Janet, da contabilidade, fixava uma folha de cálculo, com o olhar vidrado, enquanto uma caixa de bolachas festivas, intacta, estava aberta no meio da mesa. Alguém fez uma piada sobre “precisar de férias das férias” e toda a gente se riu um pouco alto demais; depois, voltou o silêncio. Os telemóveis vibravam com stories no Instagram de árvores perfeitas e pijamas a condizer, enquanto, na vida real, as pessoas desmarcavam planos, discutiam com o parceiro e pesquisavam no Google “porque é que me sinto tão triste no Natal”.
Chamamos-lhe a tristeza das festas, como se fosse uma gripe sazonal inofensiva. Encolhemos os ombros e dizemos: “é normal, toda a gente se sente assim”.
E depois chega janeiro e os estragos já estão feitos.
Pare de chamar “cansaço de fim de ano” a um esgotamento profundo
Há um momento, por volta de meados de dezembro, em que tudo se mistura numa única lista interminável de tarefas. Está a responder a e-mails com uma mão e a procurar ideias de presentes com a outra. O sono fica para depois; a cafeína passa para primeiro. Diz às pessoas que está “só cansado”, como se isso explicasse o nó no estômago e a forma como o peito aperta às 3 da manhã. O mundo continua a repetir a mesma frase: é o fim do ano, claro que estás exausto. Por isso engole os sintomas e continua.
Uma gestora de marketing com quem falei descreveu a sensação como “andar em xarope”. Estava a bater metas, a aparecer em todas as festas do escritório, a fazer bolachas à meia-noite. No papel, estava a prosperar. Na realidade, já levava três semanas sem uma noite de sono decente, acordava com dores de cabeça todos os dias e chorava no duche, onde ninguém a ouvia. Mais tarde, o médico de família disse-lhe que não estava “um bocadinho cansada”: estava à beira de um burnout. Mesmo assim, naquele dezembro, foi a todas as trocas de Amigo Secreto, porque dizer que não parecia pior do que cair para o lado.
Quando rotulamos um esgotamento sério como “cansaço das festas”, vestimo-lo com um disfarce sazonal fofinho e fingimos que não é um sinal de alerta. Não faz um reinício mágico à meia-noite de 1 de janeiro. O stress crónico não consulta o calendário. Semanas longas de trabalho emocional extra, pressão financeira e obrigações sociais acumulam-se em cima de um ano já intenso. Essa mistura não cria apenas uma fase difícil. Pode desencadear ansiedade, depressão e sintomas físicos que não desaparecem com um fim de semana prolongado e uma vela perfumada.
Os 8 hábitos tóxicos que desculpamos todos os anos
Há um padrão em que muita gente escorrega a partir de meados de novembro. Duplicam a vida social, triplicam o tempo de ecrã, reduzem para metade o sono. Aceitam todos os convites - não porque queiram estar lá, mas porque dizer “talvez na próxima” parece uma traição. Depois passam a viagem de carro para casa a rever cada conversa, a perguntar-se se foram estranhos ou aborrecidos, e pegam no telemóvel no segundo em que entram pela porta. Não é só estar ocupado. É um ciclo.
Num bloco de notas de um terapeuta, fica assim:
- Comprometer-se em excesso com eventos para evitar desiludir os outros.
- Beber por emoção disfarçado de “espírito festivo”.
- Doomscrolling de atualizações da família e fotos de noivado.
- Gastar demais para validação ou alívio.
- Minimizar sinais de saúde mental (“estou só a dramatizar”).
- Usar comida como recompensa ou castigo.
- Manter-se em dinâmicas tóxicas porque “é só uma vez por ano”.
- Tratar janeiro como um botão mágico de reinício.
Cada um aparece em decisões pequenas: mais uma ronda de bebidas, mais um “sim” a planos, mais um presente que na verdade não pode pagar. Isolados, parecem inofensivos. Empilhados, esmagam-no.
Defendemos estes hábitos com desculpas sazonais. “É Natal, depois logo vejo.” “Ano novo, vida nova, não é?” Essa história soa reconfortante, mas retira urgência à dor real. Por baixo dos brilhos e dos memes sobre estar “farto” do ano, há muitas vezes luto por resolver, solidão ou ressentimento. Esses sentimentos não ficam mais leves só porque a folha do calendário vira. Ficam mais altos quando está de ressaca, privado de sono e preocupado com o saldo da conta. Chamar a tudo isso apenas tristeza das festas é como pendurar grinaldas num detetor de fumo e esperar que o fogo se apague sozinho.
Como sair da espiral sem se tornar um Grinch
Há um gesto simples e subvalorizado que muda todo o guião do fim do ano: escolher uma “linha de base” pessoal. Não uma rotina perfeita - apenas um nível mínimo de cuidado que se recusa a abandonar, por mais festivo que tudo fique. Pode ser: uma refeição a sério por dia que não seja comida em pé. Duas noites por semana sem planos sociais. Um limite rígido para mensagens de trabalho depois das 20h. Esta linha de base torna-se o seu contrato silencioso consigo mesmo. O resto é opcional; isto não.
A maioria das pessoas entra em dezembro com uma lista de obrigações externas e zero limites internos. É assim que acaba a chorar num corredor do supermercado porque não há a marca exata de bolachas que a família “espera”. Quando conhece a sua linha de base, pode começar a fazer pequenos ajustes honestos. Sair da festa às 22h em vez da meia-noite. Comprar menos presentes, mas escrever uma nota verdadeira em cada cartão. Dizer: “Gostava muito de ir, mas vou guardar este fim de semana para descansar.” É desconfortável da primeira vez. Depois acontece algo surpreendente: as pessoas ou respeitam, ou a reação delas diz-lhe muito sobre essa relação.
“A época festiva não torna dinâmicas saudáveis tóxicas”, disse-me uma psicóloga. “Revela as fissuras que já lá estavam e depois aumenta o volume.”
Quando olha para isto assim, definir limites deixa de parecer egoísmo e passa a ser manutenção básica.
- Pergunte a si próprio uma vez por semana: o que me está a drenar mais neste momento?
- Escolha uma coisa pequena que possa cancelar, delegar ou simplificar.
- Substitua por algo que realmente o restaure - nem que sejam só 20 minutos de silêncio a sério.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Mas fazê-lo uma ou duas vezes ao longo do mês pode ser a diferença entre um nevoeiro pesado e algo por onde consegue caminhar.
Uma forma diferente de sentir o fim do ano
Há uma versão de dezembro em que já não faz piadas sobre “tristeza das festas” como se fosse uma punchline. Repara no peso mais cedo. Dá-lhe um nome sem vergonha. Envia uma mensagem a um amigo a dizer: “Esta altura do ano é difícil para mim - podemos estar atentos um ao outro?” Continua a poder ver filmes pirosos e comer coisas em forma de estrela. Só deixa de sacrificar a sua saúde mental para manter uma imagem de como esta época “deveria” ser.
Numa noite calma entre dois grandes encontros, pode sentar-se com um caderno e perguntar: qual dos meus hábitos de fim de ano me parece tóxico quando sou mesmo honesto? Que expectativas estou a carregar que nunca foram minhas para começar? Isto não é um exercício de produtividade. É um teste de realidade. Algumas respostas vão doer. Outras vão soar a um alívio que tem adiado há anos. E, de repente, a ideia de “tristeza das festas” parece menos destino e mais um conjunto de escolhas que tem o direito de questionar.
Todos já vivemos aquele momento em que sorrimos para uma fotografia e, logo a seguir, expiramos assim que a câmara baixa. Esse intervalo entre o que mostra e o que sente é onde a mudança real começa. Não tem de resolver tudo este ano. Não tem de adorar esta época. Simplesmente não tem de fingir que a sua dor é festiva ou “normal”. Quando essa máscara cai, as festas deixam de ser um teste em que está a falhar e tornam-se outra coisa: um espelho e, talvez, devagar, uma oportunidade de escrever um final diferente.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Dar nome ao cansaço real | Distinguir burnout, stress crónico e simples “quebra de energia” | Compreender melhor os sinais de alerta e agir mais cedo |
| Identificar os 8 hábitos tóxicos | Compromisso excessivo, consumo excessivo, minimização do mal-estar, etc. | Dar nomes precisos ao que pesa realmente no fim do ano |
| Criar uma “linha de base” pessoal | Definir um mínimo inegociável de descanso, limites e apoio | Atravessar o período sem colapsar, sem abdicar de toda a alegria |
FAQ:
- Como sei se é “tristeza das festas” ou depressão a sério? Observe a duração e a intensidade: se o humor em baixo, a perda de interesse e as alterações no sono ou no apetite durarem mais de duas semanas e afetarem o trabalho, as relações ou o funcionamento básico, é altura de falar com um profissional em vez de atribuir tudo à época.
- É aceitável faltar a eventos de Natal se eles me deixam ansioso? Sim. Pode recusar, sair mais cedo ou sugerir alternativas mais pequenas; proteger a sua saúde mental é mais sustentável do que forçar-se a situações que o deixam esgotado ou em sofrimento.
- E se a minha família não respeitar os meus limites? Diga-os com clareza, repita-os com calma e mude o seu comportamento quando são ultrapassados - por exemplo, sair da sala ou terminar uma chamada - em vez de tentar convencer toda a gente a concordar consigo.
- As redes sociais podem mesmo piorar a tristeza das festas? Sim. Os highlight reels alimentam comparação e solidão, sobretudo se já estiver vulnerável; limitar o scroll e silenciar certas contas nesta altura pode aliviar a pressão de forma notória.
- Já é tarde demais para mudar os meus hábitos este ano? De todo: até uma pequena mudança - cancelar um plano, definir um limite de gastos, deitar-se mais cedo - pode criar algum espaço para respirar e mostrar-lhe que o guião não está fixo.
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