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Esqueça tudo o que sabe sobre cozinhar ovos: o método deste chef japonês faz os óleos de fritar parecerem uma mentira, e as opiniões dividem-se.

Pessoa cozinha ovo estrelado numa frigideira com pauzinhos numa cozinha iluminada.

A primeira vez que vi aquilo, ri-me mesmo.

Num restaurante minúsculo em Osaka, só com balcão, um chef de meia-idade, com uma bandana desbotada, puxou uma frigideira para o lume, partiu um ovo… e não pegou numa única gota de óleo. Nada de manteiga, nada de spray, nada de “mistura de azeite para altas temperaturas” com rótulo dourado e brilhante. Só uma frigideira bem usada, um salpico de água e uma confiança silenciosa que fazia qualquer anúncio de óleo premium para fritar parecer uma anedota.

Dois minutos depois, o ovo parecia de publicidade.

A gema estava redonda e elástica, a clara brilhante nas bordas, com um centro quase cremoso, tipo custard.
O casal ao meu lado ficou de boca aberta.
Alguém lá atrás sussurrou: “Então… andaram a mentir-nos?”

Essa pergunta não me sai da cabeça desde então.

O chef japonês que frita ovos sem uma única gota de óleo

O chef chama-se Sato e cozinha como alguém que não tem tempo para teatro.
Nada de pinças, nada de maçaricos, nada de gadgets “vistos no TikTok”. Só uma frigideira escurecida, um tacho com água e um controlo de temperatura quase cirúrgico.

Ele põe a frigideira em lume médio, deita uma colher de sopa de água e espera que as primeiras bolhinhas minúsculas comecem a tremer.
Um ovo, partido diretamente para dentro. Nada de fogos de artifício a chiar.
Tapa a frigideira e afasta-se para preparar sopa miso, como se não estivesse a acontecer nada de mágico à sua frente.

Três minutos depois, tira a tampa e o ovo desliza para o prato sem colar.
Sem bordas queimadas. Sem brilho gorduroso. Só um aspeto suave, quase vaporizado, que parece quebrar todas as regras que alguma vez leste num rótulo de óleo.

Vi um turista de Londres filmar a cena toda no telemóvel como se tivesse encontrado um bug de cozinha na Matrix.
Mais tarde, na rua, mostrou-me um reel com a mesma técnica: cozinheiros japoneses em casa a “fritarem” ovos em água, dizendo que é mais leve, mais rápido, mais limpo.

Os comentários por baixo eram uma zona de guerra.
De um lado, gente que experimentou e jurava que nunca mais voltava ao óleo. Do outro, fãs incondicionais de manteiga a chamar ao método “triste”, “sem alegria”, até “abuso de ovos”.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que a tua cozinha parece estar a ser julgada por estranhos que não provaram uma única garfada.

O que me impressionou não foi só o truque em si.
Foi como as pessoas ficam emocionais quando mexes no ritual da manhã, na frigideira delas, na preciosa garrafa de extra virgem seja do que for.

À superfície, o método do Sato é ridiculamente simples.
Água numa frigideira quente, ovo em cima, tampa, esperar. O vapor cozinha a clara por cima, o calor suave por baixo fixa a base, e a gema fica líquida, quase cremosa.

Por trás disso, há uma rebelião discreta.
Durante décadas, o marketing vendeu-nos a ideia de que um ovo estrelado “a sério” tem de nadar num halo generoso de óleo ou manteiga para ser “verdadeiro”, “indulgente”, “digno de restaurante”.
As marcas lutam por um lugar ao lado do teu fogão com rótulos tipo “para fritar perfeito”, “performance antiaderente”, “herói das altas temperaturas”.

Depois aparece um chef numa cozinha pequena em Osaka e mostra-te um ovo que tem um aspeto e um sabor incríveis, usando só água e paciência.
De repente, todas aquelas garrafas brilhantes parecem menos uma necessidade e mais uma história muito bem contada.

Como é que o ovo “frito em água” funciona de facto (e porque é que as pessoas estão obcecadas)

Eis o que o Sato realmente faz, passo a passo, sem misticismo.

Ele pega numa frigideira antiaderente decente ou bem curada e põe em lume médio. Sem pressa. Deita um pequeno salpico de água - só o suficiente para cobrir ligeiramente o fundo, não para afogar.

Quando aparecem as primeiras bolhas suaves, parte o ovo diretamente para a frigideira. A clara abre-se, metade a tocar no metal quente, metade a flutuar na água.
Depois vem o movimento crucial: tapa com uma tampa.

Lá dentro, a humidade transforma-se em vapor e circula à volta do ovo.
O fundo cozinha em contacto com a frigideira, o topo fixa com o vapor, e a gema fica isolada dentro de uma pequena bolha quente.
O resultado parece um cruzamento entre um ovo estrelado e um ovo escalfado macio.

Se o teu primeiro pensamento é “eu tentei algo assim e colou que nem louco”, não estás sozinho.
Muita gente falha à primeira porque aumenta o lume demais, põe água a mais ou usa uma frigideira riscada que agarra tudo.

A regra silenciosa do Sato é: deixa o calor construir, não ataques.
Ele nunca faz ovos em lume a gritar. Prefere um médio estável que deixa a clara fixar devagar sem ficar dura.
E ele não mexe no ovo. Nada de picar, nada de deslizar, nada de faca nas bordas.

Há outro detalhe que as pessoas ignoram: a tampa.
Sem ela, o topo fica cru enquanto o fundo passa do ponto. Com ela, o vapor envolve o ovo como uma sauna.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias quando está atrasado para o trabalho.
Mas nos dias em que faz, o ovo sabe de repente a uma melhoria completa da tua cozinha.

Quando perguntei ao Sato porque é que ele cozinha os ovos assim, encolheu os ombros, limpou as mãos ao avental e disse algo que me ficou:

“O óleo é um sabor, não uma muleta. Se a frigideira e o calor estiverem certos, não precisas dele só para deixar de ter medo.”

Depois sorriu e acrescentou que muitos clientes ainda pedem manteiga “por nostalgia, não por função”.

Em termos simples, o método dele traduz-se assim:

  • Menos óleo no prato – Não estás a encharcar o ovo, por isso sente-se mais leve e deixa-te com menos daquela sensação de peso pós-pequeno-almoço.
  • Mais controlo da textura – O vapor é mais suave do que a fritura direta, por isso a clara fica tenra em vez de borrachuda.
  • Frigideira mais limpa, menos salpicos – Nada de chiar violento, muito menos manchas no fogão e na tua T-shirt.
  • O sabor é opcional, não obrigatório – Podes adicionar manteiga depois por cima, como tempero, em vez de como “penso rápido” escorregadio.
  • Sabor a ovo primeiro – Sem uma nuvem grande de óleo, sentes mais o sabor do ovo. Nem toda a gente gosta, mas é real.

Depois de comeres um ovo que sabe a ovo e não ao fundo de uma frigideira gordurosa, é difícil esquecê-lo.

Porque é que este “ovo sem óleo” está a gerar discussões às mesas do pequeno-almoço

O que divide as pessoas não é a física.
Cozinhar um ovo com vapor funciona, e não é bruxaria. A divisão vem do que esperamos que o pequeno-almoço “seja”.

Para alguns, um ovo estrelado significa bordas douradas, perfume de manteiga, um halo ligeiramente estaladiço à volta da clara.
Tira isso, e sentem que lhes roubaram algo essencial.
Para outros, sobretudo quem conta calorias ou controla gorduras, a versão do Sato parece libertação: menos frigideiras pegajosas, menos poça de culpa no prato.

Por baixo, há uma pergunta maior a zumbir.
Afinal, todas aquelas campanhas de “óleo leve para cozinhar” eram mesmo sobre sabor e técnica, ou sobretudo sobre nos venderem mais uma garrafa para um gesto que às vezes precisa… de nenhuma?

Fala com cozinheiros atentos à nutrição e eles adoram o método porque evita imensa gordura escondida sem transformar o pequeno-almoço numa penitência.
Dizem-te que guardam o óleo para quando querem mesmo aquele sabor: regado em cima de tomates, batido numa maionese, pincelado numa torrada. Não automaticamente por baixo de cada ovo.

Fala com chefs de restaurante e a imagem muda.
Eles lembram-te que os clientes muitas vezes “comem com os ouvidos”: aquele chiar agressivo ao bater na frigideira diz ao cérebro “isto é indulgente”. Sem chiar, sem espetáculo.

Por isso, se tentares o método do Sato em casa e sentires que falta qualquer coisa, não estás errado.
Estás a bater contra a tua própria ideia do que o prazer deve soar e cheirar às 8h30.
Isso não torna o método melhor ou pior. Só mais honesto sobre o que é hábito e o que é realmente necessário.

As reações mais interessantes vêm de quem fica algures no meio confuso.
Testam o ovo “frito em água”, adoram a suavidade da clara, e depois sentem falta do toque tostado da manteiga.

Essas pessoas acabam muitas vezes com uma rotina híbrida.
Aquecem um pedacinho mínimo de manteiga, depois juntam a mesma colher de água e tapam. Ou cozinham ao estilo Sato e finalizam com um fio rápido de molho de soja e óleo de sésamo por cima - não por baixo.
O óleo deixa de ser a base por defeito e passa a ser uma escolha consciente.

E talvez essa seja a revolução silenciosa aqui.
Não uma guerra contra a gordura, nem um culto de hacks, apenas uma pequena mudança de “preciso disto ou o meu ovo vai falhar” para “vou usar isto porque quero mesmo o sabor”.
Depois de sentires essa diferença na tua própria frigideira, manchetes caça-cliques sobre “óleos milagrosos para fritar” começam a parecer bem mais frágeis.

Sais do balcão do Sato e não pensas só em ovos.
Começas a rever todos os pequenos rituais que terceirizaste para embalagens e slogans: a frigideira especial para panquecas, o óleo só-para-salteados, o “pequeno-almoço perfeito” que não se parece nada com a tua cozinha real.

Talvez tentes o método uma vez, pragues com um ovo um bocadinho colado e voltes logo para a tua manteiga.
Talvez acertes à segunda e deixes discretamente de comprar aquela terceira garrafa de “mistura para fritar em altas temperaturas” que está meio usada no fundo do armário.

A ideia não é transformar cada pequeno-almoço num sermão de saúde.
É reparares no que estás a fazer e porquê. O óleo está lá porque acrescenta algo de que gostas, ou porque tens medo de que o ovo te traia sem ele?

Da próxima vez que partires um ovo, talvez hesites mais um segundo sobre a garrafa.
Não para seguir uma tendência, nem para agradar a um chef japonês que nunca vais conhecer, mas para decidires, naquele pequeno momento, em que sabor queres mesmo assentar a tua manhã.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Método “frito em água” Usar um salpico de água, lume médio e uma tampa para cozinhar o ovo com vapor e contacto suave Oferece um ovo mais leve e tenro sem depender de grandes quantidades de óleo para fritar
Papel do óleo O óleo passa a ser um sabor escolhido, acrescentado por cima, e não uma base obrigatória debaixo de cada ovo Ajuda a reduzir gorduras desnecessárias mantendo controlo sobre sabor e textura
Mudança de mentalidade Questiona hábitos alimentados por marketing à volta de produtos “essenciais” para fritar Incentiva uma cozinha caseira mais intencional e confiante com o que já tens

FAQ:

  • O ovo não cola mesmo sem óleo? Com uma antiaderente decente ou uma frigideira bem curada, lume médio estável e tampa, colar é mínimo ou inexistente; em frigideiras velhas e riscadas, é mais provável que agarre.
  • Quanta água devo usar para um ovo? Uma camada fina, cerca de uma colher de sopa, costuma chegar para cobrir o fundo sem submergir totalmente a clara.
  • Quanto tempo demora a cozinhar? Quando a água está a borbulhar suavemente, o ovo costuma precisar de 2 a 4 minutos com a tampa, dependendo de quão líquida queres a gema.
  • Consigo bordas estaladiças com este método? Ficas com bordas mais macias e tenras; se queres mesmo crocante, podes terminar 30 segundos em lume um pouco mais alto com uma quantidade mínima de gordura.
  • Isto é mais saudável do que fritar em óleo ou manteiga? Em geral significa menos gordura adicionada e menos calorias, sobretudo se não substituíres o óleo em falta por coberturas pesadas depois.

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