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Encontrou-se vivo no Pantanal o maior filhote de águia do mundo, trazendo esperança rara para a sobrevivência da harpia no Brasil.

Mulher observa águia em ninho com binóculos, perto de um rio e rodeada de árvores.

High above the wetlands near Corumbá, investigadores confirmaram algo que procuravam há mais de uma década: uma cria viva de águia‑harpia, instalada num ninho no Maciço do Urucum, sinalizando que uma das aves de rapina mais raras do Brasil ainda está a reproduzir-se nesta paisagem sob forte pressão.

Um ninho escondido no Maciço do Urucum

A cria foi confirmada no início de janeiro de 2026, após a monitorização contínua de um único ninho ativo na região do Pantanal, em Mato Grosso do Sul, iniciada em 2025.

O biólogo brasileiro e fotógrafo de vida selvagem Gabriel Oliveira, que tem acompanhado águias‑harpias no acidentado Maciço do Urucum, perto de Corumbá, liderou a confirmação. A área é um mosaico de floresta preservada, cicatrizes de mineração e ravinas de difícil acesso, onde cada aproximação tem de ser planeada para evitar stress nas aves.

A cria não é apenas uma nova vida; é uma prova rara e concreta de que as águias‑harpias ainda se reproduzem no Pantanal.

Os investigadores suspeitavam há muito que pelo menos um casal reprodutor ainda nidificava na região, mas localizá-lo revelou-se extremamente difícil. Um dos ninhos do casal foi finalmente encontrado em julho de 2025, pondo fim a anos de incerteza sobre onde tentavam criar as suas crias.

O ninho que agora acolhe a cria foi registado pela primeira vez em novembro de 2025. As equipas de campo observaram que o casal alternava entre esta estrutura e outro ninho, provavelmente usando o segundo como local de reserva.

Esta alternância sugere uma estratégia para distribuir o risco, mas também sublinha o quão valioso se tornou cada único local de reprodução.

Como uma águia gigante cria uma única cria

A águia‑harpia, por vezes chamada de “águia‑real” no Brasil, é uma das maiores águias do planeta. Os adultos podem atingir uma envergadura de cerca de 2,2 metros e possuem garras assustadoramente poderosas, capazes de capturar presas arborícolas de grande porte, como macacos e preguiças.

Esse tamanho tem um custo. As águias‑harpias reproduzem-se lentamente, investem muito em cada cria e dependem de floresta estável e madura para manter um ninho ativo.

Os primeiros 60 dias: vigilância constante

Durante, aproximadamente, os primeiros dois meses após a eclosão, a fêmea permanece quase continuamente no ninho, protegendo a cria do calor, da chuva e de predadores. Nesta janela frágil, raramente se afasta muito.

Quando a cria está mais forte e com mais penas, o padrão muda. A fêmea começa a acompanhar o macho nas caçadas, regressando com menos frequência.

Toda a rotina depende de três condições: presas suficientes, um ambiente tranquilo e mínima perturbação humana.

O cuidado parental prolonga-se então por um período invulgarmente longo. Dados de monitorização noutros locais mostram que uma cria fêmea pode permanecer sob cuidados parentais até dois anos e meio. Uma cria macho pode ainda ser apoiada durante cerca de um ano e meio.

Isto significa que o casal investe anos num único descendente. Se uma cria morrer, ou se um adulto for abatido a tiro ou perder o seu território, a população não consegue recuperar rapidamente.

Quando o habitat é destruído ou as aves são mortas ilegalmente, as perdas acumulam-se muito mais depressa do que a espécie consegue repô-las.

Porque é que uma única cria muda o debate sobre conservação

No papel, a águia‑harpia no Brasil encontra-se numa posição preocupante. A agência federal de conservação ICMBio classifica-a como “quase ameaçada” a nível nacional, enquanto o estado de Mato Grosso do Sul já trata a espécie como formalmente ameaçada.

As principais pressões incluem a perda e fragmentação do habitat em grande escala, bem como abates ilegais. Grandes aves de rapina são por vezes alvo por medo, curiosidade ou conflito com caçadores.

Uma cria confirmada não elimina estas ameaças, mas abre uma estreita janela para construir conhecimento e proteção em torno de um ninho real e funcional.

Predadores grandes, com reprodução lenta, são muitas vezes os primeiros a desaparecer quando as florestas se fragmentam e estradas, explorações agrícolas e indústria avançam para o interior. As águias‑harpias precisam de árvores altas e antigas para os seus ninhos e de floresta suficientemente intacta para sustentar um fornecimento constante de presas. Quando essa estrutura desaparece, restabelecer um casal reprodutor torna-se extremamente difícil.

Observar sem perturbar: turismo e ciência encontram-se

As primeiras imagens da cria e da fêmea que a acompanhava vieram de uma saída de observação de aves e turismo de vida selvagem organizada pela Icterus Ecoturismo, em parceria com a Planeta Aves, um grupo focado em comunicação científica e educação ambiental.

