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Durante milénios, o deserto de Taklamakan foi evitado pelos humanos. Hoje, a China pratica piscicultura nessa região.

Homem a pescar em viveiro no deserto, com vários peixes na rede e dunas ao fundo.

O sol atinge o Taklamakan como um martelo. Da orla das dunas, o horizonte é um borrão trémulo de bege e branco, onde caravanas outrora desapareceram e nunca voltaram. Durante séculos, os mercadores contornaram este lugar, arrastando os seus camelos ao longo de oásis estreitos nas margens, sussurrando o mesmo aviso: “Dá a volta, ou morres lá dentro.”

Hoje, uma carrinha pickup branca salta por uma nova pista de betão, passando por filas de tubos metálicos e tanques de plástico azul que brilham como pequenos lagos. Um trabalhador de boné desbotado inclina-se sobre a água e atira um punhado de ração. A superfície explode em relâmpagos prateados. Peixes. No Deserto do Taklamakan.

O velho medo não desapareceu por completo. Apenas veste agora botas de borracha e um capacete.

De terra morta a tanques de peixes: o deserto que mudou de profissão

Durante milénios, o Taklamakan foi um ponto em branco nos mapas, uma lenda de que se falava, mas que se evitava atravessar. O próprio nome, numa das versões, diz-se que significa “entras e não sais”. Tempestades de areia engoliam caravanas inteiras. Ossos desapareciam em dunas que se movem como ondas lentas.

Agora, em algumas dessas mesmas areias, tanques quadrados recortam formas geométricas no vazio. Em imagens de satélite, parecem uma placa de circuito gigante largada no chão do deserto. No terreno, sente-se o cheiro de terra húmida e algas, em vez de apenas pó. O contraste é quase absurdo.

Um projeto-piloto fica perto da orla sul do Taklamakan, não muito longe de uma autoestrada que não existia há uma geração. Engenheiros escavaram uma grelha de bacias pouco profundas, forraram-nas com membranas plásticas e encheram-nas com água subterrânea bombeada e água de rio desviada.

Lá dentro, tilápias e bagres esgueiram-se pela água esverdeada, criados sob horários rigorosos de alimentação e arejamento. Habitantes locais que antes pastoreavam ovelhas em pastagens marginais agora caminham entre tanques com smartphones, registando taxas de crescimento. Um homem na casa dos cinquenta brinca que antes temia as tempestades de areia; agora teme os cortes de eletricidade que param as bombas.

O impulso chinês para a “engenharia ecológica” no Taklamakan não é um capricho lateral. Faz parte de uma tentativa mais ampla de extrair produtividade de terras “não utilizadas”, ao mesmo tempo que se estabilizam ecossistemas frágeis. Ao plantar cortinas de abrigo de arbustos tolerantes ao sal e ao construir pequenos reservatórios, os planeadores afirmam conseguir ancorar dunas e criar microclimas suficientemente frescos para a aquicultura.

A lógica é simples, quase brutal: se conseguires controlar a água e o vento, consegues reescrever as regras sobre onde a vida é autorizada a existir. A piscicultura torna-se, ao mesmo tempo, um teste e um símbolo. Diz: a velha fronteira entre o habitável e o inabitável já não é sagrada.

Como se criam peixes onde quase nunca chove?

Nada no Taklamakan é fácil - e a água, menos do que tudo. A estratégia começa muito abaixo do solo, onde aquíferos fósseis e água de degelo das montanhas circundantes são captados e depois empurrados por longos canais e tubos enterrados. Cada litro é vigiado como ouro.

Nos tanques, os gestores usam sistemas de circuito fechado: a água passa por biofiltros e armadilhas de sedimentos e depois volta a circular, perdendo o mínimo possível por evaporação. Redes de sombra e corta-ventos estendem-se como velas escuras, tentando manter o sol e a areia fora da superfície. O deserto, desta vez, não bebe primeiro.

Os engenheiros falam muito em “adequar o peixe à dureza”. Escolhem espécies que aguentam salinidade mais elevada e oscilações de temperatura, como a tilápia ou certas carpas. As densidades de povoamento são calculadas ao quilograma, porque uma onda de calor ou uma tempestade de areia pode alterar os níveis de oxigénio em minutos.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que um projeto parece bonito no papel e depois o caos entra sem convite. Aqui fora, o caos tem um nome: vento. A areia fina entope filtros, risca os revestimentos plásticos e pode sufocar tanques pouco profundos se o dique de proteção não for suficientemente alto. As pessoas no local contam histórias de acordar e encontrar bombas cheias de grão, peixes a ofegar.

Formadores locais dedicam agora tempo ao que chamam “instinto do deserto” para piscicultores. Isso significa ler o céu, sentir a mudança do vento na pele, observar a cor da água tão de perto quanto os números num ecrã.

Um técnico veterano resume tudo numa única frase, simples e verdadeira: “A tecnologia é ótima, até a areia se lembrar de que estava aqui primeiro.”

Só está a brincar a meio. Por baixo das folhas de cálculo, há uma improvisação diária que não aparece nos relatórios. Remendam-se tubos com o que houver. Mudam-se sacos de ração antes de a rajada chegar. Aprende-se a ouvir um tanque como os pastores ouviam os seus rebanhos.

O lado humano: de pastores do deserto a pescadores do deserto

Nas margens do Taklamakan, os ritmos das aldeias começam a dobrar-se em torno dos novos tanques. As manhãs cedo costumavam significar levar os animais para raras manchas de relva. Agora podem significar testar a qualidade da água com uma tira descartável e depois percorrer um grupo de WeChat onde técnicos partilham capturas de ecrã com níveis de oxigénio.

A mudança não é apenas técnica; é emocional. Alguns residentes mais velhos admitem que, ao início, se sentiram culpados, como se estivessem a trair uma identidade do deserto. Pastoreio, caravanas, tâmaras, melões - essas eram as histórias tradicionais. Peixe parecia quase… importado de outro mundo.

Ouve-se a hesitação em pequenos detalhes. Uma avó que visita a piscicultura do filho mantém-se um pouco afastada da água, como se ela pudesse desaparecer. Lembra-se de anos em que os poços secaram, em que as crianças caminhavam quilómetros por baldes de água barrenta. A pergunta dela é simples e cortante: esta água vai durar?

Sejamos honestos: ninguém consulta relatórios de sustentabilidade todos os dias. As pessoas verificam as torneiras, os campos, os saldos bancários. Essa é a tensão silenciosa por baixo de muitos destes projetos. A aquicultura traz novo rendimento, novos empregos, novo orgulho. Mas também assenta fortemente em aquíferos e desvios de rios que as alterações climáticas estão a reorganizar de forma lenta e imprevisível.

Nas conversas ao longo da borda do deserto, ouve-se tanto esperança como inquietação. Um jovem trabalhador, que deixou um emprego numa fábrica costeira para voltar para casa, diz assim:

“Antes enviávamos os nossos rapazes para longe, para o mar, para trabalharem no peixe dos outros. Agora o mar está aqui, na nossa areia. Isso dá força. Mas, se as bombas pararem, o mar vai-se embora outra vez.”

Para navegar esse equilíbrio frágil, cooperativas locais partilham algumas lições duramente conquistadas:

  • Começar pequeno: testar um ou dois tanques antes de expandir para o sustento de uma aldeia inteira.
  • Rodar: deixar alguns tanques em pousio para reduzir doenças e pressão sobre a água.
  • Diversificar: combinar peixe com culturas do deserto ou painéis solares, não apenas peixe.
  • Formar amplamente: não deixar que apenas um ou dois “especialistas” detenham todo o conhecimento.
  • Fazer as perguntas incómodas: de onde vem realmente a água - e quem a perde?

Essas perguntas não matam o sonho. Mantêm-no honesto.

Um deserto que reflete as nossas próprias contradições

De pé entre uma bomba ruidosa e uma duna que está aqui há mais tempo do que qualquer país, o Taklamakan parece um espelho. De um lado: ambição, engenharia, a crença de que nenhum lugar está fora de limites. Do outro: uma paisagem capaz de enterrar betão em poucas estações e que não quer saber de planos quinquenais.

A piscicultura aqui não é apenas uma manchete curiosa sobre “peixe no deserto”. É uma experiência ao vivo sobre até onde estamos dispostos a ir para alimentar populações em crescimento, para reivindicar terra “desperdiçada”, para obrigar ecossistemas a aprender novos truques.

Alguns visitantes olham para os tanques e veem quadrados azuis milagrosos contra a areia. Outros veem um sinal de aviso, um lembrete de como facilmente normalizamos o uso de água subterrânea antiga para ganhos de curto prazo. Ambas as reações podem ser verdade ao mesmo tempo.

O Taklamakan não oferece uma moral arrumadinha. Oferece uma pergunta: como vivemos com paisagens que nos resistem, sem transformar cada resistência num problema a arrasar? Da próxima vez que passares por uma imagem espetacular de drone de tanques de peixes no deserto, talvez valha a pena parar mais um segundo. Por trás dessa superfície a cintilar está uma história muito humana de risco, necessidade, engenho e dúvida - tudo a nadar junto na mesma água frágil.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A aquicultura no deserto depende de controlo extremo da água Tanques em circuito fechado, água subterrânea profunda e água de degelo são geridas com bombas, tubagens e sistemas de sombreamento Ajuda os leitores a perceber como a tecnologia pode esticar os limites de onde se produz alimento
As comunidades locais estão a mudar competências e identidade Pastores e migrantes laborais requalificam-se como piscicultores com ferramentas digitais e apoio técnico Mostra como o clima e a inovação remodelam vidas reais e escolhas de trabalho
Os riscos ambientais existem por baixo das histórias de sucesso Pressão sobre aquíferos, tempestades de areia e incerteza climática assombram a viabilidade a longo prazo Convida a uma visão mais crítica e matizada de mega-projetos “verdes”

FAQ:

  • É mesmo possível criar peixe num lugar tão seco como o Taklamakan? Sim, através de tanques artificiais, bacias forradas e sistemas de reciclagem de água que dependem de água subterrânea bombeada e de água superficial desviada.
  • Que tipos de peixe são criados nestas explorações no deserto? Principalmente espécies resistentes como a tilápia, certas carpas e, por vezes, bagre, escolhidas pela tolerância ao calor e à salinidade variável.
  • Isto ajuda a impedir que o deserto se expanda? Os próprios tanques não travam a desertificação, mas as faixas arborizadas associadas, a irrigação e a estabilização do solo podem abrandar o movimento das dunas em áreas específicas.
  • Estes projetos são ambientalmente sustentáveis?

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