Dozens de sapatilhas alinhadas numa mesa de plástico, atacadores atados entre si como sacos de supermercado, algumas ainda com autocolantes do tamanho por baixo da sola. As pessoas regateavam, riam, filmavam com os telemóveis. Depois, o doador viu-as. Exatamente os mesmos pares que tinha entregado ao armazém da Cruz Vermelha três semanas antes, ainda nas caixas de marca. Só que, desta vez, tinham etiquetas de preço escritas à mão. O ar à volta da banca pareceu mais pesado, como se todos soubessem, de repente, que estavam a fazer parte de algo que não cheirava bem. Algo que levantava uma pergunta que ninguém quer realmente enfrentar.
Quem é que, afinal, é dono de uma doação quando ela já saiu das tuas mãos?
Quando a caridade se cruza com o mercado de rua
O homem que filmou a cena tinha entrado no mercado só para comprar fruta. Acabou por sair de lá com as mãos a tremer e um vídeo viral. No clip, as sapatilhas que ele doou aparecem uma a uma, com a voz tensa enquanto aponta para marcas e edições limitadas que tinha cuidadosamente embalado para “pessoas que precisam mesmo”. O vendedor encolhe os ombros e diz que as comprou “baratas” a alguém que trabalha com a Cruz Vermelha. À volta, os compradores fingem não ouvir, mas os olhos voltam sempre ao mesmo sítio.
Em poucas horas, as imagens chegaram às redes sociais. Os comentários inundaram tudo, alternando entre raiva, dúvida e resignação. Uns gritavam “burla”, pedindo boicote às doações. Outros defendiam que revender pode ajudar as instituições a financiar os seus programas. O próprio homem parecia dividido, quase envergonhado. Não era alguém dado a denúncias. Era apenas alguém que, de repente, se sentiu um tolo perante a internet inteira.
A história podia ter ficado local se não se tivesse cruzado com algo que muita gente já vinha a sentir: um desconforto crescente com o destino real das doações. Nos últimos anos, surgiram relatos dispersos na Europa, em África e na América Latina: roupa de instituições a aparecer em bancas, cabazes de comida desviados, caixas de ajuda humanitária de marca empilhadas em lojas privadas. O vídeo das sapatilhas não inventou o problema. Tornou-o dolorosamente visível. Em HD, em formato vertical, partilhado um milhão de vezes.
Quando questionadas, as delegações nacionais da Cruz Vermelha respondem muitas vezes com uma frase semelhante: os bens doados podem ser revendidos em lojas solidárias ou através de parceiros para financiar projetos sociais. E, legalmente, têm razão. Assim que doas algo, entregas o controlo. O choque vem do fosso entre a imagem calorosa que os doadores têm na cabeça e a logística dura e confusa do trabalho humanitário. Na nossa mente, imaginamos um adolescente agradecido a apertar os atacadores antes da escola. A realidade, por vezes, parece-se mais com um mercado num beco às 6 da manhã.
Como as doações realmente circulam - e onde escorregam
Por detrás de cada contentor de recolha, há um tapete rolante invisível. Sacos são carregados em carrinhas, separados em armazéns, classificados por qualidade. As melhores sapatilhas podem ir para programas específicos, como apoio a abrigos para pessoas em situação de sem-abrigo ou centros de acolhimento de refugiados. Outras são encaminhadas para lojas solidárias que vendem roupa em segunda mão para manter a organização a funcionar e pagar equipas. No papel, faz parte de um ciclo sustentável. Nada se desperdiça; tudo serve algures.
As falhas aparecem nas zonas cinzentas. Um voluntário “fica” com um par de marca para um primo. Um intermediário oferece dinheiro por lotes inteiros de sapatos destinados à triagem. Um parceiro local noutro país revende as doações em vez de as distribuir gratuitamente, porque essa é a única forma de pagar a renda do edifício. Nem sempre isto se parece com uma conspiração à James Bond. Muitas vezes são pequenos atalhos, justificados como “não tem mal”, que lentamente se transformam num mercado paralelo alimentado por boas intenções.
Quando o doador reconheceu as suas sapatilhas, a parte desconfortável não foi apenas a revenda. Foi a sensação de ter sido excluído da decisão. Ele imaginava ajuda direta; o sistema, em silêncio, escolheu outro caminho. Essa desconexão alimenta suspeitas. As pessoas começam a perguntar-se se estão a financiar o “biscate” de alguém em vez da sobrevivência de alguém. E quando a dúvida se instala, as doações diminuem - e isso atinge precisamente quem mais precisa daqueles sapatos. A indignação aponta para indivíduos, mas por trás deles há um problema estrutural: raramente sabemos a viagem completa do que oferecemos.
| Ponto-chave | Detalhes | Porque importa aos leitores |
|---|---|---|
| As doações podem ser legalmente revendidas | A maioria das grandes ONG indica nos seus termos que os bens podem ser vendidos em lojas solidárias ou através de parceiros para financiar programas, em vez de serem entregues diretamente a pessoas. | Ajuda-te a ajustar expectativas: as tuas sapatilhas podem pagar a eletricidade de um abrigo em vez de irem para os pés de alguém. |
| Existem pontos de fuga ao longo da cadeia | Da triagem em armazém ao transporte e parceiros locais, cada etapa é uma oportunidade para desvio ou revenda informal se a supervisão for fraca. | Torna mais fácil perceber como é que, realisticamente, o teu par pode acabar numa banca qualquer. |
| Pede transparência antes de doares | Algumas organizações publicam auditorias, relatórios de impacto e políticas claras sobre o que acontece às doações materiais, incluindo práticas de revenda. | Dá-te critérios concretos para escolher instituições em que confias, em vez de depender apenas do nome e da reputação. |
Por mais desconfortável que soe, revender nem sempre é o vilão. Em algumas cidades, a Cruz Vermelha ou organizações semelhantes têm lojas solidárias oficiais onde roupa e calçado doados são vendidos a preços baixos. A receita financia respostas de emergência, serviços de apoio psicológico e cabazes alimentares. A linha entre uma loja solidária e uma banca de rua pode ser fina aos olhos de um doador chocado, mas a lógica por trás é radicalmente diferente. Uma é declarada, monitorizada e reinvestida. A outra vive nas sombras, alimentando pequenas economias e grande desconfiança.
Doar de forma inteligente sem desistir da solidariedade
Há um reflexo simples que podia ter poupado ao doador das sapatilhas parte da frustração. Antes de entregar vários pares, podia ter feito uma pergunta direta: “Isto vai ser oferecido, ou vendido para financiar programas?” Parece básico, quase ingénuo, e no entanto a maioria de nós nunca pergunta. Deixamos o saco, vamos embora, e preenchemos o resto da história com imaginação. Transformar essa confiança vaga numa conversa explícita muda tudo.
Para itens de alto valor - sapatilhas novas, tecnologia, casacos de luxo - alguns especialistas sugerem misturar canais. Um par pode ser doado a um abrigo que conheces pessoalmente. Outro pode ser vendido por ti online, e o dinheiro transferido para uma instituição que verificaste. Não é tão romântico como entregar uma caixa no Natal, mas devolve-te algum sentido de controlo. E torna mais fácil engolir se mais tarde vires artigos semelhantes à venda num sítio que não parece muito “caridade”.
A um nível mais prático, pesquisar organizações locais que trabalham diretamente com pessoas pode proporcionar uma experiência diferente. Equipas de apoio de rua, centros juvenis, grupos de apoio a migrantes muitas vezes sabem pelo nome quem usa o quê. As sapatilhas que levas podem ser entregues a alguém no próprio dia. Nem todas as cidades têm esse tipo de estrutura direta, e a logística pode ser confusa. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ainda assim, experimentar uma ou duas vezes pode reajustar a tua relação com o ato de dar.
Muitas ONG também aceitam doações financeiras condicionadas - dinheiro destinado a programas específicos - que pode ser mais rastreável do que um saco de roupa misturada. Talvez nunca vejas a pessoa exata que beneficia, mas podes ler relatórios, acompanhar projetos, até visitar dias abertos. É menos visual do que uma pilha de sapatilhas no corredor de casa, mas por vezes mais eficiente do que enviar toneladas de calçado para o outro lado de um continente, onde podem inundar mercados locais e destruir pequenos negócios.
“A confiança nas instituições de caridade é frágil porque está no cruzamento entre emoção e opacidade. As pessoas dão com o coração e depois descobrem um sistema que fala a linguagem de armazéns, faturas e logística”, explica um coordenador francês de logística humanitária, que pediu para permanecer anónimo.
A ressaca emocional após o vídeo das sapatilhas não é apenas sobre um par de Nikes revendidas. É sobre aquele momento estranho em que a generosidade colide com a realidade e perde alguma inocência. A nível humano, o homem que filmou sentiu-se exposto, quase ridicularizado. A nível sistémico, funcionários e voluntários da Cruz Vermelha tiveram de justificar práticas que, por vezes, mal têm tempo para explicar. Essa tensão pode endurecer as pessoas no cinismo ou abrir uma janela para conversas mais claras.
- Antes de doares: pergunta como os bens são usados e se a revenda faz parte do modelo.
- Em caso de dúvida: dá preferência a grupos locais de confiança ou a ações diretas, de pequena escala.
- Para itens caros: considera vendê-los tu e doar o dinheiro.
Indignação, confiança e o que fazemos com essa sensação desconfortável
Numa noite tranquila, ao ver o vídeo das sapatilhas pela terceira vez, aparece outra coisa por trás da raiva: uma espécie de constrangimento coletivo. Queremos que o mundo seja simples: eu dou, tu recebes, e ambos nos sentimos um pouco melhor. A visão das sapatilhas numa banca rasga esse postal ao meio. Obriga-nos a ver a caridade como um ecossistema com fraquezas humanas, e não como um canal limpo e mágico do “coração” para a “necessidade”.
Num plano mais profundo, esta história traça uma linha entre propriedade e intenção. Assim que os sapatos saem de tua casa, deixam de ser teus. Mas, emocionalmente, continuas ligado ao que eles representam. É aí que acontece o choque. A Cruz Vermelha pode, legalmente, fazer o que quiser dentro das suas regras internas. O doador sente-se traído num plano simbólico. Ambas as verdades coexistem, e ignorar qualquer uma delas só alimenta ressentimento. Num ecrã de telemóvel, essas nuances encolhem para meia dúzia de comentários furiosos e hashtags em tendência.
Todos já tivemos aquele momento em que nos perguntamos se o que damos chega mesmo onde esperamos. Uns afastam-se e deixam de doar. Outros ultrapassam o desconforto e escolhem confiar no sistema porque a alternativa parece pior. Há ainda um terceiro caminho, menos visível mas mais interessante: fazer perguntas incómodas, apoiar esforços de transparência e aceitar que a solidariedade no século XXI nunca será perfeitamente limpa. Será emaranhada, falível e, por vezes, feia na câmara.
As sapatilhas naquela banca não voltarão para dentro das caixas. A história delas já saiu cá para fora, e não vai ser resolvida de forma arrumada com um comunicado ou um pedido de desculpas. Talvez isso não seja assim tão mau. Histórias como esta arranham o nosso conforto e obrigam-nos a renegociar o acordo entre cidadãos e grandes organizações. Se deixarmos o desconforto respirar em vez de passar à frente com o scroll, talvez leve a algo discretamente radical: uma forma de doar mais adulta, menos cega e, estranhamente, ainda mais humana.
FAQ
A Cruz Vermelha pode revender sapatilhas doadas? Em muitos países, as sociedades nacionais da Cruz Vermelha indicam claramente que as doações materiais podem ser revendidas através de lojas solidárias ou parceiros para financiar as suas atividades. Legalmente, após a doação, a propriedade passa para a organização, que pode então decidir como usar ou monetizar o bem dentro das suas regras.
Como posso saber se a minha doação será entregue diretamente a pessoas em necessidade? Podes pedir à delegação local ou à instituição que descreva o processo de distribuição em linguagem simples. Uma organização transparente deve conseguir dizer-te que percentagem vai para ajuda direta, que parte vai para revenda e se trabalham com parceiros externos ou lojas solidárias.
Qual é a melhor forma de doar sapatilhas ou roupa valiosas? Para itens novos ou de gama alta, muitos especialistas recomendam uma combinação: doar alguns diretamente a abrigos ou programas juvenis que conheças e vender outros por tua conta, enviando o dinheiro para uma instituição credível. Assim, tens mais visibilidade sobre onde o valor realmente acaba.
Revender doações significa sempre corrupção? Não. Lojas solidárias oficiais e programas estruturados de revenda podem ser uma ferramenta legítima de angariação de fundos, especialmente para grandes ONG que precisam de receita estável. O problema começa quando não há comunicação clara, não há supervisão, ou quando funcionários e intermediários lucram pessoalmente com o que era destinado ao trabalho humanitário.
Como posso verificar se uma instituição é transparente sobre as suas doações? Procura relatórios anuais públicos, auditorias independentes e páginas detalhadas a explicar o que acontece aos bens doados. Podes também pesquisar investigações na imprensa, avaliações de entidades de monitorização e opiniões de voluntários locais, que muitas vezes sabem como as coisas funcionam para lá dos folhetos oficiais.
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