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Enterrado sob 2 km de gelo na Antártida, cientistas descobrem um mundo perdido com 34 milhões de anos.

Cientista analisa bloco de gelo com folhas dentro, ao ar livre, com equipamento de perfuração ao fundo.

O berbequim estremeceu na noite polar, um batimento cardíaco mecânico a ecoar através de dois quilómetros de gelo antigo. Lá fora, a temperatura do ar rondava os –40°C, e o feixe de uma lanterna frontal só apanhava neve em turbilhão e um nevoeiro fantasmagórico. Dentro do contentor-laboratório apertado, uma pequena equipa de investigadores exaustos inclinava-se sobre um tabuleiro de aço inoxidável, à espera do próximo cilindro de gelo de um mundo que nenhum ser humano alguma vez tinha visto. Quando o carote finalmente deslizou para fora, surgiu uma ténue faixa escura na coluna azul‑branca - um borrão de lama aprisionada, minúsculas conchas e algo que parecia suspeitamente vida fossilizada.

Alguém sussurrou, quase com medo de quebrar o encanto: “Isto… não devia estar aqui.”

Sob dois quilómetros de gelo antártico, tinham acabado de abrir uma cápsula do tempo com 34 milhões de anos.

Uma paisagem perdida sob o maior congelador do mundo

A ideia de que a Antártida já teve florestas, rios e uma costa próspera soa a proposta de ficção científica. De pé hoje no planalto da Antártida Oriental, com o vento a raspar a pele exposta como lixa, é quase impossível imaginar aqui qualquer coisa verde a sobreviver. No entanto, à medida que os novos carotes de gelo iam subindo das profundezas, os cientistas começaram a detetar grãos de pólen, fragmentos de diatomáceas e vestígios de solo antigo. Pistas minúsculas e teimosas.

Cada fragmento sussurrava a mesma mensagem: este lugar já foi vivo.

A descoberta veio de uma região conhecida como a Bacia Subglacial Aurora, uma vasta depressão de terreno hoje soterrada sob uma esmagadora camada de gelo. Plataformas de perfuração, transportadas em aviões de carga militares e montadas como Lego na neve, passaram semanas a furar através do tempo congelado. Quando a broca finalmente mordeu o sedimento por baixo, a equipa soube que tinha atravessado uma fronteira - tinham deixado a era do gelo e atingido algo mais antigo.

A análise laboratorial, já de regresso a casa, pôs um número nesse “algo”: aproximadamente 34 milhões de anos, precisamente no momento em que a Terra passou de um planeta‑estufa para um planeta‑geladeira. Antes disso, é provável que a costa aqui tivesse zonas húmidas, deltas fluviais e florestas baixas e arbustivas. Não palmeiras, mas definitivamente não o deserto branco morto que vemos hoje nas imagens de satélite.

O que trouxeram à superfície não foi um cemitério de dinossauros nem uma floresta fóssil completa. Era mais subtil do que isso - e mais estranho. Camadas de lama ricas em matéria orgânica. Restos microscópicos de conchas de organismos unicelulares que em tempos flutuaram em mares mais quentes. Impressões digitais químicas no sedimento a sugerirem condições amenas e chuvosas, em vez do frio brutal que agora associamos ao Polo Sul.

Esta paisagem enterrada funciona como um gravador de caixa negra do sistema climático da Terra.

Ao ler estas camadas, os cientistas conseguem reconstruir quão depressa o gelo avançou pela primeira vez, como o nível do mar subiu ou caiu abruptamente e quão frágil foi realmente esse ponto de viragem. Um mundo perdido sob o gelo - e, de repente, o nosso próprio futuro parece muito menos abstrato.

Como perfurar o tempo profundo sem o partir

Chegar a um mundo tão antigo não significa simplesmente “furar a direito e esperar”. A equipa começou por usar radar de penetração no gelo, voando baixo sobre a brancura vazia com instrumentos que “veem” através do gelo como uma ecografia. Nos ecrãs surgiram imagens fantasmagóricas: vales enterrados, cristas e planícies, tudo esculpido antes de o primeiro gelo permanente se instalar. Quando encontraram um local onde o sedimento parecia espesso e intacto, começou o verdadeiro trabalho.

A perfuração tinha de atravessar 2.000 metros de gelo sem contaminar o próprio mundo que tentavam estudar. Isso implicou fluidos estéreis, protocolos de sala limpa numa tenda montada sobre o gelo e uma descida dolorosamente lenta, medida em centímetros por hora.

Se alguma vez tentou fazer algo delicado com os dedos gelados, já tem uma ideia das batalhas diárias naquele acampamento. As mangueiras congelam. Os parafusos bloqueiam como pedra. Os ecrãs dos computadores embaciam e morrem. E, cada vez que a broca voltava a subir, todos prendiam a respiração: seria mais gelo sem características - ou o primeiro toque de lama antiga?

Há um medo silencioso e partilhado em projetos como este - o de que milhões de euros, meses de risco e um cansaço que chega aos ossos terminem num vazio de dados. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem, às 3 da manhã no escuro uivante, se perguntar se o planeta sequer vai “ouvir” aquilo que estão a tentar dizer.

