Então repara-se numa linha de gruas recortada no céu e numa estrutura que parece “demais” para um terreno tão plano: betão, aço e poeira a ganhar altura, piso a piso. No estaleiro, quase tudo gira em torno de uma palavra: metros.
Há cerca de uma década, isto era apenas deserto e sinalização. Hoje, nos arredores de Jeddah, a Arábia Saudita tenta voltar a pôr em marcha um projeto que, se for concluído, reescreve o livro dos recordes: um arranha-céus com cerca de 1 km de altura. As fundações e parte do núcleo já existem - e isso muda a conversa de “ideia” para “obra”.
Ambição? Para alguns. Excesso? Para outros. Mas a escala é real: em Portugal, para ter noção, 1.000 m é várias vezes a altura do edifício mais alto do país.
Da caça a recordes a uma declaração vertical de 1 km
Estar ao lado de uma megaestrutura inacabada é perceber, no corpo, o que os números escondem. A planeada Jeddah Tower (1 km) não é só “mais um arranha-céus”: é um símbolo de poder económico e capacidade técnica, pensado para competir com os ícones do Dubai e de Xangai - e para dizer que a corrida ainda não acabou.
O projeto foi anunciado em 2011, arrancou em 2013 e chegou a erguer uma parte importante do núcleo. Os planos incluíam habitação de luxo, um hotel de marca internacional, escritórios, retalho e miradouros. Depois vieram paragens e atrasos (financiamento, contexto político, pandemia). Durante anos, a estrutura ficou como um esqueleto visível: não um “fracasso”, mas um projeto suspenso.
No fim de 2023 e ao longo de 2024, surgiram sinais de reativação (novos concursos e maior movimentação no setor). Ainda assim, convém ler isto com realismo: em megaprojetos, “retoma” raramente significa ritmo máximo imediato - muitas vezes começa por contratos, logística e revalidação de desenho e segurança.
Construir a 1 km implica problemas que não se resolvem “adicionando mais pisos”:
- Vento e oscilação: a esta altura, o vento não é detalhe; dita forma, materiais e conforto. A torre precisa de geometria aerodinâmica e sistemas para reduzir vibração (por exemplo, amortecedores e rigidez adicional).
- Elevadores como infraestrutura: não dá para ter um único percurso “do rés-do-chão ao topo”. Em muitos edifícios superaltos, usam-se zonas com transbordo (sky lobbies) e múltiplos conjuntos de elevadores para controlar tempos de espera e capacidade.
- Evacuação e incêndio: a segurança depende de compartimentação, pressurização de escadas, redundância energética e pisos/áreas de refúgio para quem não consegue descer dezenas de andares rapidamente. É uma cidade vertical - e tem de funcionar como tal.
- Materiais e obra: betões de alta resistência, controlo de qualidade rigoroso e logística de bombagem/lançamento em altura tornam-se determinantes. Pequenos desvios, aqui, multiplicam custos e risco.
E há a parte humana, menos falada: viver ou trabalhar muito acima do solo muda rotinas (tempo de deslocação vertical, sensação de movimento, dependência de sistemas). O edifício pode ser “habitável”, mas o conforto diário é uma equação tão importante como a engenharia.
O manual discreto por trás do salto saudita para 1 km
O padrão por trás da torre é claro: tratá-la não como peça isolada, mas como âncora de um bairro novo (Jeddah Economic City), com usos mistos à volta. A altura faz manchetes; a cidade no chão é o que sustenta receitas, empregos e ocupação.
Isto liga-se à Vision 2030: diversificar para lá do petróleo, atraindo turismo, serviços e investimento. Um edifício recordista funciona como sinal - mas não substitui o básico: acessos, transportes, serviços urbanos e procura real.
Na prática, os trade-offs são duros:
- Economia vs. imagem: a torre pode puxar atenção e capital, mas o retorno depende de ocupação contínua e de um bairro funcional, não só de bilhetes para o miradouro.
- Clima e energia: numa região quente, fachadas “de alto desempenho” ajudam (sombreamento, vidros eficientes, redução de ganhos solares), mas o arrefecimento continua a ser uma fatia enorme do consumo. Reutilização de água e reaproveitamento de condensados podem reduzir pressão hídrica, mas não eliminam o impacto.
- Operação é tão difícil quanto construir: manutenção de fachadas, limpeza, reposição de equipamentos, segurança e gestão de multidões em períodos de pico tornam-se custos permanentes - não um detalhe pós-obra.
