Ainda assim, vai-se infiltrando lentamente nos armários da casa de banho e nas gavetas da penteadeira. O bicarbonato de sódio, aquela coisa que usamos para tirar cheiros do frigorífico e fazer bolos crescer, é agora sussurrado em grupos de WhatsApp como solução para rugas e olheiras teimosas. Uns chamam-lhe milagre. Outros reviram os olhos. Entre vídeos “antes/depois” no TikTok e dermatologistas cautelosos, uma pergunta continua a reaparecer por cima do lavatório: será que este pó branco humilde consegue mesmo fazer aquilo que os cremes de olhos caros prometem há anos?
Bicarbonato de sódio: da prateleira da cozinha para a pele sob os olhos
Começou, de forma estranha, com um comboio atrasado e má iluminação. Numa manhã cinzenta em Londres, a maquilhadora Chloe Hayes estava a aplicar corretor numa cliente quando a luz néon agressiva denunciou cada linha fina à volta dos olhos. A mulher suspirou: “Já experimentei de tudo. Nada resulta.” A Chloe parou e mencionou um truque que tinha visto nos bastidores de uma produção de baixo orçamento: uma pasta de bicarbonato de sódio bem diluída, usada por muito pouco tempo sob os olhos para “acordar” a pele.
A cliente riu-se e experimentou nesse fim de semana. Uma semana depois, estava a enviar à Chloe fotografias de um olhar ligeiramente mais liso, menos inchado. A mudança não era dramática - não era um lifting dentro de uma caixa. Mas o contorno dos olhos parecia menos acinzentado, menos cansado. É assim que estas coisas se espalham: de uma amiga para outra, uma DM, uma pesquisa no Google a altas horas. De repente, especialistas de beleza começaram a ser questionados sobre bicarbonato de sódio como se fosse o novo retinol.
Numa pequena clínica de dermatologia em Paris, a Dra. Léa Morgan diz que agora ouve a mesma pergunta “pelo menos três vezes por dia”. Alguns pacientes chegam com capturas de ecrã de influenciadores de beleza. Outros trazem receitas caseiras rabiscadas em papel: “1 colher de chá de bicarbonato, 2 colheres de chá de água, 1 gota de limão.” Ela faz uma careta com o limão. Ainda assim, não descarta a tendência de imediato. “Há uma razão para as pessoas sentirem que faz alguma coisa”, diz, apontando para o efeito ligeiro de esfoliação e luminosidade que o bicarbonato de sódio pode proporcionar quando usado extremamente cuidadosamente.
Ao microscópio, o bicarbonato não é pó mágico. É um pó ligeiramente alcalino que pode polir suavemente células mortas e neutralizar ácidos. Usado em pele mais espessa - como pés ou cotovelos - pode deixar um acabamento suave. À volta dos olhos, a história é mais delicada. A pele ali é fina, frágil, quase como papel. Por isso, quando as pessoas dizem que o bicarbonato “apaga” rugas ou olheiras, o que muitas vezes querem dizer é que, temporariamente, torna a superfície um pouco mais luminosa e ligeiramente menos vincada. É como passar a ferro uma camisa na temperatura mais baixa: alisa um pouco, mas está sempre perto de queimar o tecido.
Como os especialistas de beleza usam realmente o bicarbonato em rugas e olheiras
Quando usado por profissionais, o método quase nada tem a ver com as receitas DIY agressivas que circulam online. A maioria dos especialistas começa com um teste numa pequena zona perto da linha do maxilar, e não diretamente sob o olho. Misturam uma pitada minúscula de bicarbonato com bastante água morna ou uma loção hidratante para criar uma mistura muito fluida, quase aguada. Depois aplicam com um cotonete mesmo abaixo da olheira, nunca na linha das pestanas.
O produto fica na pele menos de dois minutos - muitas vezes mais perto de 30 a 60 segundos. A ideia é dar uma esfoliação rápida e controlada, não uma máscara que arde. A seguir vem a parte crucial: enxaguar muito bem com água fresca e depois aplicar um creme ou gel de olhos espesso e calmante com ácido hialurónico ou pantenol. Feito assim, algumas pessoas notam uma textura um pouco mais lisa e um ar mais desperto antes de um evento ou sessão fotográfica. Pense nisto como um ajuste ocasional, não como um hábito diário.
Em casa, a história muda. As pessoas ficam impacientes. Usam demasiado pó, pouca água, ou deixam a mistura dez minutos “para funcionar melhor”. É normalmente aí que começam os problemas: vermelhidão, repuxamento, ardor. Uma esteticista em Londres conta o caso de uma cliente que deixou uma pasta de bicarbonato e limão durante a noite sob os olhos “porque o TikTok disse”. Na manhã seguinte, apareceu no salão com a pele em carne viva e inflamada, que demorou semanas a acalmar. Numa escala menos dramática, muitos utilizadores acabam simplesmente mais secos e com a pele mais “crepeada” ao fim de alguns dias de abuso, fazendo com que as rugas pareçam mais marcadas, não mais suaves.
Os especialistas de pele que aceitam a tendência do bicarbonato repetem sempre a mesma coisa: isto é um tratamento pontual, não um estilo de vida. Usado com moderação, pode polir e iluminar ligeiramente. Usado como se fosse uma limpeza diária, desregula o pH natural da pele, retirando a barreira protetora que mantém a hidratação e impede irritantes de entrar. E é aí que as olheiras e as linhas finas ficam mais visíveis, porque a pele desidratada reflete pior a luz e vinca com mais facilidade. A lógica é simples: não se esfrega o caminho até à juventude eterna. Por vezes, a corrida por resultados instantâneos é precisamente o que acelera os sinais de cansaço.
Receitas seguras, limites reais e o que os especialistas recomendam de facto
Quando os profissionais de beleza aceitam o bicarbonato na rotina, mantêm as receitas absurdamente simples. Um método popular para a zona sob os olhos: um quarto de colher de chá de bicarbonato em duas colheres de sopa de chá de camomila frio. O chá acalma, o bicarbonato esfolia suavemente. Um disco de algodão é embebido na mistura, espremido quase até secar e depois pressionado uma vez sob cada olho por menos de um minuto. Sem esfregar. Sem movimentos circulares. Sem o momento heroico do “está a picar, por isso deve estar a resultar”.
Depois vem um passo hidratante quase aborrecido: um creme de olhos rico, sem perfume, ou uma camada fina de gel de aloé vera puro. O contraste é intencional: uma ação curta, ligeiramente estimulante, seguida de uma fase longa e calmante. Para rugas nos cantos externos, algumas esteticistas misturam uma pitada de bicarbonato numa pequena porção do seu gel de limpeza suave habitual uma vez por semana, massajando apenas a zona dos “pés de galinha” com dois dedos. É um reforço controlado, não uma esfoliação total.
A nível humano, a maioria dos especialistas sabe como estas tendências se propagam. Numa noite de cansaço, ao espelho duro da casa de banho, uma “solução rápida” soa incrivelmente tentadora. Todos já vivemos aquele momento em que nos olhamos e nos perguntamos quando é que, exatamente, aquelas olheiras se tornaram permanentes. Por isso, o melhor conselho vem com muita empatia. Ninguém goza com o DIY do bicarbonato. Explicam como baixar a intensidade para não correr mal, e o que observar: ardor, vermelhidão persistente, ou aquela sensação desconfortável de pele que “já não parece sua”.
“O bicarbonato pode dar uma pequena melhoria real na textura e na luminosidade”, diz a dermatologista Dra. Léa Morgan. “Mas se a zona sob os olhos estiver muito seca, sensível ou já irritada, prefiro que invista a sua energia em hidratação e sono do que em experiências de cozinha.”
Algumas esteticistas partilham uma lista rápida para manter as expectativas no mundo real:
- Use bicarbonato sob os olhos no máximo uma vez a cada 10–14 dias, nunca diariamente.
- Dilua sempre muito e teste noutra zona antes de se aproximar do contorno dos olhos.
- Associe qualquer experiência com bicarbonato a hidratação extra e protetor solar no dia seguinte.
Sejamos honestos: praticamente ninguém faz isto todos os dias à risca. E é exatamente por isso que os profissionais insistem em rotinas simples e indulgentes. Quanto menos complicado, mais provável é tratar a pele com delicadeza em vez de a punir em nome do “anti-idade”.
O que o bicarbonato pode dar - e o que nunca dará
Uma coisa fica clara ao ouvir especialistas de beleza em Londres, Paris e Nova Iorque: o bicarbonato não é o vilão, nem a fada madrinha. Usado com bom senso, comporta-se como um pequeno botão de reset para pele baça e ligeiramente áspera. Um polimento rápido antes de um grande dia. Um truque pontual para o corretor assentar um pouco melhor e as linhas finas apanharem a luz de forma diferente. É uma ferramenta que funciona melhor quando as expectativas são baixas e o respeito pela pele é alto.
O que não fará é apagar rugas profundas ou olheiras genéticas que vêm de família. Isso exige uma mistura de sono, hidratação, por vezes lasers ou injetáveis, muitas vezes paciência, e sempre gentileza. Como vários dermatologistas admitem discretamente, a mudança mais dramática que veem nos pacientes não vem de um ingrediente específico, mas de as pessoas aprenderem a parar de atacar o rosto. Quando a guerra contra cada pequena linha abranda, a pele muitas vezes responde melhor a tudo - do humilde bicarbonato aos séruns de alta tecnologia.
Assim, a pequena caixa laranja pode ficar na casa de banho, se quiser. Como lembrete de que beleza inteligente nem sempre significa cara, e de que a linha entre remédio e irritação muitas vezes está a uma colher de chá de distância. Também pode abrir conversas honestas: sobre a pressão para “parecer fresco”, sobre os filtros que fazemos scroll à meia-noite, sobre a distância entre aquilo que esperamos que um produto resolva e aquilo em que ele realmente consegue tocar. Algures entre o frigorífico e o espelho, o bicarbonato tornou-se um símbolo desse equilíbrio frágil. A pergunta é menos “Funciona?” e mais “Com que delicadeza estamos dispostos a tratar a nossa pele enquanto experimentamos?”
| Ponto-chave | Detalhes | Porque importa aos leitores |
|---|---|---|
| Como diluir bicarbonato com segurança | Use cerca de 1/4 de colher de chá de bicarbonato em 2 colheres de sopa de água ou chá de camomila arrefecido para criar uma solução muito leve e líquida, em vez de uma pasta espessa. | Reduz o risco de queimaduras e irritação, sobretudo na pele frágil sob os olhos, que reage rapidamente a produtos fortes. |
| Tempo máximo de contacto | Deixe a solução na zona sob os olhos apenas 30–60 segundos e depois enxague bem com água fresca ou morna. | Um contacto curto permite uma esfoliação suave sem retirar a barreira cutânea nem agravar rugas por desidratação. |
| Com que frequência usar | Os profissionais sugerem usar bicarbonato sob os olhos no máximo uma vez a cada 10–14 dias, evitando o uso diário ou mesmo semanal. | Evita a esfoliação em excesso, que pode causar vermelhidão, repuxamento e linhas finas mais acentuadas - fazendo parecer mais cansado, não menos. |
FAQ
- O bicarbonato de sódio consegue mesmo reduzir olheiras? Pode iluminar ligeiramente a superfície e suavizar a textura, o que pode fazer com que as olheiras pareçam menos marcadas por pouco tempo. Não altera vasos sanguíneos nem genética, por isso os resultados são modestos e temporários.
- É seguro aplicar bicarbonato diretamente sob os olhos? Só se estiver muito diluído, usado por menos de um minuto e seguido de um creme de olhos calmante. Pastas de bicarbonato puras, especialmente com limão, são demasiado agressivas para o contorno ocular.
- O bicarbonato vai apagar as minhas rugas? Não. Pode fazer com que linhas finas pareçam mais suaves ao remover células mortas e melhorar a forma como a luz incide na pele, mas não reconstrói colagénio nem aperta a zona de forma permanente.
- Que tipos de pele devem evitar bicarbonato à volta dos olhos? Pele muito sensível, seca, com tendência para eczema ou rosácea deve evitar perto dos olhos. Estes tipos de pele já têm uma barreira frágil e reagem rapidamente a produtos alcalinos.
- O que devo fazer se a pele arder depois de usar bicarbonato? Enxague com muita água fresca, pare de usar a mistura e aplique um hidratante suave, sem perfume. Se ardor, inchaço ou vermelhidão durarem mais de um dia, fale com um dermatologista ou farmacêutico.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário