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Engenheiros confirmam novo mega túnel ferroviário submarino ligando continentes, gerando receios de desastre ecológico e aumento das desigualdades globais.

Grupo de pessoas analisa mapa náutico numa mesa, com capacete, tablet e amostra de coral. Visão do mar ao fundo.

O anúncio não aconteceu numa grande sala, mas numa transmissão em direto pixelizada numa manhã de terça‑feira. Uma fila de engenheiros, com fatos ligeiramente amarrotados, foi passando diapositivos com linhas coloridas a cruzarem um mar azul‑escuro, enquanto o chat se enchia de emojis e pontos de exclamação. “Dia histórico”, chamou-lhe um ministro. “Estamos a unir dois continentes com o mais longo túnel ferroviário subaquático alguma vez construído.”

Algures entre os aplausos e as renderizações 3D de comboios elegantes a deslizarem sob o oceano, começaram as perguntas. O que acontece às baleias? Quem é que vai poder andar neste comboio futurista - e quem é que fica apenas com a conta?

No papel, parecia progresso. No fundo do mar, parecia outra coisa completamente diferente.

Quando uma linha de sonho num mapa corta um oceano vivo

Fique no convés do ferry ao amanhecer e quase consegue imaginá-lo. Por baixo do rasto branco e das gaivotas a apanhar restos, um tubo de betão e aço serpentearia entre continentes, transportando comboios de alta velocidade em vez de navios porta-contentores. Os políticos chamam-lhe um “corredor de oportunidade”. Os engenheiros falam de pressão, profundidade e risco sísmico com uma calma que parece quase irreal.

O mar, porém, não lê notas informativas. Está cheio de zonas de reprodução, rotas migratórias e criaturas que se orientam mais pelo som do que pela visão. Transformar isso num estaleiro é mais do que “abrir um buraco”.

Num navio de investigação no mês passado, a bióloga marinha Aisha Ramos viu os scans de sonar iluminarem-se com as silhuetas de um grupo de baleias‑piloto. Esta faixa de água, explicou, é como uma via aérea movimentada para a vida marinha - um lugar onde as espécies se cruzam, acasalam, se alimentam e depois desaparecem no azul.

Agora, navios de prospeção contratados pelo consórcio do túnel cruzam a mesma área, disparando impulsos acústicos potentes para as profundezas para cartografar o fundo marinho. Pescadores queixam-se de que os seus pesqueiros habituais “ficaram silenciosos”. Uma pequena aldeia costeira que antes só se preocupava com a próxima tempestade fala agora de plumas de turvação, nuvens de sedimentos e de saber se os netos ainda verão golfinhos a partir da costa.

Os engenheiros defendem que conseguem contornar estes receios no desenho do projeto. Prometem perfuração mais silenciosa, detonações limitadas e recifes artificiais para “compensar” habitats danificados. Os relatórios de impacto ambiental somam milhares de páginas, cheios de gráficos e mapas de calor coloridos.

Ainda assim, a lógica básica é simples: para construir o túnel, o fundo do mar tem de ser perfurado, dragado e estabilizado numa escala colossal. O ruído viaja mais depressa e mais longe debaixo de água do que no ar. Sedimentos finos podem sufocar corais e pradarias marinhas, a base de cadeias alimentares inteiras. Não é preciso um doutoramento para sentir que abalar um ecossistema marinho com tanta força, tão depressa, tem um preço que ainda não compreendemos totalmente.

A falha silenciosa: para quem é este túnel, afinal?

Nas renderizações lustrosas, o novo mega‑túnel parece um bem público. Dois continentes ligados em menos de uma hora, mercadorias a contornar rotas marítimas congestionadas, milhões de toneladas de CO₂ supostamente poupadas à medida que aviões e camiões são substituídos por comboios elétricos. Explora aquele velho reflexo tecno‑otimista: construir em grande, resolver em grande.

Nos bastidores, a estrutura financeira conta outra história. O projeto é uma clássica “parceria” público‑privada, apoiada por garantias do Estado mas movida por fundos de investimento que esperam retornos de dois dígitos. Modelos de preços dos bilhetes que já circulam em salas de administração sugerem cabines de negócios de primeira classe, faixas premium para carga e tarifas dinâmicas muito acima dos rendimentos locais em qualquer das margens.

Fale com pessoas nas pequenas cidades portuárias perto dos futuros terminais e emerge um estado de espírito diferente. Um estivador do lado sul encolhe os ombros quando lhe perguntam sobre o túnel. “Dizem que vai trazer empregos”, diz, “mas as construtoras trazem a sua própria gente. E depois é tudo automatização.” Na margem norte, os inquilinos já sentem o aperto à medida que especuladores compram apartamentos meses antes de o primeiro segmento de betão ser sequer vertido.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que um grande projeto é vendido como “para todos” e, no entanto, acaba de algum modo vedado por preço, passaporte ou código postal. Para os camionistas que enfrentam a obsolescência e para os agricultores costeiros cuja terra enfrenta expropriação para linhas de acesso de alta velocidade, o túnel não parece uma ponte. Parece um filtro.

Há uma verdade simples escondida nestes números: os megaprojetos tendem a amplificar o poder de quem já o tem. Túneles subaquáticos, historicamente, impulsionaram fluxos comerciais, imobiliário, centros financeiros. Raramente vêm acompanhados de investimentos equivalentes nas regiões interiores negligenciadas que, em silêncio, mantêm ambos os continentes vivos.

Os economistas chamam a isto o “efeito túnel” da desigualdade. As ligações de alta velocidade concentram valor em poucos nós, sugando talento, capital e atenção para longe da periferia. Sem políticas deliberadas para redistribuir ganhos, o comboio subaquático torna-se uma espécie de tapete rolante que desloca riqueza e oportunidade ao longo de um eixo estreito, enquanto todos os que ficam fora dessa linha observam da bancada.

Como questionar um mega‑túnel sem soar anti‑progresso

Se alguma vez tentou levantar dúvidas sobre um enorme projeto de infraestruturas, sabe como a sala muda depressa. De repente, está “contra o desenvolvimento” ou “a romantizar o passado”. Por isso ajuda começar com perguntas, não com acusações.

Pergunte quem fez os estudos de referência sobre a vida marinha antes de o projeto ser desenhado. Pergunte o que acontece às comunidades piscatórias se os seus pesqueiros forem perturbados durante uma década. Pergunte quais os bairros que terão acesso rápido ao túnel e quais ficam com ligações mais lentas e mais cheias. Perguntas precisas cortam as animações brilhantes como um bisturi.

Muitas pessoas sentem que precisam de ser especialistas em geologia ou acústica marinha antes de se pronunciarem. Essa hesitação é exatamente com o que as equipas de megaprojetos contam. Não precisa de dominar o jargão técnico para reconhecer um padrão em que os mesmos grupos acabam sempre por pagar os custos mais elevados e ver os menores benefícios.

Sejamos honestos: ninguém lê realmente as 3.000 páginas de uma avaliação de impacto ambiental. Mas pode ler o resumo executivo, compará-lo com relatórios independentes de ONG e notar o que falta. Se as vozes locais aparecem sobretudo no apêndice de “consulta” lá no fim, isso é um sinal de alerta.

“O progresso não é um comboio em que ou se entra ou se perde”, diz o urbanista Malik O’Connor, que trabalhou em ligações subaquáticas em três países. “É uma negociação. O túnel pode ser construído, sim, mas em termos que não sacrifiquem ecossistemas nem aprofundem a desigualdade. Essa negociação só acontece se as pessoas o exigirem - persistentemente.”

  • Acompanhe os calendários – Compare quando começam as perturbações da construção com o momento em que chegam os benefícios prometidos. Longos intervalos de “dor agora, ganho depois” atingem muitas vezes mais duramente as comunidades mais pobres.
  • Siga o financiamento – Veja quem detém a empresa operadora do túnel, para onde fluem os lucros e o que acontece se as metas de receita não forem atingidas. Resgates públicos de apostas privadas são um padrão recorrente.
  • Vigie os projetos paralelos – Estradas de acesso, zonas logísticas e novos portos podem consumir mais terra e habitats do que o próprio túnel, tudo isto passando muitas vezes abaixo do radar mediático.
  • Ouça o silêncio – Se pescadores, pequenos comerciantes ou grupos indígenas parecem estranhamente ausentes de conferências de imprensa, pergunte porquê. A inclusão real é ruidosa e às vezes desconfortável, não é encenada.
  • Exija compensações reais – Não apenas campanhas simbólicas de plantar árvores, mas reservas marinhas financiadas, garantias de emprego local e compromissos vinculativos que sobrevivam a ciclos eleitorais.

Um túnel, um teste e a história que contamos sobre o futuro

O mega‑túnel subaquático provavelmente será construído. O capital político investido, os contratos assinados, o orgulho nacional em jogo - nada disso se evapora de um dia para o outro. A verdadeira questão é que história deixamos solidificar em torno dele enquanto as tuneladoras avançam, centímetro a centímetro, sob o fundo do mar.

Será este mais um monumento à “conectividade” que, em silêncio, corrói mares vivos e aprofunda a distância entre os ligados e os deixados para trás? Ou ainda pode tornar-se um estudo de caso sobre como construir em grande sem esmagar as vidas mais pequenas no seu caminho? A resposta não está apenas com ministros e CEOs, mas com cientistas que se recusam a ser afastados, comunidades costeiras que se recusam a ser instrumentalizadas e cidadãos de ambos os continentes que se recusam a ser deslumbrados até ao silêncio.

Alguns projetos revelam tanto sobre uma sociedade quanto transformam a sua geografia. Este túnel é um deles.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Choque ecológico Ruído, dragagens e sedimentos da construção ameaçam corredores de vida marinha ao longo do fundo do mar Ajuda a perceber o que está realmente em jogo para lá das manchetes brilhantes de engenharia
Desigualdade invisível Modelos de financiamento e escolhas de traçado arriscam canalizar benefícios para centros, empurrando custos para comunidades costeiras e rurais Dá-lhe uma lente para avaliar quem realmente ganha e perde com projetos “históricos”
Alavancagem cívica Perguntas direcionadas sobre estudos, financiamento e vozes locais podem mudar a forma como o túnel é construído e governado Mostra formas concretas de participar sem ser especialista nem soar anti‑progresso

FAQ:

  • Pergunta 1 O mega‑túnel subaquático é mesmo pior para o oceano do que o transporte marítimo e a perfuração petrolífera?
  • Pergunta 2 O túnel poderá, de facto, reduzir as emissões globais ao substituir voos e camiões?
  • Pergunta 3 Quem costuma pagar quando este tipo de megaprojetos derrapa no orçamento?
  • Pergunta 4 O que podem fazer as comunidades locais se sentirem que o traçado do túnel ou os terminais são injustos?
  • Pergunta 5 Há exemplos de grandes projetos de infraestruturas que tenham evitado aprofundar a desigualdade?

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