No papel, há empregos, turismo e reputação. No terreno, há fases de aceleração e de silêncio, com decisões financeiras e políticas a ditar o ritmo. E a pergunta de fundo permanece: este “troféu” consegue ser uma parte viva da cidade, ou fica dependente do espetáculo?
“Não se constrói uma torre de um quilómetro para ser razoável. Constrói-se para ver onde é, de facto, o limite.”
Esse limite não é só técnico. É social (quem pode pagar), operacional (quem mantém), e ambiental (quanto custa, em energia e recursos, manter o conforto).
| Ponto-chave | Detalhes | Porque é que isto importa para os leitores |
|---|---|---|
| Altura-alvo da Jeddah Tower | Planeada para atingir cerca de 1.000 m, acima dos 828 m do Burj Khalifa e dos 632 m da Shanghai Tower. | Mostra que a corrida pelo “mais alto do mundo” continua e influencia decisões de investimento, turismo e prestígio urbano. |
| Localização e acessos | Integrada na Jeddah Economic City, perto da costa do Mar Vermelho e a ~60 km de Meca, com ligações rodoviárias e transportes planeados. | Pode reforçar um corredor regional que mistura turismo (incl. religioso), negócios e lazer - se a infraestrutura acompanhar. |
| Usos previstos no interior da torre | Mistura de habitação, hotel, escritórios, retalho e miradouros em zonas distintas. | Ajuda a perceber que não é só “miradouro”: para resultar, precisa de procura diária e operação estável. |
| Calendário de construção e atrasos | Obra iniciada em 2013; abrandamento/paragem por volta de 2018; sinais de retoma em 2023–2024. | Megaprojetos avançam por ondas: contratos e logística podem mudar antes de haver grande progresso visível. |
| Sustentabilidade e clima | Promessas de fachada eficiente, arrefecimento avançado e poupança/reutilização de água para enfrentar o calor. | Traz à superfície o tema central: como equilibrar espetáculo com consumo energético e impacto ambiental em climas extremos. |
| Impacto na Vision 2030 saudita | Enquadrada como símbolo de diversificação e atração de marcas, investidores e visitantes. | Mostra arquitetura como ferramenta económica e diplomática - com benefícios e riscos reputacionais. |
Para acompanhar um projeto destes, o critério mais útil é simples: olhar para a vida quotidiana que ele cria (ou não). Não só renders, mas horários, acessos, serviço, transporte público, entregas, manutenção e custos. É aí que se vê se vira cidade - ou apenas monumento.
E, goste-se ou não, se o recorde mudar de mãos, isso tende a recalibrar ambições noutros sítios. Nem sempre para melhor: às vezes inspira engenharia; outras vezes empurra cidades para decisões pouco sustentáveis. A questão final é menos “quão alto dá?” e mais “para quê - e a que preço?”.
FAQ
- A Jeddah Tower vai mesmo ser mais alta do que o Burj Khalifa? Se atingir a meta anunciada (cerca de 1.000 m), sim: ultrapassa os 828 m do Burj Khalifa e seria o primeiro edifício a cruzar a marca de 1 km.
- A construção da torre de 1 km está atualmente ativa? A obra avançou bastante após 2013, mas abrandou e ficou praticamente parada por volta de 2018. Em 2023–2024 surgiram sinais de retoma (concursos e reengajamento de empreiteiros), embora nem sempre isso se traduza, de imediato, em ritmo intenso no local.
- Visitantes comuns poderão entrar quando abrir? Em muitos casos, projetos deste tipo incluem miradouros e áreas comerciais acessíveis ao público. O acesso real, preços e regras dependem do modelo operacional e de como o distrito à volta for concluído.
- Como é que a torre vai lidar com o vento e a segurança a 1 km de altura? Normalmente combina-se forma aerodinâmica, núcleo estrutural muito robusto, materiais de alta resistência e sistemas para reduzir oscilação. Em segurança, contam elevadores por zonas, redundância elétrica, sistemas de incêndio e áreas de refúgio para evacuação faseada.
- Porque é que a Arábia Saudita está a investir num arranha-céus tão grande? A torre é apresentada como peça de sinalização global dentro da Vision 2030: atrair turismo e investimento, diversificar a economia e reforçar posicionamento internacional - com benefícios potenciais, mas também custos e riscos elevados.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário