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Conheça o K-222, o submarino nuclear mais rápido da história, capaz de ultrapassar os 80 km/h.

Homem trabalhando em modelo de submarino em frente a um navio no mar, equipado com capacete e equipamento de medição.

A aposta soviética na velocidade bruta

Incorporado em 1969, o K-222 nasceu num período de tensão pós-Crise dos Mísseis de Cuba. A ideia soviética era simples (e arriscada): construir um submarino que conseguisse correr mais depressa do que qualquer perseguidor e, ainda assim, atacar à distância.

Conhecido na NATO como “classe Papa”, era um submarino de ataque com mísseis de cruzeiro (alguns podiam levar ogivas nucleares). O conceito não era patrulhar discretamente: era aproximar-se depressa, disparar e sair antes da reação inimiga.

O K-222 atingiu 44,7 nós em 1971 - cerca de 82,8 km/h - uma velocidade que nenhum submarino de combate igualou oficialmente desde então.

O objetivo inicial rondava os 38 nós, já muito acima do normal. Nos ensaios de 1971 foi além disso, combinando potência nuclear com um casco “limpo” hidrodinamicamente e, sobretudo, titânio (leve e resistente à corrosão, mas difícil e caro de trabalhar). Na prática, esse material também implicava soldaduras complexas e manutenção exigente - uma fatura que se paga ao longo de toda a vida do navio.

Porque é que 80 km/h debaixo de água é tão extraordinário

Debaixo de água, o “inimigo” é o arrasto: a resistência cresce rapidamente com a velocidade e a energia extra transforma-se em vibração e ruído. A partir de certas velocidades, surge também cavitação (bolhas que colapsam), o que aumenta ainda mais o barulho e a assinatura acústica.

  • Por volta de 25 nós (~46 km/h), a maioria dos submarinos de ataque já está em regime “rápido”.
  • Navios de superfície raramente sustentam mais de 30 nós por muito tempo por consumo e desgaste.
  • 44,7 nós colocavam o K-222 num patamar mais próximo de embarcações rápidas de superfície do que de um submarino típico.

Taticamente, a promessa era clara: reposicionamento rápido, capacidade de “apanhar” grupos navais e maior hipótese de escapar a torpedos mais antigos (que muitas vezes tinham velocidades máximas comparáveis, reduzindo a margem de manobra).

O ruído insuportável de ir depressa demais

A velocidade que o tornou famoso foi também o seu calcanhar de Aquiles. Para atingir aqueles números, o submarino trabalhava no limite: cargas elevadas no casco, vibrações e sistemas sob stress constante.

Houve relatos de problemas estruturais e de fadiga em alta velocidade - um ponto crítico num casco de titânio, onde o ganho em desempenho vinha com complexidade de fabricação, inspeção e reparação. Resultado: mais tempo em doca, mais custo e menos disponibilidade operacional.

À velocidade máxima, os níveis de ruído no interior do K-222 terão atingido cerca de 100 decibéis - semelhante a um concerto de rock ou a um martelo pneumático.

Para a tripulação, isto é mais do que desconforto. Como regra prática, exposições prolongadas a partir dos 85–90 dB(A) já exigem proteção auditiva e controlo apertado; 100 dB(A) acelera o risco de dano. Num submarino, onde o descanso e a comunicação são críticos, o ruído vira também um problema de desempenho humano (fadiga, stress, erros).

Militarmente, o efeito é ainda mais duro: quanto mais barulho, mais fácil é ser detetado por sonar. E, a alta velocidade, o próprio submarino costuma “ouvir pior” (ruído próprio a mascarar contactos), perdendo consciência situacional.

O acidente que selou o destino do K-222

O fim operacional do K-222 não veio diretamente do ruído, mas de um incidente no reator.

