As cadeiras foram as primeiras a ir-se embora.
Aos 72 anos, Jean reparou que passava a maior parte do dia a rodar entre três: a cadeira do pequeno-almoço, a cadeira da televisão, a cadeira do computador. O contador de passos no pulso vibrava, solidário, por volta dos 2.000 passos, e a filha repetia sempre o mesmo refrão nas visitas de almoço ao domingo: “Pai, devias andar mais. Talvez inscrever-te num ginásio?” Ele acenava, prometia, esquecia, repetia. Como uma cassete em repetição.
Numa tarde, a ver o gato a saltar sem esforço do chão para a poltrona e depois para o parapeito da janela, algo fez clique. O gato não “fazia exercício”. Simplesmente… mexia-se, para cima e para baixo, esticava-se, equilibrava-se, torcia-se.
Jean perguntou-se, em silêncio: e se o segredo depois dos 70 não for andar mais, mas reaprender a mexer-se assim?
Porque é que o seu corpo depois dos 70 precisa de mais do que apenas caminhadas
Passámos anos a ouvir que 10.000 passos por dia são o santo graal.
Para muita gente com mais de 70, esse número poderia muito bem estar na lua. Os joelhos doem, as ancas ficam rígidas e a ideia de um ginásio cheio, com música alta, parece castigo, não prevenção. E muitos ficam-se por: “Dou um passeio curto, chega.”
A coisa estranha é que um passeio curto trabalha um pouco o coração, sim, mas o seu futuro? Precisa de algo diferente.
A peça em falta tem menos a ver com distância e muito mais com padrões: dobrar, erguer, alcançar, sustentar, pausar.
Olhe para as pessoas no fim dos setenta que ainda sobem escadas sem agarrar no corrimão. Ou para a avó que consegue descer ao tapete para brincar com os netos e depois levantar-se sem uma batalha. Nem sempre parecem “desportivas”. Muitas nem registam nada no telemóvel.
O que têm em comum é este superpoder silencioso: continuam a praticar movimentos que desafiam equilíbrio, articulações e força ao mesmo tempo.
Estudos japoneses com adultos mais velhos mostram que quem usa regularmente o chão - descendo e voltando a levantar-se várias vezes por dia - tem um risco significativamente menor de perder independência.
Aqui vai a verdade simples: caminhar e ir ao ginásio uma vez por semana não chega para se manter verdadeiramente autónomo depois dos 70.
O cardio é apenas uma fatia do bolo. A sua longevidade está fortemente ligada ao que os investigadores chamam “capacidade funcional”: a capacidade de se levantar de uma cadeira sem usar as mãos, de levar sacos das compras, de virar a cabeça enquanto desce um lancil.
É aqui que um padrão específico de movimento muda tudo: transições repetidas entre níveis. Do chão para a cadeira. Da cadeira para de pé. De pé para um pequeno degrau.
Estas transições simples treinam pernas, core, equilíbrio e coordenação de uma só vez - como uma apólice de seguro de corpo inteiro para a próxima década.
O padrão de movimento que prolonga discretamente os anos de saúde
O padrão é surpreendentemente simples: praticar passar por três “alturas” várias vezes por dia - chão, assento, de pé.
Pense nisto como uma versão lenta e suave do que os treinadores chamam “get-ups”. Nada explosivo, nada acrobático. Apenas você, a explorar como o corpo passa do baixo ao alto e volta.
Uma sequência pode ser assim: sente-se numa cadeira estável, levante-se sem usar as mãos, volte a sentar-se, depois deslize um joelho até ao chão e regresse a sentado.
Noutro dia, pode começar no chão ao lado da cama e ir até ficar de pé, usando a estrutura da cama como apoio.
A maioria das quedas não acontece durante o desporto. Acontece em cozinhas, casas de banho e corredores quando alguém roda, se inclina ou tenta levantar-se depressa demais.
Treinar transições dá ao corpo uma “biblioteca” de formas de se mexer quando a vida o surpreende - um azulejo molhado, um tapete enrugado, um garfo que caiu.
Imagine a Maria, 79 anos, que começou a fazer cinco repetições de sentar-levantar, duas vezes por dia, e acrescentou uma sequência suave chão–joelho–de pé todos os fins de semana. Três meses depois, conseguia levantar-se do chão sozinha depois de jardinar. Antes, precisava do braço do marido.
O médico não viu uma atleta milagrosa. Viu quadríceps mais fortes, tornozelos mais estáveis e um sistema nervoso que tinha “ensaiado” precisamente o movimento que tantas vezes se torna uma crise depois dos 80.
Do ponto de vista da mecânica corporal, este padrão é ouro.
Cada transição recruta músculos grandes das coxas e glúteos, estabilizadores das ancas e tornozelos, e músculos profundos do core que protegem a coluna. Pense nisto como multitarefa para o corpo: força, mobilidade e equilíbrio, tudo num só movimento lento.
Ao mesmo tempo, o cérebro também aprende. O equilíbrio não está apenas nas pernas; está no ouvido interno e no sistema nervoso. Levantar-se de superfícies diferentes, em ângulos ligeiramente diferentes, obriga o cérebro a ajustar-se constantemente. Essa adaptabilidade é parte do que o impede de “congelar” ou entrar em pânico quando algo inesperado acontece.
