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Deve eliminar as lesmas do seu jardim?

Pessoa de luvas cuidando de plantas em horta, segurando vaso pequeno, com lavanda e alfaces ao fundo.

Para muitos jardineiros caseiros, as lesmas ficam entre vilãs da horta e “vizinhas” úteis. Com invernos mais amenos e primaveras húmidas (comuns em várias zonas de Portugal, sobretudo no Norte e litoral), vale a pena pensar menos em erradicar e mais em controlar - sem perder o equilíbrio do jardim.

Lesmas: a vilã da horta

Numa horta, as lesmas atacam exatamente o que é mais valioso: plântulas, folhas tenras (alface, espinafre), morangos e partes subterrâneas jovens (cenoura, batata, rabanete). Uma noite húmida pode arrasar uma sementeira inteira - muitas vezes antes de a planta ganhar “força” para recuperar.

Para quem produz alimentos, populações de lesmas sem controlo podem comprometer colheitas - e obrigar a replantar, perdendo tempo e janela de cultivo.

Sim, as lesmas também comem detritos e ajudam na decomposição. Mas, quando estão a roer culturas vivas, o problema não é a falta de “limpadores” no solo: é a pressão demasiado alta num momento crítico. A decisão prática costuma ser esta: tolerância no geral, proteção firme na fase jovem das culturas.

Porque é que as lesmas prosperam nos jardins modernos

Muitas boas práticas de jardinagem criam, sem querer, o “habitat perfeito” para lesmas: humidade constante, abrigo e comida macia. Cobertura morta espessa, canteiros ricos em composto, plantações densas e invernos amenos favorecem a sobrevivência e a postura.

  • Coberturas orgânicas espessas mantêm sombra e humidade (refúgio diurno).
  • Rega frequente (sobretudo ao fim da tarde/noite) deixa o solo húmido quando elas estão ativas.
  • Invernos mais quentes reduzem a mortalidade e adiantam atividade na primavera.
  • Menos sebes, folhas no chão e micro-habitats para predadores significa menos controlo natural.

Regra simples que costuma ajudar: manter a humidade “útil” para as plantas, mas evitar noites com solo encharcado. Quando possível, regue de manhã para a superfície secar até ao anoitecer - não resolve tudo, mas reduz picos de ataque.

Trabalhar o solo: uma tática controversa, mas eficaz

Uma mobilização superficial (ancinho leve, “riscar” 1–3 cm) pode reduzir ovos e juvenis ao expô-los a ar seco e predadores. Não é escavar fundo: é quebrar a crosta e perturbar o abrigo.

O timing pesa mais do que a força. Muitas espécies põem ovos em períodos frescos e húmidos, frequentemente do fim do inverno à primavera e novamente no fim do verão/início do outono. Uma passagem leve nesses intervalos (quando o solo não está encharcado) pode cortar o ciclo, sobretudo em canteiros de sementeira.

Mobilizações superficiais, feitas nos momentos certos, tendem a reduzir a próxima vaga de danos sem “virar” o solo inteiro.

Para quem segue no-dig, uma abordagem mista costuma ser mais realista: manter a cobertura na maioria do canteiro, mas abrir e arejar a superfície apenas onde há plântulas (a zona mais sensível).

Armadilhas, truques e a ética de matar lesmas

A estratégia mais consistente continua a ser simples: “dar-lhes um sítio” e depois agir com rotina. Tábuas de madeira (ou telhas) criam um abrigo fresco onde as lesmas se concentram de dia. Levante de manhã cedo e decide: deslocar para uma zona menos crítica ou eliminar.

As tábuas transformam uma caça aleatória numa inspeção rápida, sempre no mesmo ponto.

Alguns métodos clássicos têm custos escondidos:

  • Cinza: funciona pouco tempo, falha com chuva e, em excesso, pode desequilibrar o solo (e incentivar aplicações repetidas).
  • Armadilhas de cerveja: atraem lesmas, mas também podem matar carábidos e outros predadores úteis (perde-se controlo “de fundo”).
  • Sal: mata, mas também saliniza o solo e danifica plantas - raramente compensa numa horta.

Um erro comum é atacar só “quando se vê dano”. Muitas lesmas alimentam-se de noite; se for fazer apanha manual, o melhor é 1–2 horas após o pôr do sol em noites húmidas (lanterna e luvas), focando plântulas e bordas de canteiros.

Lesmas como “limpadoras” e engenheiras do solo

Nem todas as lesmas estão à procura das suas alfaces. Muitas alimentam-se de matéria em decomposição, algas e fungos em restos vegetais. Ao fragmentarem detritos e circularem pelo canteiro, contribuem para a reciclagem de nutrientes - especialmente onde há folhas caídas, fruta danificada e material morto.

Em muitos jardins, parte do “trabalho” das lesmas é limpar o que já está a degradar-se - o problema surge quando a pressão passa para tecido vivo e jovem.

Por isso, eliminar todas as lesmas nem sempre melhora o jardim: pode reduzir um grupo que participa na decomposição, sem resolver a causa do desequilíbrio (humidade constante + poucos predadores + muitas plântulas desprotegidas).

