O sol está a pôr-se sobre a charneca nos arredores de Midland, no Texas, e as bombas de extração continuam a mover-se como gafanhotos de ferro contra um céu violeta. A poucas centenas de metros, uma fila de painéis solares novos cintila no horizonte, engolindo a última luz do dia. Camiões carregados com equipamento de perfuração passam a tremer junto de trabalhadores com coletes fluorescentes que, em silêncio, enrolam extensões no parque solar. As mesmas botas. Um futuro diferente.
Um encarregado na casa dos cinquenta, boné puxado para baixo, semicierra os olhos para os painéis e murmura para ninguém em particular: “Acho que é isto que sobra para nós, não é.” A equipa ri-se, mas ninguém acha realmente graça.
A conversa global já seguiu em frente. Para muitos especialistas, o debate já não é se devemos apostar no solar, mas quão depressa estamos dispostos a partir coisas pelo caminho.
E quem estamos dispostos a partir.
Porque é que o solar deixou de ser uma personagem secundária na história da energia
Entre hoje numa conferência séria sobre clima ou energia e vai reparar imediatamente. Os combustíveis fósseis já não são o ponto alto; são o parente constrangedor que toda a gente sabe que precisa de ser afastado. Nos ecrãs gigantes, vêem-se gráficos de solar, curvas de custo do solar, gigafábricas de solar.
A nova narrativa é direta. Se queremos um planeta habitável, o solar não pode ser apenas “uma grande parte da mistura”. Tem de se tornar a espinha dorsal, o padrão, aquilo que ligamos e esquecemos. Para alguns investigadores, a formulação é ainda mais dura: os combustíveis fósseis têm de ser “estrangulados” até não lhes restar oxigénio económico.
Por detrás dos diapositivos técnicos, há um silêncio muito humano sobre o que isso significa, de facto, para as pessoas que ainda ganham a vida com petróleo, gás e carvão.
Veja-se a região do Ruhr, na Alemanha, outrora uma fotografia a preto e branco de pó de carvão e aço. As minas fecharam, as chaminés arrefeceram, e hoje a área está pontilhada de parques solares, polos tecnológicos e campus modernos. Os políticos apontam-na como prova de que as transições funcionam. Os números, de certa forma, sustentam-nos: os empregos no carvão colapsaram, os empregos “verdes” cresceram, o desemprego desceu ao longo do tempo.
Mas dentro dessa estatística brilhante há pessoas reais que nunca conseguiram dar o salto. Homens que tinham 52 anos quando a mina fechou e 59 quando as candidaturas para reconversão foram educadamente recusadas. Terras onde o bar ficou aberto, mas o supermercado não. Famílias que aprenderam da forma mais dura que “estamos a investir no futuro” não paga a renda deste mês.
Quando especialistas dizem, com calma, que os trabalhadores dos fósseis são “danos colaterais”, estão a falar de vidas como estas - apenas com um vocabulário mais frio e mais limpo.
No papel, a lógica parece implacável, mas arrumada. Em muitas regiões, a energia solar é hoje a eletricidade mais barata da história. Os painéis instalam-se mais depressa do que oleodutos, e não explodem geopoliticamente sempre que há uma guerra ou uma crise de transporte marítimo. Os prazos climáticos estão a apertar, e cada novo campo de gás ou central a carvão prende-nos a décadas de emissões que não podemos suportar.
A partir dessa lente, a equação é simples. Eliminar os fósseis tão depressa quanto as redes aguentarem, canalizar subsídios para solar e armazenamento, e aceitar que algumas indústrias, regiões e empregos serão sacrificados. A linguagem de guerra entra de mansinho: “linha da frente”, “mobilização total”, “ativos encalhados”.
A nuance moral achata-se. Se o objetivo é sobreviver, as baixas tornam-se números num slide de transição.
A nova “guerra necessária” e como viver dentro dela
Economistas da energia dizem que já estamos numa guerra silenciosa por recursos - só que, desta vez, o campo de batalha é a política, o capital e a opinião pública. Os vencedores serão quem conseguir construir solar, baterias e redes mais depressa do que os outros. Os perdedores serão os que ficam com infraestrutura fóssil que ninguém vai querer comprar daqui a dez anos.
Para os trabalhadores apanhados no meio, o primeiro passo prático é dolorosamente simples: ler o mapa, não o comunicado de imprensa. A sua refinaria já fala em “otimização de ativos”? A sua empresa está a vender campos discretamente ou a adiar manutenção? Esses são foguetes de aviso.
Mudar competências cedo, mesmo que de forma modesta, conta mais do que esperar por um programa de transição perfeito que pode chegar cinco anos demasiado tarde. Uma certificação básica em eletricidade, segurança em alta tensão ou logística de projetos pode ser a pequena dobradiça que faz a sua carreira virar toda para o solar.
Os discursos públicos costumam soar animadores: “Ninguém ficará para trás”, “Transição justa para todos”. Fale com trabalhadores que saem de uma central a carvão encerrada na África do Sul ou de uma plataforma offshore em redução no Mar do Norte e ouvirá outra música. Os fundos de requalificação são lentos. Os cursos ficam longe. A creche não aparece por magia quando dizem a um operário de 45 anos para “virar programador”.
Todos conhecemos esse momento em que percebemos que a manchete da política está três passos à frente da nossa vida real. O choque emocional é verdadeiro: num dia está a alimentar a economia, no outro passa a ser enquadrado como um problema a resolver.
Sejamos honestos: ninguém lê uma brochura governamental sobre transição e pensa: “Sim, isto vai tratar da minha hipoteca.” É no fosso entre narrativa e salário que a desconfiança cresce.
Os especialistas mais duros já nem o adoçam.
“Qualquer trajetória climática séria implica destruição deliberada do valor dos combustíveis fósseis”, diz um economista do clima. “Isso significa ativos encalhados e trabalhadores encalhados. Podemos suavizar, mas não conseguimos evitar por completo.”
Dentro dessa afirmação dura, ainda há espaço para escolhas. Não sobre se o solar vai dominar - esse barco já partiu - mas sobre como tratamos os humanos do lado perdedor da curva.
Investigadores de políticas públicas apontam um conjunto de alavancas muito concretas que mudam a história:
- Redirecionar subsídios aos fósseis para garantias salariais a trabalhadores em transição.
- Financiar reconversão que começa antes dos encerramentos, não depois.
- Ligar benefícios fiscais do solar a contratação local e aprendizagens.
- Apoiar pequenas localidades com transferências diretas de orçamento, e não apenas “polos de inovação”.
- Dar aos trabalhadores uma palavra real sobre calendários de encerramento e desenho da reconversão.
Nada disso apaga a dor. Mas transforma “danos colaterais” em algo mais próximo de uma compensação dura, negociada - com nomes e rostos associados, e não apenas contagens de empregos num gráfico.
O que acontece quando o sol se torna mesmo a única fonte de energia?
Imagine, por um momento, do que os especialistas estão realmente a falar quando dizem que o solar deveria ser a única fonte de energia na Terra. Não querem dizer um mundo de banda desenhada onde as centrais a carvão e a gás desaparecem de um dia para o outro e todos os telhados brilham a azul. Querem dizer um sistema em que quase todo o investimento novo vai para o solar, apoiado por baterias, redes mais inteligentes e um pouco de eólica ou hídrica para estabilizar o ritmo.
A procura de petróleo cai não porque nos tornamos santos de repente, mas porque os carros elétricos passam a ser mais baratos do que o gasóleo, as bombas de calor substituem o gás em silêncio e as fábricas migram para processos elétricos alimentados por vastos desertos solares. A economia dos fósseis encolhe como os telefones fixos: ainda existe, mas esbate-se no fundo, sem lucro, sem carinho.
