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Especialistas dizem que a coragem na Muralha de Adriano é um mito: legionários sofriam com parasitas e os livros de história enganaram-nos.

Homem medieval preparando ervas em mesa de madeira rústica, com pergaminho e lamparina, num ambiente de pedra iluminado por j

O vento bate com força na crista acima de Housesteads, e as pedras da Muralha de Adriano brilham num cinzento cansado sob um sol inglês fino. Um guia de capa vermelha está a falar a um grupo escolar sobre “bravos legionários que se mantiveram firmes contra os bárbaros”, com a voz carregada de drama à Hollywood. As crianças olham a paisagem, a imaginar romanos musculados em armadura reluzente, perfeitamente disciplinados, perfeitamente limpos, perfeitamente heroicos.

O que ninguém menciona é o cheiro com que aqueles soldados viviam. Os piolhos no cabelo. As tricuríases no intestino. As latrinas a verterem para a mesma água que bebiam.

E, no entanto, este silêncio não aconteceu por acaso.

A Muralha de Adriano não era gloriosa - estava infestada

Fique junto a um dos quartéis escavados ao longo da Muralha de Adriano e olhe para os apertados compartimentos de pedra. À noite, consegue imaginá-los: 8 homens num espaço mal maior do que um quarto moderno, rodeados de capas de lã, equipamento de couro, botas húmidas. Um braseiro a fumegar ao centro. Sem janelas. Sem duches.

Os arqueólogos dizem hoje que esses mesmos espaços fervilhavam de parasitas. Ovos microscópicos de lombrigas e de tricocéfalos foram encontrados em amostras de solo de latrinas perto da muralha. Pulgas e piolhos prosperavam nos tecidos ásperos e na cama partilhada. Para muitos soldados, o dia a dia significava comichão, desconforto, febres… e continuar a fazer guarda sob chuva gelada.

Uma escavação em Vindolanda, a sul da Muralha de Adriano, mudou o tom da história. Os investigadores analisaram camadas de antigos resíduos de latrina sob o forte. Ao microscópio, era um filme de terror: ovos de parasitas por todo o lado, indícios de infeção crónica.

Outros analisaram detritos dos balneários onde os homens tentavam esfregar-se para ficarem “limpos”. Pequenos pentes para piolhos, usados até se partirem. Vestígios de células de pele humana e de bactérias fecais até nos escoamentos. O exército construiu banhos por disciplina e moral, mas é provável que esses mesmos banhos tenham reciclado água infetada, vezes sem conta. Nos postais, a Muralha de Adriano parece uma fronteira limpa e recortada. Na realidade, era uma zona corporal desarrumada.

Então como chegámos ao mito do heroísmo romano imaculado? Parte da resposta está nos historiadores vitorianos, que adoravam a ideia de legiões duras e civilizadoras a enfrentarem tribos do norte, selvagens. Parasitas não cabiam nessa pintura patriótica.

Os manuais escolares transportaram depois a mesma imagem: linhas direitas, muralhas direitas, costas direitas. Sem diarreia, sem vermes, sem fedor. Editámos as partes nojentas para manter a lenda arrumada. Só que a ciência que sai de laboratórios de solos, equipas de bioarqueologia e arquivos de museus insiste no mesmo: as fronteiras romanas eram tão corporais e caóticas como qualquer acampamento militar de hoje - apenas com menos sabão e sem antibióticos.

Como os especialistas estão a desmontar o mito do soldado romano “limpo”

A mudança começou com uma técnica simples: recolher pequenas amostras de solo de antigas retretes, drenagens e lixeiras e dissolvê-las em água. Ao microscópio, os ovos de parasitas aparecem de imediato. São resistentes, sobrevivem milénios. Quando alguém sabe o que procurar, estão por todo o lado nas antigas fronteiras de Roma.

Os especialistas cruzam esses resultados com os ossos. Muitos esqueletos de fortes fronteiriços mostram sinais de inflamação crónica, crescimento atrofiado e stress na coluna. Juntando as pistas, surge um quadro claro: a vida na Muralha de Adriano era menos “filme épico de guerra” e mais “doença ligeira prolongada misturada com rotina esgotante”.

Esta nova leitura não vive apenas em revistas poeirentas. Em alguns locais da muralha, as etiquetas dos museus estão a mudar lentamente. Uma vitrina num museu do norte menciona agora parasitas intestinais mesmo por baixo de um capacete de legionário polido. Outra exposição junta delicadas tábuas de escrita de Vindolanda - soldados a queixarem-se do frio e da falta de provisões - com painéis sobre piolhos e pulgas.

Os visitantes ficam muitas vezes surpreendidos. Alguns até riem, nervosos. Todos conhecemos esse momento em que a versão brilhante do passado colide de repente com realidades corporais de que ninguém falava na escola. Esse riso desconfortável é o som de um mito a estalar.

Os especialistas dizem que a forma como contámos a história da Muralha de Adriano seguiu um padrão: focar tijolos, batalhas e imperadores; passar por cima de corpos, sujidade e doença. Muralhas limpas e direitas combinavam com narrativas limpas e direitas. Resultado: gerações a imaginar soldados romanos como semi-super-humanos, quase sem suar sob a armadura.

Mas os corpos não ligam a lendas. Coçam, sangram, incham, apanham vermes, ganham infeções. Isso era tão verdade para os legionários como para qualquer pessoa. Ao devolver parasitas, piolhos e latrinas ao centro da história, os historiadores defendem que obtemos algo mais honesto: menos postal, mais gente real, a tentar aguentar dia após dia - moído - na margem fria de um império.

O que isto muda na forma como lemos a história “heroica”

Da próxima vez que ler uma frase inflamada sobre “os bravos homens da muralha”, faça uma pequena experiência. Pare e imagine o mesmo soldado dobrado com cólicas por causa de tricocéfalos. Imagine-o a coçar o couro cabeludo até ficar em carne viva debaixo do capacete durante uma longa vigia. Depois volte a colocar essa imagem dentro do conto heroico.

Isto não mata a ideia de coragem. Reformula-a. Agarrar investidas de saqueadores é uma coisa. Agarrá-las enquanto se está privado de sono, malnutrido e infestado? Isso é outro nível. O brilho desvanece, mas surge algo mais humano no seu lugar.

Um erro comum, sobretudo em materiais escolares, é balançar demasiado para o outro lado assim que o mito racha: passar de “romanos gloriosos” para “romanos nojentos” de um dia para o outro. Esse pêndulo também não ajuda. A vida real na Muralha de Adriano ficava algures no meio. Os homens brincavam, jogavam, escreviam cartas para casa, negociavam com os locais, adoeciam, melhoravam, voltavam a adoecer.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias - por “isto”, os historiadores entendem andar por aí a imaginar piolhos debaixo de cada capacete antigo, vermes debaixo de cada pedra. A maioria de nós quer apenas uma história que pareça viva e vagamente verdadeira. Uma história em que se sinta o esforço e o custo, não apenas as estátuas de mármore.

“Quando percebe o quão cheios de parasitas estes soldados estavam, a palavra ‘heroico’ passa a significar algo diferente”, diz um especialista em fronteiras romanas. “Deixa de os ver como estátuas de bronze e começa a vê-los como recrutas exaustos a fazer o melhor que podem, com botas más e canalização pior.”

  • Pergunte o que está em falta - Quando um livro de história só mostra armaduras brilhantes e muralhas direitas, lembre-se de que provavelmente há um capítulo escondido sobre corpos e sujidade.
  • Procure o trabalho de laboratório - Análises de solo, estudos de parasitas e testes isotópicos reescrevem grandes histórias em silêncio. Essas notas técnicas muitas vezes guardam a verdade mais vívida.
  • Valorize o desconforto
  • - se um novo detalhe torna o passado um pouco nojento ou embaraçoso, isso costuma ser sinal de que está mais perto de como as pessoas realmente viviam.

Uma muralha de pedra, um passado de carne e sangue

A Muralha de Adriano continua a atrair milhares de visitantes que querem tocar na margem de Roma. Sobem às pedras, tiram fotografias, sentem o vento e imaginam-se parte de algo duro e intemporal. Esse desejo de um passado limpo e heroico é profundo. Mas as provas dos parasitas sussurram outro guião em pano de fundo.

A muralha torna-se menos um monumento à disciplina perfeita e mais um longo local de trabalho húmido para recrutas comuns, muitos vindos de longe, a lutar com comida má, clima estranho e corpos doridos. Essa mudança não estraga a magia. Amacia-a. Dá espaço para empatia ao lado da admiração.

Talvez esse seja o verdadeiro valor desta “desmistificação” científica: depois de imaginar um legionário a tremer, a coçar-se e a praguejar no escuro, é menos provável que engula qualquer história polida - antiga ou moderna - sem antes perguntar o quê, e quem, ficou cortado na edição.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Os soldados da Muralha de Adriano estavam fortemente parasitados A análise de solos e latrinas mostra grande presença de vermes, piolhos e pulgas em fortes fronteiriços Quebra a imagem do “super-soldado” limpo e aproxima o passado da vida real
Os livros de história esconderam durante muito tempo a realidade corporal Autores vitorianos e posteriores preferiram histórias arrumadas de disciplina e império Incentiva os leitores a questionar narrativas heroicas que saltam a confusão, a doença e a fadiga
Nova ciência está a reescrever a história da fronteira A bioarqueologia liga parasitas, dieta e dureza quotidiana na muralha Oferece uma forma mais rica e humana de imaginar vidas antigas e “heróis” modernos

FAQ:

  • Todos os soldados romanos ao longo da Muralha de Adriano estavam infetados com parasitas? Não todos, sem exceção, mas a evidência de vários fortes mostra ovos de parasitas na maioria das camadas de latrina estudadas, o que aponta para infeções generalizadas e prolongadas em toda a guarnição.
  • Isto significa que a higiene romana era completamente inútil? Não. Banhos, latrinas e rotinas de limpeza reduziram alguns riscos, mas coisas como esponjas partilhadas, água reciclada e quartéis sobrelotados também ajudavam os parasitas a espalhar-se.
  • Os romanos sabiam o que eram parasitas? Reparavam em vermes nas fezes e associavam algumas doenças a água má ou sujidade, mas não compreendiam ovos microscópicos nem os ciclos de vida completos como a medicina moderna.
  • Os britanos locais estavam em melhor estado do que os legionários? Não necessariamente. Comunidades rurais também conviviam com parasitas, embora dieta, habitação e carga de trabalho variassem; alguns locais seriam provavelmente mais saudáveis do que soldados da fronteira, outros estariam pior.
  • Esta investigação muda a forma como devemos ensinar a Muralha de Adriano? Sim - não ao abandonar a bravura e a engenharia, mas ao acrescentar corpos, doença e luta quotidiana, para que os alunos vejam os soldados romanos como humanos complexos, não como figuras de ação imaculadas.

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