Saltar para o conteúdo

Especialistas em aquecimento dizem que a regra dos 19 °C acabou. Agora recomendam uma nova temperatura interior para mais conforto e poupança.

Pessoa ajusta termóstato na parede, segurando uma chávena, num ambiente acolhedor com sofá e manta.

Fora, é uma daquelas manhãs cinzentas em que o frio parece infiltrar-se pelas caixilharias das janelas e por baixo da porta. Na mesa de centro, o termóstato mostra uns teimosos 19 °C. As meias são grossas, a camisola ainda mais grossa, e mesmo assim os dedos continuam dormentes no teclado. Lembra-se de ter lido algures que 19 °C era “a temperatura certa”. Racionalmente, faz sentido. O seu corpo, porém, discorda por completo.

Sobe o termóstato, quase com culpa, como se estivesse a quebrar uma regra silenciosa. Vinte. Vinte e um. A divisão vai relaxando consigo. O calor percorre os radiadores com um zumbido baixo e, de repente, o dia parece ligeiramente menos duro, menos hostil. O conforto ganha ao velho guia que estava a tentar seguir. Nesse momento, fica uma pergunta suspensa no ar quente.

E se a regra dos 19 °C nunca tivesse sido, na verdade, sobre si?

O fim silencioso da regra dos 19 °C

Durante anos, os 19 °C foram tratados como um número sagrado. A temperatura “responsável”. A que aparecia repetida em campanhas, em faturas de energia, em guias ecológicos partilhados nas redes sociais. Se aquecesse a casa a 19 °C, estava a fazer a coisa certa pelo planeta e pela carteira. Essa era a narrativa.

Mas entre em casas reais, em noites reais de inverno, e o quadro é bem diferente. Os termóstatos ficam discretamente nos 20, 21, às vezes 22 °C. Um cachecol fica abandonado no sofá. O cão enrosca-se mesmo ao lado do radiador. As pessoas falam de conforto, não de referências. À porta fechada, a regra dos 19 °C é ignorada há muito tempo.

Os especialistas em energia estão agora a chegar ao que os nossos corpos já sabiam. Uma solução igual para todos não funciona no aquecimento. As novas recomendações avançam para um intervalo, não para um alvo rígido - normalmente entre 20 e 22 °C nas salas, um pouco mais fresco nos quartos. Alguns profissionais de saúde chegam a alertar que, para pessoas idosas, passar muitas horas numa divisão a 19 °C pode aumentar riscos de saúde durante vagas de frio. O antigo número “mágico” começa a parecer mais um compromisso do que uma verdade.

No papel, os 19 °C vieram de uma mistura de objetivos de poupança de energia e estudos de conforto médio feitos em escritórios e habitações padronizadas. Essas curvas e gráficos arrumadinhos nunca conheceram as suas janelas com correntes de ar ou o seu corredor com chão cerâmico que parece nunca aquecer. Não tiveram em conta como se move ao longo do dia, quando fica sentado durante horas, ou quando as crianças espalham brinquedos pelo chão frio.

Um inquérito britânico durante crises energéticas recentes concluiu que, apesar das campanhas, a temperatura média interior no inverno ficava mais perto dos 20,5 °C nas divisões ocupadas. Foi a temperatura para a qual as pessoas naturalmente tendiam quando não estavam conscientemente a tentar “portar-se bem”. Outro estudo no Norte da Europa concluiu que pessoas mais velhas só se sentiam confortáveis por volta dos 21–22 °C, sobretudo quando sentadas. O fosso entre teoria e a realidade à mesa da cozinha continua a aumentar.

Por isso, a conversa está a mudar. Em vez de “defina 19 °C e está feito”, fala-se agora de um envelope de conforto: uma faixa de temperaturas, geralmente 20–22 °C para zonas de estar, em que a maioria dos adultos saudáveis se sente bem, mantendo o consumo sob controlo. Os quartos costumam beneficiar de um pouco mais de fresco, cerca de 17–19 °C, o que também favorece a qualidade do sono. O foco está a passar de um alvo rígido para um equilíbrio mais inteligente entre saúde, conforto e consumo de energia. E isso muda a forma como pensamos em cada grau no mostrador.

O novo objetivo: um intervalo mais quente e mais inteligente

O consenso emergente é suficientemente simples de memorizar: aponte para cerca de 20–22 °C nas divisões onde realmente vive o seu dia a dia. Não no hall por onde só passa. Não no quarto de hóspedes usado duas vezes por ano. Nos locais onde se senta, trabalha, come, descansa. É aí que a temperatura molda, de facto, o seu dia.

Dentro desse intervalo, 20 °C é a opção “contida”, muitas vezes suficiente quando está a mexer-se um pouco, com uma camisola, talvez com uma manta no sofá ao fim do dia. Os 21 °C começam a parecer confortáveis para a maioria das pessoas com roupa normal de inverno. Aos 22 °C, entra-se em território aconchegante - especialmente para crianças, idosos ou pessoas mais friorentas. A regra não é “aumente”, é “escolha o seu ponto nessa faixa com intenção”.

Imagine uma noite de inverno num apartamento típico. A sala está a 20 °C, mas está a trabalhar em casa no portátil, quase sem se mexer. Ao fim de uma hora, os dedos dos pés estão gelados. Então sobe o termóstato para 22 °C para a casa toda. É aí que a fatura começa a subir. Uma abordagem mais inspirada por especialistas seria diferente: manter a definição geral nos 20–21 °C e acrescentar conforto local onde precisa. Uma manta elétrica no sofá. Um tapete mais espesso onde se senta. Uma porta fechada para manter o calor numa só divisão.

Numa manhã de fim de semana, com a família toda em casa, 20 °C pode parecer perfeito enquanto todos andam entre divisões, cozinham, brincam, arrumam. À noite, pode deixar a zona de estar descer um pouco, mantendo os quartos nos 17–19 °C. Muitos especialistas em aquecimento dizem hoje que este padrão flexível faz mais do que insistir teimosamente nos 19 °C em todo o lado, o tempo todo. Reflete como vive de facto, não como um gráfico acha que deveria viver.

Há também o lado da saúde. Várias entidades de saúde pública alertam agora para temperaturas interiores prolongadas abaixo de cerca de 18 °C em pessoas vulneráveis: idosos, bebés, quem tem doenças respiratórias ou cardíacas. Para esses casos, os especialistas inclinam-se cada vez mais para 21 °C nas principais divisões como padrão seguro durante vagas de frio. A poupança de energia importa, mas não à custa de dificuldades respiratórias ou aumento da tensão arterial. Assim, a nova “regra” aproxima-se mais de um espectro moldado por quem é, como a sua casa está construída e que tipo de inverno está a enfrentar.

Como aquecer de forma mais inteligente sem fazer disparar a fatura

Quando se vai além da regra rígida dos 19 °C, é preciso outra bússola. A mais prática: pensar por zonas e por horas, não apenas num número global. Comece pela sala de estar ou pela divisão onde passa mais tempo. Defina-a por volta de 20–21 °C quando lá está. Em ausências superiores a um par de horas, baixe 2–3 graus. Durante a noite, baixe novamente, mantendo os quartos entre 17 e 19 °C.

Se tiver válvulas termostáticas individuais nos radiadores, use-as como botões de volume. Aqueça mais a casa de banho na hora do duche. Mantenha divisões pouco usadas mais perto dos 16–17 °C para evitar humidade e bolor, sem desperdiçar energia. Um termóstato inteligente pode ajudar, mas mesmo com um sistema básico consegue criar rotinas simples: uma definição para dias úteis, outra para fins de semana, um botão de “reforço de conforto” para aquelas noites geladas em que todos chegam cedo.

O truque subestimado é a antecipação. O calor demora a instalar-se. Em vez de disparar o termóstato para 24 °C quando sente frio, ligue o aquecimento um pouco mais cedo com um ponto de regulação mais baixo. Um 21 °C consistente, com menos extremos, é muitas vezes mais barato e sabe melhor do que oscilações bruscas entre frio e sobreaquecimento. Pense na sua casa menos como um interruptor e mais como um sistema lento, “respirável”, com o seu próprio ritmo.

Aqui entra a parte humana. Não é um sujeito de laboratório numa câmara climática. Há dias em que 20 °C é suficiente. Noutros, depois de uma noite má ou quando está a ficar doente, precisa de 22 °C e de um chá quente. Em vez de lutar contra isso, pode planear à volta. Mantenha uma lista mental de reforços de conforto que não custam tanto como subir o termóstato da casa toda: roupa por camadas, meias mais grossas, uma manta perto do sofá, um vedante de correntes de ar que realmente usa.

Em termos financeiros, cada grau extra ao longo do tempo continua a aparecer na fatura. Isso não mudou. O que muda é a forma como responde. Em vez de “tenho de ficar nos 19 °C aconteça o que acontecer”, pode dizer: “vou ficar sobretudo nos 20–21 °C e vou ser inteligente quando subir mais.” Só essa ideia muda a relação com o termóstato - da culpa para a estratégia.

Sejamos honestos: ninguém faz isto com rigor todos os dias. Ninguém está a afinar hora a hora, a comparar quilowatt-hora como passatempo. A vida é caótica. Chega tarde, as crianças estão cansadas, a roupa não seca. Sobe o termóstato e logo se vê. Os especialistas sabem disso - e por isso falam hoje mais de hábitos simples que resistem à vida real do que de “regras” estritas.

“A temperatura ‘certa’ não é um único número”, diz um consultor energético com quem falámos. “É um compromisso entre saúde, conforto e custo - e esse compromisso é diferente num apartamento mal isolado e numa casa nova.”