Nesse mundo, um jovem de 20 anos hoje provavelmente nunca trabalha numa plataforma. Um perfurador de 45 anos pode nunca mais voltar a trabalhar no seu ofício.
A questão em aberto não é se caminhamos para essa realidade dominada pelo solar, mas quão honestamente falamos sobre o que estamos a partir para lá chegar. Comunidades que construíram a sua identidade sobre o ouro negro ou o “gás limpo” agora ouvem especialistas a enquadrá-las como obstáculos a uma resposta de emergência planetária. Algumas revidarão com processos em tribunal e oleodutos acorrentados à política. Outras tentarão apanhar a onda e negociar melhores condições para o seu próprio desmantelamento.
Nas redes sociais, o debate torna-se brutal: ativistas climáticos a exigir “acabar já com os fósseis”, defensores da indústria a chamar-lhes ingénuos sobre empregos e pobreza. No meio estão milhões de pessoas que só querem manter as luzes acesas, respirar ar que não faça mal e não acordar desempregadas porque um modelo global mudou uma cor de vermelho para verde.
A conversa sobre a dominância do solar está a perder essa voz humana do meio. É aí que se vão travar as próximas batalhas.
Se há um fio que vale a pena segurar, é este: a guerra da energia é real, mas não tem de ser travada apenas em folhas de cálculo e frases feitas. Os cidadãos podem fazer perguntas mais difíceis quando é anunciado um novo megaprojeto solar: quem é contratado? quem fica para trás? que dinheiro volta para as terras que alimentaram a era antiga?
Os trabalhadores podem recusar ser enquadrados como baixas e organizar-se como negociadores, exigindo que “transição justa” deixe de ser um slogan e passe a ser um contrato. Investidores que adoram falar de risco climático podem incluir o risco social na mesma frase, e não como uma nota de rodapé.
O sol vai continuar a nascer quer planeemos isto bem ou mal. A verdadeira história é como nos tratamos uns aos outros enquanto corremos para captar a sua luz.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O solar está destinado a dominar | Especialistas veem o solar como a futura espinha dorsal da energia global, com os combustíveis fósseis a perderem rapidamente terreno económico. | Ajuda a perceber porque a mudança parece súbita e inegociável. |
| Os trabalhadores estão na linha da frente | Comunidades dependentes de combustíveis fósseis enfrentam perda de emprego e choques de identidade à medida que as indústrias encolhem. | Dá contexto ao custo humano por detrás das manchetes sobre o clima. |
| As transições podem ser moldadas | Políticas como garantias salariais, reconversão antecipada e contratação local podem suavizar os danos. | Mostra onde a pressão e a ação ainda podem mudar resultados. |
FAQ
- É realista o solar tornar-se a “única” fonte de energia? Na prática, os especialistas esperam que o solar suporte a maior parte da carga, apoiado por baterias, eólica, hídrica e redes mais inteligentes. “Única” é um atalho para “dominante”, não significa literalmente uma única tecnologia em todo o lado.
- Porque é que os trabalhadores dos combustíveis fósseis são chamados “danos colaterais”? Porque muitos planos climáticos e energéticos aceitam perdas de emprego e declínio comunitário como efeitos secundários inevitáveis de uma eliminação rápida, focando-se mais em metas de emissões do que em vidas individuais.
- As competências dos combustíveis fósseis podem mesmo transitar para empregos no solar? Muitas vezes sim: experiência com maquinaria pesada, protocolos de segurança e logística de projetos é valiosa. A lacuna costuma estar em certificações formais, localização e timing, não na capacidade de base.
- Quem deve pagar uma “transição justa”? Há pressão crescente para que governos, empresas de combustíveis fósseis e grandes investidores partilhem a fatura, através de impostos, taxas e condições associadas a subsídios de energia limpa.
- O que pode um leitor comum fazer em relação a tudo isto? Pode votar em políticas que protejam os trabalhadores e o clima, apoiar iniciativas locais de formação e fazer perguntas difíceis quando novos projetos energéticos são vendidos como milagres sem dor.
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