honestos: ninguém lê as políticas de privacidade até ao fim. Nem você, nem eu, nem a maioria dos próprios developers. E esse é o problema. Esta preguiça compreensível tornou-se o combustível de uma indústria inteira de monetização de dados comportamentais. Acabamos a partilhar idas e voltas, insónias, inícios de burnout, porque só queríamos testar uma app na moda que prometia um “eu melhor”.
“Não é o dado em si que é perigoso; é a combinação de muitos pequenos dados ao longo do tempo”, resume um especialista em cibersegurança entrevistado numa recente feira tecnológica em Londres. “Uma app que vê os seus movimentos, outra os seus pagamentos, outra as suas mensagens… e, de repente, é possível reconstituir uma vida inteira a partir de migalhas.”
Para não cair na paranoia e, ao mesmo tempo, manter algum controlo, alguns pontos simples ajudam a filtrar:
- Recusar o acesso à atividade a qualquer app que não tenha relação com saúde, desporto ou transportes.
- Verificar, pelo menos uma vez por trimestre, a lista de apps com esta permissão.
- Dar preferência a apps que ofereçam “modo local” ou “sem partilha de dados com terceiros”.
- Desconfiar de apps gratuitas que oferecem funcionalidades “premium” sem anúncios nem subscrição.
- Apagar apps que já não usa há vários meses, sobretudo se tiverem acesso a sensores de movimento.
O poder silencioso de dizer “não” (ou pelo menos, “porquê?”)
Há uma espécie de alívio discreto em desativar estas autorizações. O telemóvel parece, de repente, um pouco menos curioso, um pouco menos colado à sua pele. À superfície, nada muda: as notificações continuam a chegar, as fotos tiram-se, as mensagens lêem-se. Mas, em segundo plano, um ruído de fundo cala-se. Essa pequena conversa contínua entre os seus sensores e servidores desconhecidos interrompe-se - ou pelo menos abranda.
Não se sai desta história com um manual milagroso. Cada pessoa tem o seu nível de tolerância à partilha de dados. Alguns aceitarão de bom grado que uma app de desporto siga cada passo para alcançar um melhor tempo. Outros preferirão voltar a um simples caderno em papel. A verdadeira pergunta não é “partilhar ou não”, mas “com quem, porquê e até quando”. Uma permissão não é um contrato eterno. É uma autorização que se pode retirar, voltar a dar, negociar.
Há também algo de profundamente coletivo nesta escolha individual. Quanto menos dermos estes dados de ânimo leve, menos atrativos se tornam os modelos económicos baseados na sua exploração. Um developer que note que 80% dos utilizadores recusam o acesso à atividade pensará duas vezes antes de o tornar uma condição indispensável. Pelo contrário, uma massa silenciosa de “sim” incentiva as práticas mais intrusivas, mesmo sem má intenção no início.
Daqui a alguns anos, talvez olhemos para estas permissões com o mesmo embaraço divertido com que vemos os velhos posts do Facebook de 2009. Vamos perguntar-nos porque é que deixámos um jogo de sudoku saber quando pegávamos no carro, porque é que uma app de receitas acompanhava os nossos movimentos entre o quarto e a sala. Entretanto, resta esse gesto simples, ao alcance da mão: abrir as definições, encontrar “atividade física” ou “movimento”, e perguntar, app a app: “É mesmo necessário?”. A resposta, muitas vezes, cabe numa palavra.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| A permissão “atividade física” vai muito além dos passos | Permite deduzir as suas rotinas, deslocações e horários | Tomar consciência da verdadeira dimensão do rastreio |
| Pode ser desativada e controlada | Definições de privacidade, gestão app a app | Ação concreta e rápida para limitar a recolha |
| Dizer não cria um efeito coletivo | Menos dados disponíveis tornam estas práticas menos rentáveis | Dar mais peso a cada escolha individual |
FAQ:
- Que permissão do telemóvel é que está a monitorizar o meu movimento?
Na maioria dos telemóveis chama-se “Physical activity”, “Body sensors” ou “Motion & Fitness”. Permite que as apps leiam dados de movimento a partir de sensores incorporados.- As apps conseguem mesmo saber se estou a conduzir sem o GPS ligado?
Sim. Ao analisar padrões de aceleração, vibrações e rotação, muitas apps conseguem inferir se está num carro, numa bicicleta, num comboio ou a pé.- Como desligo esta permissão no Android?
Vá a Definições > Privacidade (ou Segurança e privacidade) > Gestor de permissões > Atividade física / Sensores do corpo e mude as apps para “Negar”, exceto as poucas em que confia mesmo.- E como é que a giro no iPhone?
Abra Definições > Privacidade e Segurança > Motion & Fitness. Pode desativar “Monitorização de Fitness” globalmente e depois reativá-la apenas para apps escolhidas com cuidado.- A minha app de fitness ou saúde continua a funcionar se eu bloquear isto?
Algumas funcionalidades podem deixar de funcionar, como a contagem automática de passos ou gráficos detalhados de atividade. Pode testar com a permissão desligada e, se a app “partir”, decidir se a troca compensa os seus dados.
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