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Especialistas em aves denunciam que jardineiros atraem pisco-de-peito-ruivo todos os invernos com uma única fruta, causando polémica.

Pessoa a cortar maçã numa mesa de jardim com um pisco de peito ruivo pousado perto.

O pisco-de-peito-ruivo aterra como uma cereja caída no relvado coberto de geada, todo peito e atitude. Mal há luz, o teu hálito fica suspenso no ar e lá está ele outra vez, inclinando a cabeça como se estivesses atrasado com o pequeno-almoço. Em cima da mesa do pátio, a oferta de ontem à noite brilha em âmbar contra o cinzento: meia maçã, amolecida pelo frio, já picada.

Por todo o país, os jardineiros estão, em silêncio, a fazer o mesmo. Uma maçã fatiada num poste da vedação. Uma pêra amolgada na mesa dos pássaros. Um fruto simples, oferecido vezes sem conta, a trazer de volta os mesmos visitantes de peito vermelho todos os invernos, como um relógio.

Os especialistas em aves começam a dizer que isto foi longe demais.

Algo nesta pequena gentileza pode não ser assim tão gentil.

Piscos-de-peito-ruivo, maçãs e um hábito de inverno que se tornou viral

Passeia por qualquer rua britânica numa manhã gelada de janeiro e vais ver as pistas. Uma maçã meio comida espetada num caniço de bambu. Um conjunto de frutos de faces vermelhas a desfazer-se dentro de um comedouro de arame. Um pisco-de-peito-ruivo pousado, descarado, a menos de um metro da janela da cozinha de alguém.

Isto não é ao acaso. Os jardineiros aprenderam que os piscos-de-peito-ruivo adoram fruta macia no inverno, sobretudo maçãs. Baratas, fáceis de arranjar, fotogénicas. Perfeitas para aquela fotografia aconchegante “neve, pássaro, peito vermelho, maçã rústica” que consegue cem gostos antes da hora de almoço.

Começou como uma pequena moda ternurenta. Agora é um ritual em grande escala.

Pergunta em qualquer grupo de jardinagem no Facebook e os conselhos vêm a voar. “Fatia uma maçã e prensa-a num ramo.” “Deixa as frutas caídas debaixo da sebe.” “Cozinha metades de maçã com sebo, os piscos passam-se com isso.”

Uma mulher em Surrey publicou que gastou um saco inteiro de 1,5 kg de maçãs só em dezembro, “para a minha família de piscos”. Outra partilhou, orgulhosa, que o seu pisco espera todas as manhãs no estendal até ela pôr o pequeno-almoço de maçã, “como um pequeno rei emplumado”.

Todos já sentimos isso: o momento em que uma ave selvagem come a um palmo de distância e o coração derrete.

Os especialistas em aves, porém, estão a soar o alarme. Não porque as maçãs sejam venenosas - não são, pelo menos a polpa - mas porque este buffet açucarado de inverno reprograma a rotina do pisco-de-peito-ruivo. Em vez de percorrer grandes áreas à procura de insetos, aranhas e bagas, o pisco pode acabar preso a um único jardim, à espera da queda diária de fruta.

Sejamos honestos: ninguém faz isto mesmo todos os dias. Por isso, quando chegam as férias, ou vem o mau tempo, ou passa a novidade, esse pássaro fica de repente num território com menos opções naturais e uma mesa vazia.

O hábito de “uma só fruta” parece generoso. Pode transformar-se em dependência muito depressa.

A forma certa de alimentar piscos-de-peito-ruivo sem os prender

Se gostas de ver piscos no inverno, há uma maneira mais suave de os atrair sem transformar o teu jardim num bar de maçãs “coma à vontade”. Pensa em “prato variado de petiscos”, não em “dependência de uma única fruta”.

Começa por reduzir muito a oferta de maçã. Um pedacinho pequeno, não meia fruta, e não todos os dias. Coloca-o num local abrigado, por exemplo junto à base de um arbusto, onde não congele em pedra nem fique como um alvo chamativo para aves maiores.

Ao lado, espalha uma mistura: larvas-da-farinha vivas ou secas, sementes pequenas, queijo suave ralado, até um pouco de sebo bem picado. A mensagem para o pisco muda de “vem por esta coisa açucarada” para “este jardim tem um menu”.

Muitos jardineiros erram ao tornar a mesa de alimentação no único lugar interessante de todo o terreno. Muito exposta, cheia de comida, fácil de apanhar. Ótimo para uma fotografia rápida; péssimo para uma ave pequena que, por natureza, prefere cobertura densa, folhada no chão e cantos escondidos.