Porque é que as lesmas preferem plântulas a plantas maduras

Na prática, o padrão é claro: plântulas e rebentos novos sofrem mais; plantas mais velhas aguentam melhor. Isso costuma acontecer porque tecidos jovens têm mais água e nutrientes, menos fibras e, muitas vezes, menos defesas químicas e estrutura - são mais fáceis de raspar e digerir.

Os ataques de lesmas concentram-se numa janela curta: da germinação até a planta ganhar massa e “caule”.

Isto abre uma estratégia muito concreta: proteger bem durante 2–4 semanas (dependendo da cultura e do tempo). Depois, a mesma planta costuma tolerar mordidelas ocasionais sem perder a produção.

Como viver com as lesmas em vez de lutar contra elas

Gerir é combinar 2–3 medidas simples, consistentes, nas semanas críticas: abrigo controlado (tábuas), humidade bem gerida (rega de manhã) e proteção direcionada (plântulas). Em vez de “guerra total”, o objetivo é baixar o dano abaixo do nível que obriga a replantar.

Alimentar as lesmas para que comam menos das suas culturas

A ideia não é criar uma praga, é diluir a pressão. Quando há apenas “ilhas” de culturas tenras (ex.: alfaces espaçadas), as lesmas concentram-se nelas. Com mais folhas jovens disponíveis, o ataque tende a espalhar-se - e as suas culturas principais podem passar a fase crítica com menos perdas.

Na prática, “verdejar” a horta no fim do inverno/início da primavera pode ajudar, usando sementeiras rápidas e densas:

  • Alfaces de corte e rebrote em linhas densas.
  • Rabanetes e nabos entre culturas mais lentas.
  • Mostardas suaves e rúcula como cobertura viva junto de saladas mais lentas.

Atenção ao limite: se já tem danos severos, isto funciona melhor combinado com tábuas e proteção das plântulas (ex.: campânulas, garrafões cortados, ou colares à volta do caule em plantação).

Desenhar canteiros que partilham o dano

Monocultura em linhas claras é “buffet fácil”. Mistura de espécies e densidade moderada tendem a reduzir o impacto visível e o risco de perder uma sementeira inteira.

Estilo de canteiro Impacto das lesmas Notas
Linhas de uma só cultura Alto risco Um ataque pode eliminar uma sementeira inteira.
Linhas mistas Risco moderado Os danos distribuem-se por várias espécies.
Policulura densa Menor risco visível Há perdas, mas raramente são totais numa só cultura.

Detalhe que faz diferença: mantenha a cobertura morta recuada 5–10 cm à volta de plântulas e caules jovens. O mulch pode ficar no canteiro, mas não colado ao “colo” da planta (onde a lesma chega sem se expor).

Quando as “iscas orgânicas para lesmas” fazem sentido - e quando não

Iscas à base de fosfato férrico são, em geral, a opção mais usada quando se quer algo eficaz sem recorrer a produtos mais agressivos. Ainda assim, devem ser tratadas como ferramenta pontual, não como rotina: a longo prazo, o jardim continua a precisar de predadores e de gestão de humidade/abrigo.

Fazem mais sentido quando:

  • há falhas repetidas na mesma cultura (sobretudo plântulas);
  • ocorre uma “explosão” após semanas muito húmidas ou um inverno invulgarmente ameno;
  • precisa de salvar uma janela de sementeira curta.

Use com contenção: aplique só onde interessa (à volta de plântulas e linhas novas), siga o rótulo e evite espalhar pelo jardim todo. Como em qualquer isco, guarde fora do alcance de crianças e animais e evite aplicação junto de linhas de água.

Jardins ornamentais: escolher plantas que as lesmas não adoram

Em ornamentais, muitas vezes a solução mais simples é escolher melhor. Se uma perene é atacada todos os anos, insistir pode significar controlo constante.

Hostas e delfínios são frequentemente muito apetecíveis em jardins húmidos. Alternativas que, em muitos casos, sofrem menos incluem gerânios rústicos, muitas fetas, gramíneas e várias aromáticas. Isto não “acaba” com as lesmas - mas reduz os conflitos e mantém o seu papel na decomposição de material vegetal no canteiro.

Repensar “praga” num clima em mudança

Com mais extremos de humidade e temperaturas, as lesmas podem ganhar vantagem - e os predadores perder habitat. Em vez de depender só de armadilhas, há ganhos reais em reconstruir a cadeia alimentar do jardim:

  • um pequeno charco ou ponto de água pode atrair rãs/sapos;
  • pilhas de ramos e folhas (em local discreto) dão abrigo a ouriços-cacheiros e insetos predadores;
  • zonas com cobertura e diversidade vegetal ajudam carábidos e outros caçadores.

Para quem está a começar, pense nas lesmas como indicador: surtos grandes costumam apontar para excesso de abrigo húmido junto às culturas, regas tardias, pouca diversidade e poucos predadores. Ajustar estes “fundamentos” costuma dar um alívio mais duradouro do que noites repetidas com lanterna e balde.

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