Quando o sedimento finalmente apareceu, o ambiente mudou num instante. Investigadores que falavam em tons curtos e práticos passaram a soar como crianças a quem entregaram um mapa secreto. Já no laboratório, fatiaram os carotes como um bolo: secções finas para microscópios, pequenas raspas para testes químicos, camadas cuidadosamente arquivadas e armazenadas a temperaturas abaixo de zero.

“Cada milímetro deste carote é uma linha no diário da Terra”, disse um glaciólogo do projeto. “Não se lê um diário à pressa. Lê-se devagar, e escuta-se.”

  • Radar de penetração no gelo – mapeia vales e bacias enterrados sob a camada de gelo
  • Perfuração profunda de carotes de gelo – recupera cilindros contínuos de gelo e sedimento subjacente
  • Análise de microfósseis – usa conchas minúsculas e pólen para reconstituir ecossistemas passados
  • Química de isótopos – infere temperaturas antigas e padrões de precipitação a partir de rácios atómicos
  • Modelos climáticos computacionais

O que um mundo com 34 milhões de anos significa para os nossos próximos 100 anos

Esta paisagem antiga não fica educadamente presa ao passado. À medida que os níveis de CO₂ voltam a subir, os cientistas estão a olhar diretamente para a marca dos 34 milhões de anos porque foi a última grande reviravolta climática da Terra. Na altura, os níveis de gases com efeito de estufa desceram, os oceanos arrefeceram e o gelo avançou sobre a Antártida pela primeira vez de forma grande e permanente. O nível do mar desceu dezenas de metros. As linhas de costa mudaram. A vida teve de se deslocar - ou desaparecer.

Agora estamos a rebobinar a fita, e o sedimento enterrado mostra quão sensível é a Antártida quando o “botão” roda.

Os carotes sugerem que partes da Antártida Oriental - durante muito tempo consideradas quase intocáveis - podem derreter e recuar quando o aquecimento ultrapassa certos limiares. Isto importa muito para além da ciência polar. Se grandes setores desta camada de gelo começarem a deslizar e a afinar, o nível do mar global poderá acabar por subir vários metros. Não de um dia para o outro, mas ao longo do tempo de vida de cidades, portos e bairros costeiros que hoje tratamos como permanentes.

Todos já sentimos aquele momento em que um problema distante, de repente, se torna pessoal. Para alguém num subúrbio baixo na Flórida, no Bangladesh, nos Países Baixos ou numa ilha do Pacífico, estas histórias de “tempo profundo” não são apenas sobre florestas antigas de fetos; são avisos precoces sobre casa.

A descoberta sob 2 km de gelo antártico também vira do avesso uma narrativa que contamos a nós próprios: a de que algumas partes da Terra estão para sempre congeladas, para sempre seguras. A evidência diz o contrário. Este continente já mudou de estado antes, de verde para branco, de húmido para encerrado - e agora estamos a empurrar o sistema outra vez com combustíveis fósseis.

Os cientistas não afirmam que este mundo enterrado dê todas as respostas, mas arranca uma ilusão confortável - a de que a camada de gelo é inabalável. O que fizermos nas próximas décadas escreverá a camada seguinte por cima dessa lama com 34 milhões de anos, mesmo que ninguém a perfure durante muito tempo.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O passado oculto da Antártida Descoberta de sedimento e microfósseis com 34 milhões de anos sob 2 km de gelo Muda a forma como imaginamos o planeta e a sua capacidade de transformação rápida
Indícios de pontos de viragem climáticos Registos dos carotes captam o momento em que a Terra passou de quente a glaciada Ajuda a antecipar como o aquecimento atual pode desencadear futura subida do nível do mar
Gelo “permanente” frágil Evidência de que o gelo da Antártida Oriental avançou e recuou no tempo profundo Lembra-nos que as linhas de costa e as cidades atuais são menos permanentes do que parecem

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sabem os cientistas que o mundo enterrado tem 34 milhões de anos? Datam minerais minúsculos e microfósseis no sedimento e confirmam com mudanças climáticas globais conhecidas e sinais magnéticos presos nas camadas.
  • Pergunta 2 A Antártida era mesmo quente e verde nessa altura? Mais quente, sim, e pelo menos parcialmente verde ao longo das costas. As evidências apontam para climas amenos, com vegetação e água líquida, e não para o deserto gelado de hoje.
  • Pergunta 3 Isto significa que todo o gelo da Antártida pode derreter agora? Não instantaneamente, nem todo ao mesmo tempo. O registo mostra que alguns setores são mais vulneráveis do que outros, mas uma fusão em grande escala desenrolar-se-ia ao longo de séculos a milénios.
  • Pergunta 4 Porque é que uma paisagem com 34 milhões de anos importa para pessoas vivas hoje? Porque revela como a camada de gelo respondeu quando o clima ultrapassou certos limiares, ajudando-nos a estimar a futura subida do nível do mar sob aquecimento continuado.
  • Pergunta 5 Os cientistas vão perfurar mais destas bacias escondidas? Sim, equipas internacionais já estão a mapear novos alvos. Cada bacia é como um capítulo diferente no diário climático da Terra, à espera sob o gelo de alguém suficientemente paciente para o ler.

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