Tenta fazer o contrário. Deixa um recanto desarrumado debaixo de uma sebe. Permite que uma pilha de folhas apodreça lentamente num canto. Deixa as cabeças de sementes nas perenes para que os insetos passem lá o inverno. Não estás apenas a alimentar um pisco; estás a alimentar as pequenas criaturas que o pisco deveria estar a caçar.

O melhor “comedouro” de inverno para um pisco-de-peito-ruivo é, muitas vezes, um pedaço de jardim meio desgrenhado e ligeiramente selvagem.

Os especialistas também pedem às pessoas que parem com a montanha de maçãs bolorentas debaixo de uma árvore. Parece “natural”, mas não é assim que as frutas caídas se comportam numa paisagem variada. Montes a apodrecer podem espalhar doenças, atrair ratos e afastar fontes de alimento mais discretas.

Como a ornitóloga Helen Markham me disse ao telefone numa tarde húmida:

“As maçãs são boas como mimo. O problema é quando passam a ser o prato principal. Um pisco ainda deveria estar a remexer folhas, a sondar musgo, a trabalhar as bordaduras. Quando fica apenas à espera num poste pela próxima maçã, quebraste parte do que o mantém selvagem.”

Juntamente com esse aviso, as orientações de inverno da Royal Society resumem-se a algumas mudanças simples:

  • Limita as porções de fruta e alterna com alimentos ricos em proteína.
  • Distribui os pontos de alimentação para que as aves continuem a mexer-se e a procurar alimento.
  • Mantém pelo menos um canto do jardim desarrumado para os insetos.
  • Limpa os comedouros e remove fruta a apodrecer antes de o bolor aparecer.
  • Oferece sempre água fresca: um prato raso é melhor do que uma grande pilha de maçãs.

Entre amor e controlo: o que estamos realmente a fazer aos “nossos” piscos?

Quando reparas, não consegues deixar de ver: a forma como escrevemos a natureza nas nossas próprias histórias de inverno. O pisco do postal de Natal, a maçã com geada, a caneca de chá à janela. É reconfortante e, estranhamente, possessivo. “O meu pisco.” “Os nossos visitantes.” “Ele conhece-me.”

A verdade nua e crua é que um pisco verdadeiramente selvagem não pertence a ninguém.

Alimentá-los não é errado. A maioria das organizações de aves ainda o incentiva em tempo de frio intenso, sobretudo à medida que as alterações climáticas tornam os invernos mais irregulares. O problema começa quando um gesto pequeno e simbólico se transforma numa encenação - para as redes sociais, para os nossos filhos, até para a nossa própria ideia de sermos “bons” amantes da natureza - e as necessidades reais da ave passam para segundo plano.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Maçãs como mimo, não como base Usa pequenas porções e mistura com insetos, sementes e sebo Vê piscos de perto sem criar dependência arriscada
Criar habitat, não apenas um ponto de alimentação Deixa folhada, cabeças de sementes e um canto “desarrumado” Apoia a procura natural de alimento e beneficia mais espécies a longo prazo
Ser consistente, especialmente em vagas de frio Dá quantidades menores, mas com a regularidade que a tua rotina permitir Ajuda os piscos a ultrapassar períodos difíceis sem quebras súbitas

FAQ:

  • A maçã é mesmo segura para piscos-de-peito-ruivo? Sim, a polpa é segura e muitos piscos gostam, especialmente quando há poucos insetos. Evita dar grandes quantidades de sementes de maçã e não dependas das maçãs como única fonte de alimento.
  • Com que frequência devo pôr fruta no inverno? Pensa em “às vezes” em vez de “todos os dias”. Um pequeno pedaço algumas vezes por semana, misturado com alimentos ricos em proteína, é mais do que suficiente para um pisco num jardim.
  • Que alimentos são melhores para piscos além da maçã? Larvas-da-farinha vivas ou secas, sebo bem picado, queijo suave ralado, miolo de girassol e sementes pequenas. Estes alimentos correspondem melhor à dieta rica em proteína que os piscos procuram naturalmente.
  • Posso dar fruta comprada, como uvas ou pêras? Sim, com moderação e em pedaços pequenos. Opta por fruta simples, sem tratamentos, sempre que possível; remove peças muito bolorentas ou fermentadas; e nunca ofereças fruta coberta de açúcar ou aromatizantes.
  • Um pisco deixa de migrar se eu o alimentar todos os invernos? Muitos piscos britânicos já são residentes todo o ano, enquanto outros migram. A alimentação pode influenciar onde uma ave passa o tempo, mas não reescreve instintos migratórios profundos; sobretudo, aumenta o risco de criar uma dependência pouco saudável de um só jardim.

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