Essa é a diferença entre “ser ativo” e estar verdadeiramente preparado para a vida.
Como praticar este padrão em segurança - mesmo que se sinta rígido
Comece onde está, não onde acha que “devia” estar.
Se ir ao chão lhe soa a escalar o Evereste, ignore isso por agora. Comece pela mudança de nível mais simples: da cadeira para de pé. Escolha uma cadeira estável, pés assentes no chão, joelhos alinhados sobre os tornozelos. Cruze os braços sobre o peito, incline-se ligeiramente para a frente e levante-se devagar. Volte a sentar-se com controlo.
Experimente 5 repetições, uma ou duas vezes por dia. Nos dias bons, acrescente mais uma. Nos dias de cansaço, mantenha o mesmo número.
Quando isso for gerível, pratique levantar-se de um assento ligeiramente mais baixo - uma almofada firme do sofá ou um banco.
Muitos adultos mais velhos ou forçam demasiado, demasiado cedo, ou retraem-se durante anos por medo. Ambas as vias roubam capacidade.
Se acordar dorido em todos os sítios errados ao fim do primeiro dia, vai desistir. Se nunca se desafiar, o corpo adapta-se silenciosamente a fazer cada vez menos.
Ouça as suas articulações como ouviria um velho amigo. Esforço moderado, algum calor nos músculos, talvez um pequeno tremor nas pernas? Normal. Dor aguda que o faz franzir a cara ou prender a respiração? Esse é o sinal para ajustar: use as mãos, eleve o assento ou reduza a amplitude.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. A vitória está em voltar a isto vezes suficientes para o corpo não se esquecer.
Quando estiver confortável com o sentar-levantar, pode acrescentar transições suaves para o chão com apoio. Coloque uma cadeira estável ou a cama por perto. A partir de ajoelhar com um joelho no chão, apoie as mãos na cadeira, leve um pé para a frente até ficar bem assente, e depois empurre com a perna e com a cadeira para se levantar. Inverta o processo para voltar a descer. Mexa-se devagar, quase como se estivesse a filmar um tutorial para um amigo.
“Depois de um mês a praticar subir e descer do chão com uma cadeira, deixei de ter medo de cair”, diz André, 76. “O medo era pior do que o meu equilíbrio real. Agora sei que consigo levantar-me outra vez.”
- Pratique mudanças de nível 3–5 vezes alguns dias por semana, não apenas de vez em quando.
- Use apoio sem vergonha - paredes, cadeiras e bancadas são ferramentas, não muletas.
- Varie as superfícies ao longo do tempo: cama, borda do sofá, degrau do jardim, tapete de ioga.
- Mantenha a expiração no esforço, como um pequeno suspiro, para evitar prender tensão.
- Pare uma repetição antes de ficar exausto, para que o corpo associe o padrão a sucesso, não a luta.
Repensar o que significa “ser ativo” depois dos 70
Esta forma de se mexer pede algo mais subtil do que disciplina: curiosidade.
Em vez de perseguir um treino perfeito, está a recuperar as ações do dia a dia que realmente decidem se consegue viver sozinho, viajar, brincar com os netos ou simplesmente desfrutar de ir até à praia e voltar.
Pode continuar a fazer a sua caminhada diária. Pode até gostar de uma aula semanal no ginásio. Mas a verdadeira mudança acontece quando começa a notar oportunidades: sentar-se num assento um pouco mais baixo, levantar-se do banco do jardim sem usar as mãos, agachar-se para chegar ao armário de baixo em vez de dobrar sempre pela coluna.
O corpo envelhecido não é um objeto frágil para embrulhar em algodão. É um arquivo vivo de hábitos, tanto protetores como limitadores. Esse arquivo pode ser editado, suavemente, através de movimento repetido e atento.
Nuns dias o padrão vai parecer fácil; noutros, desajeitado. Isso não significa que está a falhar. Significa que o seu sistema nervoso está a atualizar ficheiros antigos, a descobrir novas opções.
Pergunte a si próprio: se eu conseguisse levantar-me do chão com confiança, erguer-me de qualquer cadeira e subir um pequeno degrau sem agarrar em nada… quão diferentes seriam os próximos dez anos?
A resposta a essa pergunta raramente aparece num ecrã de passadeira.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Movimento de mudança de nível | Praticar transições entre chão, cadeira e posição de pé | Desenvolve força, equilíbrio e confiança em ações da vida real |
| Começar pela sua capacidade atual | Iniciar com sentar-levantar e progredir gradualmente com apoio | Reduz o risco de lesão e torna o hábito sustentável |
| Consistência acima da intensidade | Sessões curtas e regulares algumas vezes por semana | Melhora os anos de saúde sem o esgotar nem o sobrecarregar |
FAQ:
- Pergunta 1 É tarde demais para começar este tipo de movimento se tenho mais de 80?
- Pergunta 2 E se eu não conseguir ir ao chão de todo neste momento?
- Pergunta 3 Com que frequência devo praticar estas mudanças de nível?
- Pergunta 4 Este padrão pode substituir as minhas caminhadas ou o meu exercício habitual?
- Pergunta 5 E se eu tiver medo de cair enquanto pratico?
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