A colaboração mostra o “gume duplo” do turismo de vida selvagem. Visitas responsáveis podem gerar rendimento local, reforçar o orgulho nas espécies nativas e chamar a atenção do público para esforços de conservação.

  • Visitas guiadas podem financiar a logística de investigação e a monitorização.
  • Os visitantes tornam-se embaixadores informais, partilhando imagens e histórias.
  • As comunidades locais ganham um incentivo para proteger, em vez de caçar, a vida selvagem.

Ao mesmo tempo, ninhos ativos são altamente sensíveis. Aproximações repetidas por pessoas, veículos ou drones podem alterar o comportamento dos adultos, interromper padrões de caça ou levá-los a abandonar o ninho por completo.

A linha entre documentar um evento raro e colocá-lo em risco é ténue, por isso protocolos de baixo impacto e supervisão técnica são importantes.

Uma busca de uma década dá frutos

Os investigadores tentam identificar um território reprodutor de águias‑harpias no Pantanal desde, pelo menos, 2012, quando o primeiro indivíduo na área foi registado. Durante anos, a ave surgiu apenas em avistamentos esporádicos, sem prova de nidificação local.

A confirmação atual fecha essa lacuna. Mostra não apenas que harpias adultas atravessam o Pantanal, mas que pelo menos um casal continua suficientemente ligado à paisagem para investir na criação de uma cria.

Do ponto de vista científico, essa única família oferece uma cascata de novos dados:

Aspeto O que os investigadores podem acompanhar
Desenvolvimento da cria Taxa de crescimento, fases de plumagem, primeiros voos
Cuidado parental Frequência de alimentação, papel de cada adulto, duração da dependência
Uso do ninho Alternância entre ninho principal e de reserva, duração de vida do ninho
Resposta ambiental Como o casal reage a ruído, visitantes, extremos meteorológicos e uso do solo nas proximidades

A monitorização a longo prazo mostrará se este é um ninho isolado ou o sinal de uma presença reprodutora capaz de persistir nos próximos anos. Essa diferença moldará o planeamento futuro de conservação, as prioridades de fiscalização e as campanhas de educação em toda a região.

Águias‑harpias como espécie-bandeira das florestas do Brasil

As águias‑harpias funcionam como uma “espécie‑bandeira” para grandes extensões de floresta tropical. Onde prosperam, a floresta costuma manter-se alta, interligada e rica em mamíferos de médio e grande porte. Onde desaparecem, é frequentemente um sinal de que o ecossistema foi profundamente alterado.

Ao focar uma ave carismática, programas de conservação podem proteger uma teia de vida muito mais ampla. Medidas destinadas a manter intactos os territórios de nidificação da harpia - como limitar o desmatamento, suprimir incêndios e reforçar o combate à caça - também protegem inúmeras outras espécies que partilham o mesmo habitat.

Para proprietários de terras e comunidades locais, vários passos práticos podem ajudar a manter águias‑harpias a nidificar nas proximidades:

  • Manter de pé as árvores emergentes mais altas, especialmente as já usadas como ninhos.
  • Preservar corredores florestais entre topos de colinas e florestas de várzea/terras baixas.
  • Evitar maquinaria ruidosa e iluminação noturna perto de ninhos ativos.
  • Denunciar qualquer tentativa de abate a tiro ou assédio a grandes aves de rapina.

Riscos, cenários e o que vem a seguir

O futuro da cria de Corumbá depende de muitos fatores: tempestades, disponibilidade de alimento, comportamento humano e até acidentes ao acaso. Com um período de cuidado tão longo, uma única perturbação daqui a um ano ou mais ainda pode afetar a sua sobrevivência.

Os investigadores costumam delinear três cenários básicos:

  • Positivo: a cria empluma, sobrevive aos primeiros anos e o casal volta a reproduzir-se no mesmo território, mostrando que o Pantanal ainda pode sustentar uma pequena população estável de harpias.
  • Estagnado: a cria sobrevive, mas o casal não volta a reproduzir-se, possivelmente devido a alterações de habitat ou perturbação.
  • Negativo: a cria ou um dos adultos perde-se, e o território reprodutor colapsa, ficando apenas indivíduos errantes sem um ninho estável.

Autoridades locais, cientistas e operadores turísticos podem aumentar as probabilidades de melhores resultados através de coordenação: restringindo o acesso em torno do ninho durante períodos-chave, envolvendo comunidades próximas e usando a história desta cria em escolas e meios de comunicação para gerar apoio à proteção florestal.

A cria no Urucum é simultaneamente um sinal de esperança e um aviso: as águias‑harpias ainda se agarram ao Pantanal, mas apenas enquanto conseguirem encontrar refúgio, silêncio e espaço para caçar.

À medida que a ave jovem cresce, cada decisão tomada em torno das suas escarpas de nidificação - cortar uma árvore, disparar uma arma ou lançar um drone - terá mais peso do que pode parecer ao nível do solo. Para uma espécie que pode demorar anos a criar um único descendente, a margem de erro é reduzida.

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