Em 30 de setembro de 1980, durante manutenção, procedimentos terão falhado e ocorreu um arranque descontrolado que danificou o núcleo do reator. Num submarino nuclear, um reator comprometido significa risco elevado, reparação difícil e, muitas vezes, um navio economicamente “condenado”.

A União Soviética manteve-o por mais alguns anos, mas o caminho estava traçado: foi retirado em 1988 e acabou desmantelado em 2010.

O K-222 tinha 106,6 metros de comprimento, transportava uma tripulação de cerca de 82 homens e ainda detém o recorde de velocidade apesar da sua curta carreira.

Porque é que outras marinhas não copiaram o recordista

Se era tão rápido, porque não virou padrão? Porque, debaixo de água, ganha quem for mais silencioso, não quem fizer o melhor “sprint”.

A experiência da Guerra Fria reforçou a prioridade: um submarino um pouco mais lento, mas discreto, consegue aproximar-se, seguir alvos durante dias e escolher o momento do ataque. Já um submarino muito rápido, mas ruidoso, tende a ser detetado mais cedo - e pode obrigar o adversário a reagir com helicópteros, aeronaves de patrulha e redes de sonares.

Hoje, é comum ver velocidades típicas na ordem dos 25 nós (~46 km/h) para submarinos de ataque em operação regular, reservando picos para evasão ou reposicionamento.

O USS Seawolf (1997) é frequentemente associado a uma velocidade máxima estimada perto dos 35 nós (~64 km/h), mas a reputação vem sobretudo de engenharia para reduzir ruído - o que ilustra a regra: velocidade só vale se não “gritar” no sonar.

Velocidade vs. furtividade: a troca debaixo de água

Nos projetos atuais, a velocidade é tratada como capacidade de curto prazo: usar quando é preciso, não como modo permanente. Em geral, mais velocidade significa mais potência, mais vibração e maior probabilidade de cavitação - tudo inimigo da furtividade.

Tipo de submarino Velocidade máxima típica Prioridade de conceção
Soviético K-222 44,7 nós (~82,8 km/h) Velocidade extrema, armamento pesado
Submarino nuclear de ataque moderno ~25 nós (~46 km/h) Furtividade e autonomia
Conceção norte-americana de alta velocidade (ex.: Seawolf) ~35 nós (~64 km/h) Equilíbrio entre velocidade e baixo ruído

Na prática, um submarino silencioso pode ficar à escuta, seguir um adversário e posicionar-se sem ser notado. Um submarino a 40 nós pode parecer invencível no papel, mas torna-se um “farol acústico” - útil para fugir em emergência, pouco ideal para caçar.

O que “submarino nuclear” significa realmente

A expressão é ambígua e convém separar:

  • Propulsão nuclear: um reator alimenta o navio, permitindo grande autonomia e longos períodos submerso (limitados mais por víveres e tripulação do que por combustível).
  • Armamento nuclear: capacidade de lançar armas nucleares (típico em submarinos de mísseis balísticos, mas também possível em algumas plataformas com mísseis/cruzeiro).

O K-222 era, de certeza, de propulsão nuclear e podia operar com mísseis capazes de transportar ogivas nucleares, dependendo da configuração.

Lições do K-222 para os oceanos de hoje

O K-222 continua relevante como aviso prático: perseguir velocidade máxima cobra sempre em ruído, desgaste e risco. E, em sistemas nucleares, a disciplina de procedimentos e manutenção não é “detalhe” - é determinante.

Hoje discute-se cada vez mais a combinação de plataformas: submarinos tripulados muito silenciosos para missões de alto valor e veículos não tripulados para tarefas de maior risco (iscas, reconhecimento, saturação). Mesmo nesses conceitos, a troca mantém-se: mais velocidade tende a piorar a discrição.

No fim, o K-222 mostra dois limites difíceis de contornar: a física (arrasto e cavitação) e o fator humano (ruído e segurança). É um recorde impressionante - e um lembrete de que, debaixo de água, ser invisível costuma valer mais do que ser rápido.

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