Saltar para o conteúdo

Em 2008, a China construía estações de metro no meio do nada. Em 2025, percebemos o quão ingénuos fomos.

Homem lê jornal numa estação de comboios, com capacete amarelo na mesa e comboio urbano ao fundo.

As estações de metro que achámos ridículas

Volte a 2008: Pequim a preparar os Jogos Olímpicos, gruas por todo o lado, e cidades chinesas a abrir linhas de metro numa velocidade difícil de imaginar noutras geografias.

Muitos correspondentes estrangeiros iam às novas paragens na periferia e encontravam o mesmo: plataformas impecáveis, poucos passageiros, seguranças a passar o tempo. À superfície, lama, lotes vazios, obras a meio - e a sensação de que alguém tinha construído “a parte cara” antes de existir cidade.

Um vídeo da época tornou-se quase um símbolo: uma saída de metro moderna a dar para campos agrícolas. Para muita gente, isso “provava” excesso de investimento, propaganda, elefantes brancos.

O que essa leitura falhou foi simples: não era uma decisão para a fotografia do dia, mas para uma sequência de décadas. Muitas dessas estações estavam amarradas a planos de urbanização longos (habitação, emprego, serviços, vias, redes de água/energia), onde o metro era o eixo e não a consequência.

Uma regra prática que ajuda a entender o erro: infra‑estrutura pesada raramente “encaixa” no curto prazo. Entre estudos, projecto, obra, testes e operação, uma linha pode levar muitos anos - e a procura costuma crescer por etapas, à medida que a envolvente é licenciada, construída e ocupada.

Em 2025, os campos tinham-se transformado em bairros

Agora imagine a hora de ponta em 2025: a estação que antes abria para campos despeja gente para torres de escritórios, blocos residenciais, escolas, comércio. Os azulejos são os mesmos, mas a estação deixou de parecer cenário.

Algumas linhas exteriores em cidades como Nanjing ou Chengdu ilustram o padrão: estações que começaram com procura baixa passaram a receber tráfego diário elevado quando o bairro “encaixou” à volta.

Isto não é magia; é urbanismo + mercado a reagir a um facto fixo. Uma estação cria acessibilidade previsível. E previsibilidade atrai investimento: primeiro surgem obras e serviços básicos, depois emprego e habitação, e por fim o quotidiano (creches, restauração, pequenos negócios).

Duas notas úteis para ler este fenómeno com menos romantismo:

  • O efeito é mais forte num raio caminhável (tipicamente 5–10 minutos a pé) se houver densidade e mistura de usos; sem isso, a estação pode continuar “longe de tudo”.
  • “O metro não seguiu a cidade; a cidade seguiu o metro” só funciona quando a política de solos e licenciamento permite construir (e quando existem redes e espaço público). Sem essa coordenação, a estação vira apenas um ponto no mapa.

O que a China percebeu e nós não queríamos ouvir

O desconforto não é só que algumas “estações-fantasma” se encheram. É perceber como o nosso horizonte de planeamento encolheu.

No Ocidente, preferimos pilotos, fases pequenas, consensos longos. Na China, para o bem e para o mal, houve mais disposição para apostar cedo e grande: construir primeiro, preencher depois, e suportar anos de subutilização como parte do preço.

Isso não torna o modelo “melhor”. Traz custos reais: dívida, risco de sobredimensionamento, impactos sociais (deslocações), e perdas quando a procura não aparece. Também há um custo menos falado do lado oposto: construir pouco e tarde pode prender cidades ao automóvel, encarecer a habitação perto dos poucos eixos bem servidos e perpetuar periferias mal ligadas.

Em Portugal, esta tensão é familiar: expansões de metro/ferrovia e corredores dedicados costumam esbarrar em financiamento, expropriações, avaliação ambiental, obras em espaço público e ciclos políticos. A pergunta útil não é “isto é ambicioso demais?”, mas “qual é o custo total de não o fazer - e quem o paga?”.

Como isto muda a forma como olhamos para as nossas próprias cidades

Um exercício simples muda a lente: vá de metro (ou comboio urbano) até ao fim de uma linha. Saia e olhe à volta como se estivesse em 2008. O que ainda é vazio? O que já está a ganhar forma? O que falta para aquilo funcionar como bairro e não só como paragem?

Se não estiver na China, faça a versão local: pense numa estação periférica que hoje parece “longe”. Agora imagine que, em 10–15 anos, ali convergem novas ligações e mais habitação. A reacção automática costuma ser: “irrealista”, “desperdício”. Foi exactamente esse reflexo que fez muita gente errar a leitura de 2008.

A infra-estrutura é uma aposta sobre quem acha que serão os seus cidadãos do futuro - e onde acredita que eles merecem viver.

Para observar melhor (sem cair nem no cinismo nem no deslumbramento):

  • Repare nas margens: periferias mostram onde a cidade “pode” crescer.
  • Pergunte o que havia ali há 10–15 anos: mapas antigos e ortofotos ajudam mais do que opiniões.
  • Compare calendários, não manchetes: inauguração é um dia; consolidação urbana é uma década.
  • Veja os movimentos diários (trabalho/escola/saúde), não só onde as pessoas dormem.
  • Lembre-se de quem fica de fora: valorização e rendas podem expulsar; planeamento sem habitação acessível cria vencedores previsíveis.

A lição silenciosa escondida numa plataforma poeirenta

Em 2025, muitas dessas “estações no meio de lado nenhum” viraram recibos: sinais de que ainda é possível agir com um horizonte de 20 anos, aceitando períodos de vazio como parte do caminho.

Mas a lição não é “construir sempre mais”. É mais incómoda: o nosso “bom senso” sobre o que é impossível, caro ou tarde demais pode ser, muitas vezes, apenas aversão ao risco - e essa aversão também produz desperdício, só que espalhado por congestionamento, tempo perdido, emissões e bairros isolados.

O extraordinário, no fim, é virar rotina: pessoas a reclamar de atrasos, a fazer scroll, a entrar e sair sob luz fluorescente. É para isso que a infra‑estrutura existe.

A pergunta que fica para as nossas cidades é prática, não moral: daqui a vinte anos, em quais dos nossos “lados nenhuns” vamos desejar ter apostado - e que condições (solo, habitação, serviços) teríamos de garantir para a aposta resultar?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Apostas longas parecem tolas no curto prazo Algumas “estações-fantasma” de 2008 tornaram-se úteis quando o bairro chegou Ajuda a separar “vazio temporário” de “erro estrutural”
Transporte molda a cidade Acessibilidade fixa atrai investimento quando o planeamento permite construir à volta Ensina a ler linhas como pistas de crescimento (e de pressão imobiliária)
Construir pouco também tem custo Dependência do carro, tempo perdido e desigualdade territorial são a factura invisível Melhora o debate: comparar custos totais, não só a obra

FAQ:

  • Pergunta 1 - Essas “estações de metro no meio de lado nenhum” na China estavam mesmo vazias em 2008?
    Em muitos casos, sim: linhas novas abriam antes de existir densidade à superfície, e a procura inicial podia ser baixa durante anos.

  • Pergunta 2 - Todas essas estações estão cheias agora em 2025?
    Não. Algumas continuam subutilizadas (sobretudo onde o crescimento não aconteceu como planeado). O ponto é que uma parte relevante das que pareciam “absurdas” acabou por fazer sentido.

  • Pergunta 3 - A abordagem da China criou riscos financeiros ou desperdício?
    Criou. Construção rápida aumenta risco de dívida, excesso de capacidade e impactos sociais. A lição não é copiar, é reconhecer o trade-off entre apostar cedo e pagar depois - ou atrasar e pagar de outras formas.

  • Pergunta 4 - As cidades ocidentais podiam copiar esta estratégia directamente?
    Dificilmente, pelos processos, regras e contexto político. Mas a ideia-base é transferível: alinhar transporte, uso do solo e habitação num horizonte longo, em vez de tratar cada obra como caso isolado.

  • Pergunta 5 - O que é que isto significa para onde eu vivo?
    Quando ouvir “é ambicioso demais”, troque a pergunta: o que teria de ser verdade (densidade, licenciamento, serviços, habitação acessível) para isto funcionar - e qual é o custo de não tentar?

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário