Sabes aquele amigo cujo nome aparece no teu telemóvel e os teus ombros ficam tensos antes mesmo de atenderes? Aquele que está sempre em crise, em conflito, com um novo drama em repetição. Tu gostas dele, mas às vezes desligas a chamada a sentir que alguém te desligou as pilhas e ainda as bebeu com uma palhinha. O peito fica pesado, o maxilar apertado, o cérebro a zumbir com problemas que nem sequer são teus.
Disseste a ti próprio que ias “estar lá para as pessoas”. Algures pelo caminho, estar lá passou a significar absorver tudo como papel de cozinha emocional.
Há outra forma de ouvir.
E começa com o que acontece dentro de ti nos primeiros 10 segundos.
Porque é que o stress dos outros se cola a ti
Há pessoas que conseguem ouvir um colega a desabafar durante meia hora e depois voltar calmamente ao café. Outras absorvem cada suspiro como um aspirador e levam aquilo para casa. Se estás na segunda categoria, é provável que tenhas aprendido cedo que ser “o bom ouvinte” era o teu papel. Com o tempo, o teu sistema nervoso treinou-se para tratar o stress dos outros como um alarme ao qual tens de responder.
O teu corpo não sabe que isto não é uma situação de vida ou de morte tua. Só sente intensidade e passa para modo de alerta.
Imagina isto. São 9:17, mal abriste o portátil, e um colega aparece nas tuas mensagens: “Tens um minuto? Estou a perder a cabeça.” Cinco minutos depois, estás até ao pescoço no caos do trabalho dele, no humor do chefe dele, no medo dele de ser despedido. Às 9:32, o teu coração bate mais depressa, os ombros estão levantados até às orelhas, e já vais atrasado nas tuas próprias tarefas.
Na realidade, não te aconteceu nada. E, no entanto, o teu corpo está a agir como se tivesses recebido o mesmo email agressivo.
O que se passa é biologia simples. O nosso cérebro tem sistemas-espelho que reproduzem o que vemos e ouvimos nos outros. Isso mantém-nos ligados e compassivos, mas sem treino transforma-nos em esponjas emocionais. Quanto mais vividamente alguém descreve o seu stress, mais o teu sistema nervoso o “copia”.
Ouvir sem limites é como trabalhar num escritório em open space sem auscultadores com cancelamento de ruído. O barulho não é teu, mas acabas na mesma com a dor de cabeça.
Como ouvir com os ouvidos, não com o sistema nervoso
Começa pelo teu corpo antes de dizeres uma única palavra. Quando alguém se lança numa história stressante, sente discretamente os pés no chão ou o peso das pernas na cadeira. Deixa os ombros descerem um nível. Expira um pouco mais tempo do que inspiras.
Este pequeno reajuste diz ao teu sistema nervoso: “Estás seguro. Tu não estás nesta história, só a estás a ouvir.” Estás a traçar uma linha fina e invisível entre o mundo deles e o teu.
A maioria de nós faz o contrário. Assim que a pessoa começa a falar depressa, inclinamo-nos para a frente, prendemos a respiração, olhos bem abertos, a combinar a nossa tensão com a dela. Achamos que isso é empatia. Na verdade, é fusão. É aí que começas a resolver os problemas dela na tua cabeça, a ensaiar respostas, a prometer coisas que não consegues cumprir.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem pagar um preço. Se notas que sais das conversas esgotado, não é porque és “demasiado sensível”. É porque estás a fazer horas extraordinárias emocionais.
“Podes importar-te profundamente sem carregar tudo”, disse-me uma psicóloga uma vez. O trabalho é ser testemunha, não ser um recipiente.
- Faz uma pausa no corpo primeiro: baixa os ombros, expira devagar, sente os pés.
- Usa frases simples e estáveis: “Estou a ouvir-te”, “Isso parece mesmo difícil”, em vez de saltares logo para soluções.
- Imagina um painel de vidro invisível: vês e ouves a pessoa, mas o stress dela bate no vidro, não no teu peito.
- Repara quando a tua mente começa a planear soluções; volta com suavidade para o ouvir.
- Termina a troca com um pequeno ritual: um alongamento, um gole de água, um minuto a olhar pela janela, para repor o teu sistema.
Proteger a tua energia sem fechares o coração
Há uma competência silenciosa em manteres-te aberto sem te afundares. Não se trata de ficares frio, distante ou “acima de tudo”. Trata-se de escolheres o que entra no teu espaço interior. Quando alguém descarrega em cima de ti, podes ser gentil e presente enquanto dizes em silêncio a ti próprio: “Isto pertence-lhe. Eu posso estar ao lado dela, mas não tenho de estar dentro disto.”
Essa frase interior muda tudo na forma como o teu corpo reage.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Enraíza-te no corpo | Usa a respiração, a postura e a consciência do contacto com o chão ou a cadeira enquanto ouves. | Reduz o contágio emocional e impede que os teus níveis de stress disparem. |
| Separar cuidar de “resolver” | Foca-te na presença e validação em vez de soluções imediatas ou envolvimento excessivo. | Permite apoiar os outros sem entrares em burnout ou prometeres mais do que podes cumprir. |
| Repor após cada troca | Cria pequenos rituais para “enxaguar” conversas: movimento, água ou uma pequena pausa. | Evita stress acumulado e preserva a energia ao longo do dia. |
FAQ:
- Pergunta 1 Como deixo de me sentir culpado quando não absorvo os problemas de toda a gente?
- Pergunta 2 O que posso dizer quando alguém começa a despejar trauma e eu me sinto sobrecarregado?
- Pergunta 3 É normal sentir-me fisicamente cansado depois de conversas pesadas?
- Pergunta 4 Limites podem estragar as minhas relações ou fazer-me parecer egoísta?
- Pergunta 5 Qual é um pequeno hábito que posso começar hoje para ouvir de forma diferente?
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