Para manter esse compromisso visível, ajuda ter alguns pontos de referência a que pode voltar quando a vida acalma:

  • 20–22 °C em zonas de estar quando ocupadas: intervalo de conforto para a maioria dos adultos
  • 17–19 °C nos quartos: equilíbrio entre calor e bom sono
  • Pelo menos 18 °C para pessoas vulneráveis durante vagas de frio: rede de segurança para a saúde

Um pequeno ritual pode ancorar tudo isto: escolha uma noite fria, sente-se no seu lugar habitual e ajuste lentamente o termóstato até se sentir genuinamente “bem” com roupa normal. Registe o número. Esse é o seu ponto de conforto pessoal. A partir daí, cada grau que sobe ou desce torna-se uma escolha consciente, não um tiro no escuro.

Viver com um novo livro de regras

Quando uma regra como “19 °C é o ideal” se dissolve silenciosamente, deixa um vazio estranho. Já não há superioridade moral por estar a tremer em casa mas a poupar energia. Já não há um número único para usar em discussões com o seu parceiro sobre o termóstato. O que o substitui é mais nuance e, curiosamente, mais humanidade.

Em vez de perguntar “estou a ser bom ou mau com o aquecimento?”, a nova pergunta passa a ser “que compromisso estou a fazer hoje, e vale a pena?” Nuns dias, escolhe uma temperatura mais baixa e uma camisola mais grossa porque a fatura está na cabeça. Noutros, deixa a sala chegar aos 22 °C porque alguém em casa está doente ou exausto e precisa dessa suavidade no ar. Ambas as escolhas são válidas.

Todos já tivemos aquele momento em que sentimos uma pontinha de vergonha ao tocar no termóstato, como se alguém na rua pudesse ver e julgar. Essa vergonha raramente leva a melhores decisões. Informação sim. Saber que os especialistas falam agora de intervalos e contexto, e não de um número rígido, dá-lhe mais margem para respirar. Dá-lhe permissão para se adaptar sem sentir que está a “fazer batota”.

No próximo inverno, repare nos pequenos sinais: a forma como os ombros relaxam quando a divisão chega ao seu ponto de conforto, o silêncio quando ninguém se queixa do frio, o cheiro da roupa a secar quando a humidade finalmente baixa com uma temperatura ligeiramente mais alta. Esses detalhes são tão reais como qualquer gráfico energético.

A sua casa não é um laboratório e a sua vida não é um cartaz de campanha. É uma sequência de manhãs, noites, sestas, chamadas no Zoom, dias de doença, aniversários. O calor envolve tudo isso, moldando discretamente a forma como esses momentos se sentem. Partilhar como vive realmente com o aquecimento - o que resulta, o que não resulta, onde faz concessões - pode ser mais útil para amigos e vizinhos do que qualquer slogan. E talvez essa seja a verdadeira nova regra: menos dogma, mais conversa honesta sobre o que o calor (e a sensação de aconchego) realmente significa.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A “regra” dos 19 °C está a desaparecer Os especialistas preferem agora um intervalo flexível em vez de uma única temperatura ideal Ajuda a reduzir a culpa por não cumprir exatamente os 19 °C
Novo intervalo de conforto Cerca de 20–22 °C nas principais zonas de estar, 17–19 °C nos quartos Dá objetivos claros e realistas para testar em casa
Pensar por zonas e horários Aquecer as divisões-chave quando ocupadas, reduzir nas restantes e à noite Reduz a fatura sem sacrificar o conforto diário

FAQ:

  • Os 19 °C são agora considerados “errados” para aquecer a casa?
    Não exatamente. Os 19 graus podem ser suficientes para algumas pessoas e algumas casas, especialmente se estiver em movimento. A mudança é que os especialistas já não os tratam como um ideal universal, mas como um ponto dentro de um intervalo de conforto mais amplo.
  • Que temperatura recomendam agora os especialistas para salas de estar?
    A maioria das orientações aponta para 20–22 °C quando a divisão está ocupada. Muitos especialistas em energia e saúde consideram 21 °C um bom ponto de partida e sugerem depois ajustar ligeiramente para cima ou para baixo consoante o que sente e quem vive na casa.
  • Fica mais barato desligar o aquecimento quando saio, ou apenas baixá-lo?
    Para ausências de poucas horas, baixar a temperatura 2–3 graus costuma funcionar melhor do que desligar tudo. Para ausências mais longas, desligar ou usar um modo de proteção anticongelação costuma poupar mais energia.
  • E à noite - devo manter a mesma temperatura?
    Especialistas do sono e conselheiros energéticos sugerem, em geral, quartos mais frescos, por volta de 17–19 °C. A maioria das pessoas dorme melhor com um pouco mais de fresco, desde que a roupa de cama esteja adequada e as pessoas vulneráveis se mantenham suficientemente quentes.
  • Quanto custa realmente mais um grau?
    Depende dos preços de energia e do isolamento, mas uma regra prática comum é que cada grau extra mantido durante todo o inverno pode aumentar o consumo de aquecimento em cerca de 5–10%. Por isso, escolher com cuidado a sua “faixa de conforto” compensa ao longo do tempo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário