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Efeitos secundários da quimioterapia: molécula francesa promissora pode tratar neuropatia periférica, que afeta cerca de 90% dos doentes.

Paciente sentado numa cama de hospital, com enfermeiros ao fundo e frasco de remédio na mesa ao lado.

Alfinetes e agulhas, pés a arder, noites sem dormir: para muitos doentes com cancro, o fim da quimioterapia não significa o fim da dor.

Em toda a Europa e nos Estados Unidos, os oncologistas enfrentam uma epidemia silenciosa de lesões nervosas desencadeadas por tratamentos que salvam vidas. Uma equipa de investigação liderada por franceses afirma agora que uma nova molécula poderá mudar a forma como os médicos encaram um dos efeitos secundários mais persistentes da quimioterapia.

Quando o tratamento deixa uma marca duradoura nos nervos

A neuropatia periférica é o termo clínico para os danos nos nervos fora do cérebro e da medula espinal. Em pessoas a fazer quimioterapia, começa muitas vezes com um formigueiro subtil nos dedos das mãos ou dos pés. Depois surgem sensações de ardor, dor tipo choque elétrico, ou uma preocupante perda de sensibilidade.

Nos regimes modernos de tratamento do cancro, isto não é raro. Para alguns fármacos amplamente utilizados, até 90% dos doentes apresentam alguma forma de neuropatia periférica induzida pela quimioterapia (NPIQ). Em casos graves, caminhar torna-se difícil, apertar botões é um desafio, e até um lençol leve pode ser insuportável.

Em cerca de um em cada quatro doentes, a lesão nervosa persiste meses ou anos após a última perfusão, muito depois de o cabelo voltar a crescer.

Estes sintomas persistentes funcionam como um lembrete constante da doença passada. Os doentes podem ser declarados livres de cancro, mas as mãos e os pés continuam a repetir a história. Muitos descrevem uma sensação de “não ter o direito de esquecer”, mesmo quando os exames não mostram qualquer vestígio da doença.

Porque é que os oncologistas são obrigados a reduzir as doses

A neuropatia periférica cria um verdadeiro dilema nas clínicas. Os fármacos mais eficazes contra o cancro podem ser também os mais tóxicos para os nervos. Quando a dor e a perda de sensibilidade aumentam, os médicos muitas vezes não têm alternativa senão reduzir a dose de quimioterapia ou adiar ciclos.

Essa moderação protege os nervos, mas também pode limitar o impacto do tratamento no tumor. A tensão é evidente: manter uma estratégia agressiva contra as células cancerígenas ou preservar a qualidade de vida a longo prazo do doente.

As ferramentas atuais para prevenir lesões nervosas são rudimentares. Luvas e meias de arrefecimento, usadas durante as perfusões, procuram reduzir o fluxo sanguíneo e limitar a quantidade de fármaco que chega aos nervos periféricos. Muitos doentes consideram-nas desconfortáveis ou mesmo dolorosas, e a evidência do seu benefício continua a ser mista.

Quanto à medicação, os médicos recorrem sobretudo a analgésicos adaptados de outras condições de dor crónica. Incluem antidepressivos e fármacos antiepiléticos. Podem atenuar os sintomas em algumas pessoas, mas o efeito é frequentemente modesto e trazem os seus próprios efeitos secundários.

Continua a não existir um tratamento preventivo amplamente aceite que proteja diretamente os nervos enquanto a quimioterapia decorre.

Uma molécula francesa entra em destaque

Neste contexto, cientistas em França, a trabalhar de perto com colegas nos Estados Unidos, identificaram uma nova esperança: uma pequena molécula conhecida como Carba1. A investigação, publicada recentemente na revista Science Advances, sugere que a Carba1 pode proteger os neurónios dos efeitos tóxicos da quimioterapia.

A Carba1 pertence a uma família química chamada carbazóis. Estas estruturas, desenvolvidas no Centro de Investigação em Medicina da Normandia (CERMN), foram aperfeiçoadas ao longo de mais de uma década de colaboração entre químicos e biólogos.

Em modelos laboratoriais, a Carba1 parece atuar em mecanismos dentro das células nervosas que são perturbados pelos fármacos de quimioterapia. Ao estabilizar estes processos, a molécula reduz os danos que normalmente conduzem a dor, formigueiro e perda de sensibilidade.

Os primeiros dados sugerem um benefício duplo: proteção dos nervos combinada com uma atividade anticancro mais forte para certos tratamentos.

Este último ponto é crucial. Qualquer agente usado em simultâneo com a quimioterapia não pode diminuir a sua potência contra os tumores. A equipa liderada por franceses relata que, para alguns fármacos, a Carba1 até aumenta a capacidade de destruir células cancerígenas, ao mesmo tempo que preserva os neurónios. É exatamente esta combinação que os clínicos têm procurado.

Como poderá a Carba1 mudar os cuidados aos doentes?

Por enquanto, a Carba1 continua numa fase experimental, testada em células e modelos animais, e não na prática clínica de rotina. Ainda assim, os investigadores já pensam em cenários reais em que uma molécula deste tipo poderia ser utilizada:

  • Administrada antes e durante os ciclos de quimioterapia para prevenir lesões nervosas
  • Combinada com fármacos específicos conhecidos por terem elevado risco de neuropatia
  • Ajustada na dose consoante a vulnerabilidade e os sintomas de cada doente
  • Possivelmente mantida por um curto período após o tratamento para cobrir a fase de risco

Se futuros ensaios clínicos confirmarem segurança e eficácia, a Carba1 ou compostos semelhantes poderão permitir aos oncologistas manter os doentes nas doses oncológicas ideais sem os empurrar para dor incapacitante. Esta mudança seria particularmente significativa para doentes mais jovens ou para aqueles que se espera que vivam muitos anos após o tratamento.

Da bancada de química à enfermaria do hospital

Transformar uma molécula promissora num medicamento é um processo longo. A Carba1 terá de ser extensivamente testada quanto à toxicidade, interação com outros fármacos e impacto em diferentes tipos de tratamentos oncológicos, como sais de platina, taxanos ou terapias-alvo.

Os investigadores também terão de perceber quais os doentes que mais poderão beneficiar. Algumas pessoas podem ter predisposição genética para neuropatia ou condições nervosas pré-existentes, como diabetes. Nestes grupos, estratégias de proteção podem ser particularmente valiosas.

Pergunta Situação atual O que a investigação com Carba1 pretende
Prevenção da neuropatia Não existe fármaco preventivo comprovado Proteger os nervos durante a quimioterapia
Controlo do cancro Por vezes as doses são reduzidas devido à dor Manter ou aumentar a intensidade do tratamento
Qualidade de vida a longo prazo Dor persistente em muitos sobreviventes Menos sintomas crónicos após o tratamento

O que a neuropatia periférica se sente no dia a dia

As estatísticas contam apenas parte da história. Na realidade, a neuropatia induzida pela quimioterapia transforma rotinas quotidianas. Muitos doentes descobrem que já não conseguem sentir os pedais ao conduzir ou segurar com segurança uma chávena de chá quente. Uma simples caminhada até às lojas pode tornar-se um risco calculado devido ao desequilíbrio.

O sono frequentemente piora. A dor tende a intensificar-se à noite, quando há menos distrações. Algumas pessoas descrevem uma situação paradoxal: sobreviveram ao cancro, mas têm dificuldade em regressar ao trabalho ou à vida social porque os pés parecem como se estivessem a “andar sobre vidro partido”.

Ao atacar a lesão nervosa cedo, futuros tratamentos poderiam evitar esta incapacidade invisível que acompanha a sobrevivência ao cancro.

Termos e mecanismos que vale a pena compreender

Várias expressões técnicas surgem neste tema e podem soar intimidantes. Algumas são centrais para perceber o que está em jogo:

  • Neuropatia periférica: lesão dos nervos nos braços, pernas, mãos e pés, levando a dor, dormência ou fraqueza.
  • Neurónios: células especializadas que transmitem sinais elétricos; na NPIQ, os neurónios sensoriais são particularmente afetados.
  • Carbazóis: grupo de compostos orgânicos que serve de estrutura base para muitos fármacos experimentais, incluindo a Carba1.
  • Neuroproteção: estratégias destinadas a preservar a função nervosa perante processos tóxicos ou degenerativos.

Do ponto de vista biológico, muitos fármacos de quimioterapia prejudicam os nervos ao perturbar estruturas minúsculas dentro das células, como os microtúbulos, ou ao gerar stress oxidativo. A Carba1 parece atuar em algumas destas vias, ajudando os neurónios a resistir ao ataque químico que mata as células cancerígenas.

Riscos, expectativas e cenários realistas

Mesmo com dados promissores, qualquer nova molécula comporta riscos. A Carba1 terá de demonstrar que não protege células cancerígenas tanto quanto protege os nervos, e que não desencadeia efeitos indesejáveis noutros órgãos. As entidades reguladoras também irão escrutinar interações com tratamentos existentes, incluindo imunoterapias e hormonoterapias.

Se futuros ensaios correrem bem, os doentes poderão um dia receber um pacote de cuidados de suporte adaptado ao seu regime: dispositivos de arrefecimento para quem os tolera, fisioterapia para manter o equilíbrio e um fármaco como a Carba1 para proteger as fibras nervosas. Nesse cenário, uma mulher a fazer quimioterapia adjuvante para cancro da mama poderia continuar a caminhar a sua distância diária habitual sem dor incapacitante, enquanto recebe a dose completa recomendada do medicamento.

Por agora, a Carba1 continua a ser uma promessa de laboratório. Ainda assim, sinaliza uma mudança mais ampla na oncologia: tratar o cancro já não é apenas reduzir tumores, mas também prevenir as cicatrizes que os tratamentos podem deixar no sistema nervoso.

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