Saltar para o conteúdo

Está em construção o mais longo comboio submarino de alta velocidade do mundo, que vai ligar dois continentes por baixo do mar.

Técnico de capacete analisa equipamento industrial pesado num cais, com um navio ao fundo sobre o mar.

O barco mal tinha saído do porto quando os telemóveis começaram a apontar para o horizonte. Lá fora não se vê nada - e é precisamente esse o ponto: por baixo do mar, um corredor ferroviário tenta transformar uma travessia “de avião” numa viagem de comboio.

No mapa é uma linha. No terreno é perfurar rocha, gerir risco, fechar acordos entre países e apostar milhares de milhões na mesma pergunta: as pessoas trocam o avião por uma ligação ferroviária rápida e previsível?

O que muda quando atravessar um mar inteiro passa a demorar menos do que um filme?

A mais longa linha submarina de alta velocidade está a ganhar forma

Entre a tuneladora no subsolo e o computador no gabinete, o projeto vive de detalhes. Não é só “um túnel”: é uma linha pensada para operar com regularidade, segurança e manutenção planeada - debaixo de água, onde corrigir erros é caro e lento.

No papel, a ambição é clara: dezenas de quilómetros sob o leito marinho, com velocidades na ordem dos 250–300 km/h. Para competir com o avião, o objetivo real não é a velocidade máxima, mas o tempo porta-a-porta (acessos à estação, frequência, ligações e controlos). Regra prática usada em muitos corredores: quando o comboio faz a viagem em ~3 horas ou menos, tende a capturar grande parte da procura face ao voo.

Para chegar lá, os projetistas tratam o fundo do mar como um puzzle 3D:

  • falhas geológicas e zonas fraturadas (onde a água encontra caminho);
  • risco de deslizamentos submarinos e sismos (não só o “evento”, mas o que ele faz à estrutura e às juntas);
  • compromissos entre raio de curva, declives e ventilação (alta velocidade não tolera traçados “apertados”).

E a pergunta que surge sempre - “É seguro?” - não se responde com slogans. Responde-se com redundância, compartimentação, rotas de evacuação, treino e operação disciplinada.

De ideia selvagem a aço real, betão… e política

Ligar continentes por baixo do mar deixou há muito de ser um desenho de guardanapo. A engenharia amadureceu (tuneladoras, materiais, sensores), mas o “gatilho” para avançar costuma ser político e económico: capacidade aeroportuária no limite, pressão climática e necessidade de ligações fiáveis entre grandes áreas urbanas.

O exemplo clássico é Londres–Paris: quando o tempo total caiu para uma janela competitiva, o comboio passou a dominar grande parte do mercado. Viu-se um padrão semelhante noutros países: em ligações rápidas e frequentes entre cidades a poucas horas, muitas rotas aéreas perdem atratividade.

A lógica é simples, com ressalvas importantes:

  • Um comboio de alta velocidade elétrico pode ter emissões por passageiro muito inferiores às de um voo curto, mas isso depende do mix elétrico e da taxa de ocupação.
  • As estações centrais poupam tempo e evitam expansão aeroportuária, mas exigem obra urbana (acessos, interfaces com metro/autocarro, capacidade de plataformas).
  • Um túnel submarino não é só passageiros: pode ser logística e correio expresso, mas misturar carga e alta velocidade aumenta complexidade (janelas noturnas, limites de peso, desgaste de via).

No fim, a tecnologia raramente é o maior bloqueio. O difícil é alinhar regras, financiamento, fronteiras, responsabilidades de segurança e exploração - especialmente se a ligação cruzar regimes aduaneiros/Schengen diferentes.

Como se constrói, afinal, um túnel para comboios-bala debaixo do mar?

A versão curta é: escavar, estabilizar, impermeabilizar, repetir. A versão real inclui “engenharia do imprevisto”.

Em muitos projetos, usa-se uma tuneladora (TBM) que avança metro a metro, instalando anéis segmentados de betão armado com juntas e vedantes desenhados para impedir infiltrações. O túnel não funciona “pressurizado” como um submarino; funciona a pressão atmosférica, mas tem de resistir à enorme pressão da água no exterior e gerir qualquer entrada de água sem perder controlo.

Antes de escavar, mapeia-se o subsolo com levantamentos geofísicos e sondagens. Quando há rocha fraca, fraturada ou com risco de água, é comum:

  • injetar calda de cimento/argamassas para consolidar;
  • ajustar o traçado em pequenos desvios para evitar zonas críticas;
  • reduzir ritmo de avanço e aumentar a instrumentação.

A segurança operacional depende de escolhas de desenho pouco “glamourosas”, mas decisivas:

  • Evacuação e compartimentação: muitos túneis longos adotam passagens transversais entre tubos (ou galerias de serviço) a intervalos regulares, frequentemente na ordem das centenas de metros, para permitir fuga para uma zona segura.
  • Incêndio e fumo: a ventilação é pensada para controlar fumo e calor, com cenários de incêndio e planos de intervenção; a drenagem e as bombas fazem parte do “sistema de segurança”, não apenas da manutenção.
  • Sinalização e controlo: em alta velocidade, a operação exige sistemas automáticos de proteção e controlo (na UE, isto liga-se frequentemente a especificações de interoperabilidade), comunicações redundantes e salas de controlo 24/7.
  • Aerodinâmica em túnel longo: a 250–300 km/h, ondas de pressão e conforto (ouvidos) influenciam o diâmetro do túnel, o desenho dos comboios e, por vezes, limites de velocidade em certos troços.

Depois de aberto, o túnel vive de rotina: monitorização contínua (vibração, temperatura, deformações, intrusão de água), inspeções programadas e janelas de manutenção - muitas vezes à noite - para manter a disponibilidade sem “surpresas”.

O que isto vai mudar para viajantes, cidades e a vida quotidiana

Para o passageiro, a promessa é banal - e é isso que a torna poderosa: entrar numa estação e sair noutro continente poucas horas depois. A competitividade, porém, decide-se em detalhes do dia a dia:

  • frequência (um comboio “de 2 em 2 horas” raramente substitui o avião para trabalho);
  • ligações fáceis aos transportes urbanos;
  • bilhética simples e transparente, com tempo porta-a-porta comparável;
  • controlos fronteiriços integrados na estação (se aplicável), para não destruir a vantagem do tempo.

Para as cidades, o efeito costuma ser assimétrico. A estação ganha peso (hotelaria, restauração, escritórios, logística leve), mas também aumenta a pressão imobiliária e o risco de expulsar residentes se não houver política de habitação e planeamento. E há um ponto muitas vezes subestimado: a capacidade da rede “à superfície” (interfaces, acessos, energia, manutenção) tem de crescer para suportar a ambição subterrânea.

“A ferrovia submarina de alta velocidade não é magia. É 10% tecnologia e 90% acordos entre pessoas que não confiam naturalmente umas nas outras.”

  • Tempo: reduzir travessias que hoje ocupam meio dia (porta-a-porta) para poucas horas, se houver frequência e boas ligações.
  • Clima: deslocar parte da procura do avião para ferrovia elétrica, com ganhos que variam conforme energia e ocupação.
  • Vida quotidiana: normalizar viagens transfronteiriças de um dia - trabalho, estudo, família - sem a fricção típica de um aeroporto.

Um túnel sob o mar, e as histórias que vamos contar sobre ele

O sucesso de uma infraestrutura vê-se quando ela desaparece no quotidiano: horários, atrasos, cafés na estação - e ninguém pensa na quantidade de engenharia que está a “segurar” o mar.

Mesmo assim, estes projetos mudam o mapa mental. Encortam distâncias, redefinem o que é “longe” e alteram decisões pequenas: onde estudar, onde aceitar um emprego, com que frequência visitar família.

Também trazem discussões inevitáveis: custo, risco, impacto ambiental no mar e na cidade, quem paga e quem beneficia. Recordes impressionam, mas o que fica é outra coisa: como se gere o acesso, a segurança e a utilidade pública quando a obra deixa de ser manchete e passa a ser rotina.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Recorde mundial Linha de alta velocidade mais longa alguma vez construída sob o mar Perceber porque é que este projeto marca um momento na história dos transportes
Impacto nas viagens Trajeto intercontinental em poucas horas, sem avião Imaginar de forma concreta como as suas futuras deslocações podem mudar
Desafio climático Alternativa de baixo carbono a voos de curta e média distância Avaliar o papel real dos comboios de alta velocidade na transição ecológica

FAQ

  • A que velocidade vão realmente circular os comboios submarinos de alta velocidade? Em muitos projetos fala-se de máximos na ordem dos 250–300 km/h. Na prática, a velocidade média pode ser menor por conforto (pressão), aerodinâmica em túnel, curvatura e margens de segurança.
  • Um túnel submarino de alta velocidade é mesmo seguro? Pode ser, mas depende do desenho e da operação: compartimentação, rotas de evacuação, deteção de incêndio, ventilação, redundância elétrica/comunicações e treino regular. O “seguro” aqui é um sistema, não um único componente.
  • Os bilhetes serão mais caros do que os voos? No arranque, é comum que os preços sejam semelhantes aos do avião em horários equivalentes. Com escala, concorrência e boa taxa de ocupação, muitas linhas conseguem tarifas mais baixas - mas isso varia com dívida do projeto, energia e procura.
  • Quando poderá abrir a mais longa linha submarina do mundo? Depois de aprovações e financiamento fechados, obras desta dimensão costumam levar muitos anos. Intervalos de 10–15 anos são frequentes, e atrasos são comuns por geologia, licenciamento e alterações de custo.
  • Comboios de mercadorias podem usar o mesmo túnel que os passageiros? Às vezes, mas exige desenho e operação muito cuidadosos. Uma solução típica é reservar janelas de menor procura (noite) para carga leve/rápida, ou separar tráfegos por tubos/infraestruturas para reduzir conflito e desgaste.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário